Escalpelar: como usar velocidade e spreads a seu favor no mercado de ações

Investidores conhecem este termo como a busca de ganhos com arbitragem entre ordens de compra e venda

Por  Equipe InfoMoney

SÃO PAULO – Escalpelar. Uma prática de guerrilha dos índios norte-americanos, acidente comum entre as mulheres da região amazônica, ou, para os mais modernos, passatempo do personagem Aldo Raine no filme de Quentin Tarantino. Além de todas colocações, escalpelamento também é, acredite, uma estratégia de investimento, que busca ganhos com arbitragem entre ordens de compra e venda postas no livro de ofertas.

Observando o comportamento das ofertas, que podem estar pendendo mais para o lado comprador ou vendedor, investidores assumem e liquidam posições em um pequeno período de tempo, visando os ganhos entre os preços de compra e venda, o chamado spread. “O spread segue o mesmo raciocínio do book, onde será avaliado se há maior pressão compradora, ou vendedora”, explica Leandro Martins, professor do Seu Consultor Financeiro. 


Régua do livro de ofertas do Profit Chart

Partindo do princípio de que decompondo os movimentos dos preços intraday em timeframes suficientemente pequenos é possível encontrar momentos em que as cotações permanecem estáticas, os escalpeladores colocam ordens casadas de compra e venda buscando pequenos lucros com limitada exposição ao risco, uma vez que eles liquidam suas posições rapidamente.

Liquidez
Como os ganhos por negócio tendem a serem pequenos, esses negócios precisam envolver quantidades significativas de ações e serem repetidos diversas vezes ao longo do pregão para atingirem uma rentabilidade mais expressiva. Em vista desta dinâmica, o escalpelamento pede por ações mais líquidas, que podem apresentar um livro de ofertas mais extenso e maior número de interessados. 

Contudo, lembra Martins, justamente nesses papéis em maior evidência, os spreads tendem a ser menores. “Ações mais negociadas apresentam spreads menores, por exemplo, compra a R$ 33,01 e venda a R$ 33,02”. O grande desafio para este tipo de investidor é o timing de colocação de suas ordens, uma vez que, em questão de segundos, os gaps entre os lados comprador e vendedor podem se fechar e até se inverter.

Logo, para conseguir operar esta estratégia são necessários alguns aparatos técnicos: gráficos com timeframes reduzidos, acesso a plataformas de negociação diferenciadas, com maior velocidade de colocação de ordens e ferramentas de leitura do livro de ofertas, como a régua de spread. Posto desta forma, escalpeladores atuam em um nível quase profissional, operando horas e horas para somar pequenos lucros. De fato, sua atuação em muito se assemelha a outra figura conhecida no ambiente da bolsa de valores: o formador de mercado.


Imagem do livro de ofertas do Profit Chart

Formador de mercado 
Definidos pela BM&F Bovespa como “agente de liquidez, facilitador de liquidez e promotor de negócios”, o formador de mercado é o profissional que se propõe a garantir liquidez mínima e referência de preço para ativos previamente credenciados, fatores de destaque na análise da eficiência no mercado de capitais. Ele o faz através da colocação de ofertas visando equalizar as forças compradora e vendedora.

Em outras palavras, o formador de mercado busca estabelecer um preço atrativo para um ativo, para que outros investidores se interessem pelo papel sem temerem a menor liquidez.

Contudo, como todo profissional, ele busca lucro com seu trabalho, o que não é auferido por conta das oscilações do papel, e sim pela diferença entre preço de compra e de venda – o spread citado acima.

Nesse sentido ele age como um corretor, comprando barato e vendendo caro. Os pequenos ganhos feitos com estes negócios formam o lucro deste tipo de profissional, assim como os escalpeladores.

Contudo, por conta de seu perfil profissional, os formadores de mercado têm certas vantagens, como acesso a ferramentas mais avançadas, maior velocidade de execução de ordens, maior capital de investimento e isenção de taxas de corretagem.

Esta, aliás, é uma das dicas que Leandro Martins dá aos interessados neste tipo de estratégia – ao procurar um corretora, busque aquelas que têm corretagem fixa ou com alta devolução da tabela Bovespa – lembre-se que estes custos são o primeiro obstáculo ao lucro.

“O investidor pessoa física deve-se utilizar do privilégio de não ser pesado e operar com maior facilidade”, recomenda.

De frações para decimais
As operações de escalpelamento têm sua origem no antigo padrão de precificação dos mercados, que dividiam a unidade monetária em oito partes. Isto evolui de um método de contagem com as mãos, assim como o sistema decimal. Neste método em particular usa-se os polegares para contar grupos de quatro – após contar os quatro dedos indicadores e levanta-se o polegar para indicar um grupo de quatro. Dois polegares são equivalentes a oito. Assim, quando da fundação do mercado de ações norte-americano, os preços dos papéis eram baseados em partes de oito, o que fazia com que o menor spread possível de um ativo era de US$ 0,125. Logo, os saltos de preços se davam de maneira mais rápida, diminuindo o tempo em que o investidor tinha que permanecer com o ativo. Com a adoção do sistema decimal de precificação em 2000, com o Common Cents Stock Pricing Act, este padrão foi abandonado, diminuindo o tamanho dos spreads para US$ 0,01.

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