Estão suspensas por uma semana as regras básicas da economia

Essa foi a semana em que as principais regras da economia foram violadas impunemente

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PARIS – Essa foi a semana em que as principais regras da economia foram violadas impunemente. A Argentina está quebrando, mas o mercado da City nem sentiu, com o C-bond da dívida externa brasileira em forte alta, chegando a 76,5% do valor de face. O desemprego aumentou nos EUA, mas o índice de confiança do consumidor também. O Banco Central Europeu manteve em 3,75% as taxas de juros, cimentando a recessão da eurozona, mas a economia européia vai crescer 1,6% ou 1,7%, acima da americana, em recessão, com o PIB recuando no último trimestre 1,1%. Mesmo assim, o dólar continuou se fortalecendo diante do euro e do iene. Ninguém faz nada na comunidade européia, à espera, dizem, do reaquecimento da economia americana. EUA recuam, dólar sobe, euro cai. Dá para entender? E, acreditem, festa na Coréia do Sul porque o PIB que crescia em média 7% e 8% vai ficar em 2,8% neste ano e, rojões!

A explicação talvez seja que esta é uma situação atípica – crescimento isolado excepcional de um país, desaceleração, terror inimaginável, guerra talvez mais longa, recessão e inércia – para a qual os manuais de economia não estão preparados.
Recuperação demora

“Rumores sobre a recuperação americana parecem prematuros. As vendas estão em queda e isso significa que as empresas terão de demitir ainda mais”, afirma o economista-chefe da Standard & Poors, David Wyss. “A economia americana ficará em recessão nos próximos nove meses”, acrescenta o economista Jack Myslenski, em conferência promovida pela Lehman Brothers, sem ser contestado. Sua empresa, a Parker Hannifin, que produz equipamentos hidráulicos e de automação, já despediu 5.700 empregados e fechou 27 fábricas este ano. Há sinais contraditórios de todos os lados e a única certeza, nos EUA, é que, na reunião de terça-feira, o Banco Central cortará o juro em 0,25 ponto, trazendo-o para 1,75%.
À espera de novo dos EUA

Na eurozona, o Banco Central Europeu (BCE), de forma inacreditável, manteve os juros em 3,75%, mesmo com a inflação tendo recuado de 2,4% em outubro para 2,1% em novembro. Queremos 2%, diz o banco. Mas o que o BCE está esperando, mesmo vendo que a maior economia européia, a alemã, vai crescer apenas 0,7%? A recuperação americana. “A economia (alemã e européia) continua caindo ladeira abaixo e a recuperação que o presidente do BCE, Win Duinseberg, espera para a primavera (depois de abril), é improvável”, afirma o economista do Commerrzbank, Christoph Weil. Para outro, Rachi Medjaoui, do Sogespot, em Paris, que tem um fundo de US$ 15 bilhões, “o mercado acredita que a economia européia crescerá rapidamente, acompanhando o crescimento americano, mas eu acho que é muito cedo para dizer isso. Há uma forte probilidade de que teremos uma recessão”.

E lá veio o fast track

E o fast track, ou seja, autorização para que o presidente americano negocie questões do comércio exterior com outros países ou blocos econômicos sem ter de consultar o Congresso, aprovado pela Câmara dos Deputados dos EUA? Veio, afinal, após sete anos, mas cheio de restrições e filigranas, principalmente na área agrícola, que interessa ao Brasil, e em outros setores. O diálogo telefônico entre o colunista e uma fonte do mercado de Londres, sexta-feira, dá uma idéia meio caricata, mas real do que se trata.

Coluna – O que você acha de eles terem aprovado o fast track, mas estarem dando ao mesmo tempo mais US$ 171 bilhões, por dez anos, para aumentar os subsídios à agricultura? E a tal “cláusula cambial” que, dizem, pode ser usada pelos exportadores (nós) para prejudicar o produtor americano?
Fonte – O que foi aprovado não é o melhor, mas já é muito. Com o que ficou, é possível enfrentar essas questões de que você fala e dar a volta por cima.
Coluna – O que veio é pouco, mas ajuda?

Fonte – É isso mesmo. É melhor que nada. Os democratas queriam mais, porém o que está aí, é bom.
Coluna – Quer dizer, o poder dos lobbies americanos sai do Capitólio e muda para a Casa Branca?
Fonte – (silêncio)

Coluna – Você acha que Bush vai facilitar as importações em vez de proteger os produtores internos para criar empregos e reativar a economia americana, em recessão? Importar mais, por quê?

Fonte – Olha, você vive muito tempo em Paris e sua visão está distorcida pelo espírito do protecionismo francês. Felizmente, os EUA não são a França…

Proteção seletiva

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É isso aí. Os EUA não são a França, os EUA são proporcionalmente bem menos protecionistas que a União Européia, mas eles aplicam uma espécie de “proteção seletiva”, muito esperta. Selecionam os principais produtos importados de um país e os taxam fortemente. No caso do Brasil, eles selecionaram os 15 produtos que mais importam de nós e aplicam barreiras médias da ordem de 45,6%. Enquanto isso, nós aplicamos barreiras de apenas 14,3% sobre os 15 principais produtos que eles nos exportam mais… De uma forma geral, mais de 60% dos produtos que o Brasil exporta para o mercado americano estão sujeitos a algum tipo de proteção que não vai se reduzir por causa do fast track. Antes, quem decidia era o Congresso, agora vai ser o superconservador em assuntos de comércio exterior, Bush, o filho…
Marcopolo exporta mais

O diretor-geral da Marcopolo, empresa de produção de ônibus, José Rubens De la Rosa, informa à coluna que já fechou encomendas para exportar no próximo ano 2 mil ônibus para o Oriente Médio. Para atender aos pedidos, ao contrário de outras que estão demitindo, a Marcopolo suspendeu as tradicionais férias coletivas de fim de ano. Na próxima semana, seguem 150 ônibus. “Com isso, vamos superar a barreira de faturamento de R$ 1 bilhão”, afirma ele. Além da exportação de ônibus completos e carrocerias desmontadas, a Marcopolo está internacionalizando sua produção, instalando fábricas na África do Sul, Portugal, México, Argentina e Colômbia, e está concluindo uma joint-venture de transferência de tecnologia com a italiana Iveco, para produção de ônibus na China. É isso aí. Quem quer e sabe, exporta.

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