Estudo do FMI discute conceitos e soluções para crises financeiras

Prover liquidez aos mercados não é única solução, mas pode ser vital para estancar crise de solvência bancária

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SÃO PAULO – Frente ao que é encarado como uma gigante e sistêmica crise financeira, a resposta das autoridades mundo a fora tem sido marcada por intervenções e amplo suporte às companhias financeiras. Mas será esta a única alternativa?

Buscando responder a esta pergunta, bem como à sedimentação de conceitos mais sólidos para a definição de períodos críticos, os pesquisadores Luc Laeven e Fabian Valencia, do FMI (Fundo Monetário Internacional), elaboraram estudo sobre os principais problemas financeiros vivenciados desde 1970.

O que é uma crise financeira?

Mesclando critérios quantitativos com avaliações subjetivas, os autores do estudo “Systemic Banking Crises: A New Database” identificam três tipos diferentes de crises: bancária, cambial e de dívida soberana, com respectivamente 124, 208 e 63 episódios nos últimos 38 anos.

No caso da primeira, é preciso haver grande quantidade de calotes, com instituições financeiras e outras companhias enfrentando dificuldades para rolar seus contratos, acompanhadas por forte desvalorização de ativos e possível elevação de taxas de juro real, com forte desaceleração no fluxo de capitais. Qualquer semelhanças com algo que você tenha visto nos últimos tempos certamente não é mera coincidência.

Já as crises cambiais são definidas de modo mais objetivo: depreciação nominal da moeda superior a 30%, conjugada à uma aceleração no ritmo de desvalorização frente ao ano anterior. Por fim, as crises de dívida são definidas pela existência de reestruturações ou calotes de dívidas emitidas por Estados.

Risco moral

Embora pareça existir um razoável consenso sobre quais medidas devem ser implantadas atualmente, o estudo afirma categoricamente que a provisão de liquidez e garantias governamentais sobre obrigações financeiras, “tendem a ser custosas e não necessariamente acelerar a velocidade da recuperação econômica”.

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A promoção de ajuda a bancos pode ser contraproducente, ao incentivar a incidência de prejuízos e riscos futuros, à custa do Governo, o que pode resultar em impostos mais pesados e possíveis crises ainda mais severas.

Desastres

Por vezes, crises bancárias e cambiais estão relacionadas, em um fenômeno classificado como “crises gêmeas”, quando a segunda ocorre um ano antes ou um ano depois dos problemas sistêmicos com bancos.

Segundo os autores, este foi o caso do Brasil entre 1989 e 1990 e 1993 e 1994, em que as crises bancárias seguiram fortes alterações no plano cambial. Um terceiro caso pode ser ainda mais devastador, a chamada “crise tripla”, em que as três crises – cambial, bancária e da dívida – ocorrem em curto intervalo, como na Argentina, entre 2001 e 2002.

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O que fazer?

Ainda que mantenham ponto de vista crítico, Laeven e Valencia entendem que “as respostas a crises financeiras normalmente dependem da natureza delas”. Portanto, o aperto fiscal pode ser necessário, quando a causa do problema são políticas mais dispendiosas, enquanto maior rigidez monetária seria positiva para conter pressões nos mercados de crédito.

Medidas paliativas e inadequadas, adotadas na esperança de que os problemas sejam resolvidos parcialmente, podem comprometer algo essencial, segundo os analistas: a velocidade. Quão mais rápido os mercados reconhecerem o problema e a crise atingir nível sistêmico, tanto mais veloz será a recapitalização das instituições e a adoção de medidas corretas.

“No entanto, em crises caracterizadas por problemas de liquidez e solvência, os bancos centrais devem estar prontos a prover liquidez”, admitem os analistas, que também entendem ser importante a adoção de medidas que recuperem a confiança de investidores no sistema, como a proteção de depósitos em tempos de corrida bancária.

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Subprime

Dialogando com os acontecimentos recentes nos EUA, os autores entendem que o impacto adverso dos problemas no lado real da economia deve ser contido, sendo programas centrados no alívio das condições de crédito e reestruturação corporativas aparentemente mais efetivos.

Em relação às medidas adotadas para combater a atual crise, os estudiosos afirmam que “possuem muito em comum com aquelas implantadas em episódios prévios, mas é muito cedo para obtermos quaisquer conclusões sobre sua efetividade”.