EUA e dólar em xeque? Kinea vê exagero — e aposta no “excepcionalismo americano”

Gestora aponta pessimismo acima da medida em projeções de queda estrutural dos EUA e afirma que fundamentos institucionais e tecnológicos ainda sustentam o dólar como principal reserva global

Paulo Barros

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A Kinea Investimentos afirmou nesta quinta-feira (22) que considera prematuras as projeções que indicam um colapso da hegemonia dos Estados Unidos ou o fim do status do dólar como principal moeda de reserva global, mesmo em meio ao agravamento da situação fiscal americana.

Em relatório, a gestora defende que os fundamentos que sustentam a posição privilegiada dos EUA no cenário internacional permanecem robustos, apesar da escalada da dívida pública e dos chamados déficits gêmeos — fiscal e em conta corrente.

A casa reconhece que a percepção de risco em relação aos ativos americanos aumentou, e que Donald Trump foi responsável por “abalos preocupantes” na estabilidade e previsibilidade das instituições americanas. No entanto, destaca que “apostar contra os Estados Unidos costuma ser um erro recorrente”, e que as instituições do país têm histórico de resistência e capacidade de adaptação frente a ciclos de crise.

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Demografia e inovação como diferenciais, dólar dominante

Entre os fatores que sustentam o otimismo da Kinea estão a demografia favorável dos EUA, com fluxos migratórios constantes “a despeito das disputas políticas sobre o tema”, a liderança tecnológica e acadêmica, e uma cultura empreendedora que permite à economia americana reinventar-se com mais facilidade que outras potências.

“Esses fatores formam uma espécie de colchão de segurança do excepcionalismo americano”, avalia a gestora.

A Kinea também rebate a tese de que o dólar estaria perdendo seu papel como moeda hegemônica apontando que os ativos americanos perderam valor recentemente, mas ainda estão em patamar elevado na comparação com seus pares, e o dólar responde por cerca de 60% das reservas cambiais globais, “patamar praticamente inalterado desde o fim da Guerra Fria”.

Embora admita que há “rachaduras econômicas”, a Kinea argumenta que “a confiança no excepcionalismo norte-americano pode estar estremecida, mas ainda é presente no credo dos investidores globais”.

Caminho não é livre de riscos

Apesar do tom otimista, o relatório alerta para a importância da estabilidade institucional e aponta que o populismo pode colocar em xeque a previsibilidade econômica. O texto menciona que “esse risco institucional torna-se ainda mais relevante porque nos últimos anos a prosperidade americana vinha sendo precificada como certa pelos mercados”.

Ainda assim, a gestora conclui que, diante da resiliência histórica e dos fundamentos estruturais, as instituições americanas resistirão e os EUA devem se reerguer, provavelmente apoiados pela inteligência artificial.

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“A ‘Brand USA’ pode estar retorcida no momento, mas longe de estar quebrada. Apostar contra os Estados Unidos é uma tarefa árdua”.

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)