Estrangeiro teve 1 motivo em especial para voltar para B3 em julho: movimento durará?

Entrada de R$ 2,56 bilhões na B3 em julho foi impulsionada por migração de recursos para fora das ações ligadas à inteligência artificial, inflação mais comportada e valuations descontados; eleições de 2026, porém, podem limitar continuidade do movimento

Lara Rizério

Ativos mencionados na matéria

Painel de cotações da B3 em São Paulo -19/10/2021 (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)
Painel de cotações da B3 em São Paulo -19/10/2021 (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

Publicidade

O investidor estrangeiro voltou a comprar ações brasileiras em julho após dois meses de retirada dos ativos. Dados da B3 mostraram ingresso líquido de cerca de R$ 2,56 bilhões em julho, ajudando o Ibovespa a avançar 3,5% no mês, seu primeiro desempenho mensal positivo desde fevereiro.

Segundo gestores e estrategistas, a principal explicação para o movimento não está necessariamente em uma melhora estrutural da percepção sobre o Brasil, mas em uma mudança relevante no cenário global. Depois de meses de concentração dos investimentos em empresas ligadas à inteligência artificial nos Estados Unidos e na Ásia, parte dos gestores internacionais passou a buscar diversificação em mercados mais descontados e menos expostos a essa temática.

Na avaliação do Itaú BBA, julho foi marcado por uma rotação global de portfólios que favoreceu mercados fora da cadeia de inteligência artificial. Após a forte valorização de empresas de semicondutores, memória e infraestrutura para data centers, investidores começaram a recalibrar suas posições em um contexto de valuations mais elevados e maior concentração das carteiras. Nesse ambiente, o Brasil voltou a chamar atenção por negociar a múltiplos considerados baratos e por oferecer exposição a setores pouco correlacionados com tecnologia. A entrada de aproximadamente R$ 3,3 bilhões em recursos estrangeiros ajudou o mercado brasileiro a absorver eventos potencialmente negativos, como o novo tarifaço dos Estados Unidos e a postura mais dura do Federal Reserve.

A XP tem diagnóstico semelhante. Segundo a casa, a forte correção das ações ligadas à inteligência artificial foi o principal evento dos mercados globais em julho. O movimento foi desencadeado por preocupações com a crescente concorrência chinesa no setor e questionamentos sobre a sustentabilidade do ritmo de investimentos em IA. Com isso, parte do fluxo global que havia migrado para Estados Unidos e Ásia voltou a procurar mercados como o Brasil, contribuindo para o ingresso de capital estrangeiro e para a valorização do Ibovespa em reais e em dólares.

O JPMorgan também atribui a melhora dos fluxos ao esfriamento da chamada “AI trade”. Segundo o banco, a redução do entusiasmo com ativos ligados à inteligência artificial fez investidores voltarem a olhar para operações associadas a ativos tangíveis e de baixa obsolescência, estratégia que favorece economias exportadoras de commodities. Nessa dinâmica, Brasil e Colômbia apareceram entre os principais beneficiários. Além disso, a alta do petróleo, que avançou mais de 20% em julho em meio às tensões no Oriente Médio, beneficia parte relevante das empresas latino-americanas, ao contrário do que acontece em muitos mercados asiáticos dependentes de importação da commodity.

Além da rotação global, indicadores domésticos também contribuíram para melhorar o humor dos investidores.

Dados de inflação vieram abaixo das expectativas ao longo do mês. O IPCA de junho mostrou desaceleração em relação a maio, enquanto o IPCA-15 de julho ficou abaixo das projeções do mercado. Para a XP, esses números ajudaram a reduzir as expectativas de inflação e as taxas de juros de curto prazo, reforçando a percepção de que o Banco Central pode continuar o ciclo de flexibilização monetária.

O Itaú BBA também destacou que a desaceleração inflacionária levou sua equipe macroeconômica a revisar a projeção para a taxa final da Selic neste ciclo para 13,75%, contra expectativa anterior de 14%. Ainda que a mudança seja pequena, ela foi interpretada como positiva para ativos domésticos.

Para Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, o Brasil continua atraindo atenção dos investidores internacionais graças à combinação entre valuations descontados e juros reais elevados.

Continua depois da publicidade

“O fluxo estrangeiro continuou sendo um fator importante para a Bolsa brasileira. Apesar da maior volatilidade, o investidor internacional ainda enxerga o Brasil como um mercado com valuations atrativos e juros reais elevados, o que ajudou a reduzir a pressão vendedora”, afirma.

Estrangeiro vai aportar mais capital?

Mas a grande questão para agosto e os próximos meses é se esse movimento terá continuidade.

A resposta mais cautelosa vem do JPMorgan, vendo melhora dos fluxos em julho, mas apontando que a trégua pode não durar muito. O principal motivo é a proximidade das eleições presidenciais de outubro.

Continua depois da publicidade

Segundo a instituição, historicamente o mercado brasileiro costuma apresentar desempenho inferior nos meses que antecedem as eleições. Além disso, o ambiente macroeconômico se tornou menos favorável do que o esperado no início do ano. O banco lembra que a expectativa de queda mais intensa da Selic praticamente desapareceu, com a projeção agora restrita a apenas mais dois cortes de 0,25 ponto percentual. Paralelamente, o risco de uma nova alta de juros pelo Federal Reserve reduz o espaço para a flexibilização monetária no Brasil.

A XP também chama atenção para a permanência de desafios relevantes. Apesar do retorno do capital estrangeiro, a casa destaca que os juros reais brasileiros continuam próximos de 8%, refletindo preocupações fiscais e pressões na ponta longa da curva de juros. Ainda assim, a corretora argumenta que a Bolsa segue atrativa em termos de valuation, especialmente quando comparada aos padrões históricos, mantendo assim projeção de Ibovespa a 200 mil pontos ao fim de 2026, enquanto o índice fechou a 177.999 pontos o mês de julho.

Já Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, vê condições para que o fluxo continue oferecendo suporte ao mercado, desde que alguns fatores permaneçam favoráveis.

Continua depois da publicidade

“Se a inflação continuar cedendo e o fluxo estrangeiro permanecer consistente, o viés para a Bolsa segue positivo, embora a volatilidade deva aumentar diante da combinação entre resultados corporativos e riscos fiscais ainda presentes”, afirma.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.