Espantar fantasma de 1929 pode ter amaldiçoado os EUA com uma década perdida

Como consequência do anti-crise, pós-crise aponta forte correlação com o Japão da década de 1990; futuro volta a remeter ao passado

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SÃO PAULO – A crise nem foi superada e o pós-crise já começa a incomodar. Quando os problemas se revelaram para o mundo, o mundo associou o que estava por vir a um exemplo extremo, a Grande Depressão. Na iminência de um crash daquelas proporções, os governos correram com a experiência do que havia dado certo ou errado naquela época.

A partir do ponto que o cenário começa a dar sinais de melhora, surgem as primeiras projeções para o que está por vir. Já que a Grande Depressão não reviveu como muitos acreditavam que poderia, bola para frente. Agora, o mercado volta a olhar para o futuro, ainda sob a sombra de um passado revelador.

2 possibilidades, 1 escolha

Quando as autoridades sentaram para debater o desafio da crise, era preciso evitar uma nova Grande Depressão. Pode ter partido daí a estratégia de tantos estímulos, de presença tão marcante do Federal Reserve, por exemplo, que não fez parte da história do crash de 1929. Quando Bernanke sentou para pensar a crise, deve ter colocado duas possibilidades a seu alcance: Grande Depressão ou Década Perdida?

As políticas fiscal e monetária expansionistas ao extremo ajudaram a evitar que a primeira se repetisse. Por outro lado, a injeção de recursos na economia gerou elevado déficit público. Para estabilização, mecanismos de escape a estas políticas são fundamentais. O pós-crise começa a ser pensado pelo desafio de sair destas políticas extremas, pela incerteza entre inflação e deflação, pela ideia de que 1929 ficou para trás, mas o Japão da década de 1990 pode estar à frente.

A lição japonesa

No final da década de 1980, o sistema financeiro japonês se via em meio de uma onda de investimentos especulativos. Vinda de uma fase de grande esplendor, a economia do país asiático apresentava taxas de juro significativamente baixas, com crédito barato e muito acessível. A avalanche de investimentos começou a se tornar insustentável; uma hora ou outra, a bolha inevitavelmente iria estourar.

Para evitar impactos mais avassaladores, o governo japonês passou a aumentar as taxa de juro no início da década de 1990. O mercado não assimilou bem. A mudança abrupta de cenário restringiu o avanço da avalanche especulativa, mas revelou como consequência uma crise da dívida pública e complicou a situação para muitos bancos, que tinham de ser resgatados.

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Uma década perdida

Consolidação do setor bancário semelhante à vista recentemente nos Estados Unidos foi inevitável. O crédito se tornou algo difícil de obter. A economia real respondeu com elevado grau de endividamento das companhias e uma piora nos níveis de desemprego. O governo agiu para estimular a atividade. Derrubou as taxas de volta para próximo de 0% ao ano e lançou alguns programas de estímulo à economia.

Com o passar dos anos, as iniciativas do governo foram se provando incapazes de resolver os inúmeros problemas que seguravam o crescimento do promissor asiático. Enquanto isso, o déficit público foi crescendo. Na virada do século, o Japão conseguiu se estabilizar e se consolidar como a segunda grande economia do mundo, mas olhava para trás e via quase 10 anos de baixos níveis de crescimento e um ambiente desconfortável para a economia real.

Associação inevitável

As semelhanças são enormes. No final de abril, o atual Nobel em economia Paul Krugman alertou para as coincidências entre os dois períodos, ambos de “sistema financeiro em dificuldades, fraca procura e apoio orçamentário útil, mas limitado” pelos governos.

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Ultimamente, o assunto são as maneiras de sair das atuais políticas governamentais extremas da maneira menos traumática possível. O banco Natixis comparou o cenário atual ao caso japonês citando que a Década Perdida fornece “um exemplo claro de estratégia de escape prematura”.

Um dos maiores especialistas do mundo em crises financeiras, Bernanke inevitavelmente pensou em escapar de uma Grande Depressão sabendo da ameaça posterior de uma década perdida. Cada vez mais correlacionado com o passado, o futuro parece muito indefinido, mesmo com o esforço do mercado para adivinhá-lo.