Escalada do dólar: inflação e queda nas commodities são os grandes prejuízos

Especialistas revisam projeções para divisa e para inflação em 2011 e 2012; indicadores já mostram mudanças

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SÃO PAULO – Os últimos dias de bastante instabilidade no mercado cambial, com o dólar abandonando a faixa de R$ 1,70 na semana passada para chegar aos atuais R$ 1,85, fizeram com que especialistas do assunto começassem a levantar algumas questões sobre os impactos dessa movimentação abrupta na inflação e também no mercado de commodities brasileiro.

“Ao que tudo indica, o mercado começou a incorporar à sua expectativa de inflação, medida pelo diferencial dos retornos dos papéis federais pré e pós, o impacto da forte depreciação do real”, explica o economista da MCM Consultores, Antônio Madeira.

Segundo Madeira, a força deste movimento pode ser avaliada pelo fato de que a expectativa de inflação – apurada na NTN-B (Nota do Tesouro Nacional, série B) superou o teto da meta, o que não acontecia desde meados de 2008.

Para o economista Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora de Câmbio, o caos externo não influencia de forma direta o câmbio brasileiro, mas sim marginalmente. “O governo sempre soube que, no País, o mercado de derivativos determinava a taxa à vista. Quando as autoridades perceberam que o real valorizado asfixiava a indústria não agrícola, interveio, criando limitações e tributando-o com o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Com a medida, o mercado de derivativos ficou travado, sem liquidez”, explica.

Novo cenário cambial deteriora inflação
Aliada às causas da valorização do dólar em relação ao real, a piora na expectativa do mercado em relação ao curso da inflação provavelmente se deveu à percepção de que a depreciação da taxa de câmbio é mais duradoura do que o imaginado até então. “Parece não ser coincidência o fato de que o movimento ascendente se tenha iniciado pouco depois da divulgação, no dia 8, da ata da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do final de agosto, que reduziu a selic em 0,5 ponto percentual”, explica Madeira.

Conforme o especialista da MCM, as preocupações inflacionárias do mercado procedem, já que o preço das commodities produzidas no País aumentam junto com as cotações do dólar, tendo em vista que esses preços estão lastreados na moeda norte-americana. “Em primeiro lugar, o efeito final da queda dos preços das commodities no mercado internacional (resultado do enfraquecimento das perspectivas de crescimento mundial e da valorização do dólar) e da depreciação do real tem sido favorável ao aumento da inflação no Brasil”, escreve em relatório.

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Por falar em commodities…
Este seguramente é um dos segmentps da economia que mais sofre com a brusca valorização do dólar. Embora os preços das commodities tenham recuado no mercado internacional, a depreciação do real obervada nas últimas sessões foi acentuada demais, e o resultado indica pressão de preços no atacado, tanto agrícola quanto industrial.

Desde 17 de agosto, o CRB em reais (Commodity Research Bureau) índice que acompanha a cotação de 25 commodities, aumentou 12,0%. Ao mesmo tempo, os preços dos produtos importados, medidos em reais, também estão aumentando de forma generalizada, diz o especialista da MCM. “Isto indica que as matérias-primas e bens de capital para a indústria, e os bens de consumo que complementam a oferta doméstica, não estão contribuindo para disciplinar o aumento de preços internos”, ressalta.

Prova disso foram os dados do mercado de trabalho, divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quinta-feira (22), que mostraram taxa de desemprego passou de 6,0% para 5,9% entre julho e agosto, bem como o novo aumento da massa real de rendimento, na mesma base de comparação.

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“Ocorre que os produtos comprados no exterior também apresentam aumentos de preços em reais, espalhados por todas as categorias de uso. Ou seja, as importações não estão cumprindo o papel de disciplinar o aumento de preços domésticos”, diz.

Impacto do câmbio na inflação
Finalmente, os exercícios de projeção – considerando taxa de câmbio mais depreciada no final deste e do próximo ano – são unânimes em mostrar taxas de inflação mais altas, estourando o teto da meta em 2011 e em 2012. É possível identificar tais pressões observando o IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo), da FGV (Fundação Getulio Vargas), onde é possível ver que o impacto do salto recente da taxa de câmbio poderá aparecer no curto prazo.

“O componente mais evidente é o minério de ferro, que representa pouco mais de 5% do IPA total. Como para a FGV o que importa é a variação em reais do minério de ferro, os últimos resultados da inflação do IPA para este produto estão relacionados basicamente à variação cambial”, diz Madeira, ao referir-se ao IPA que na última medição apontou variação positiva de 0,59%, um crescimento de 0,14% em relação a agosto.

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Assim, segundo a análise da MCM, caso a taxa de câmbio permaneça no patamar de R$ 1,90, o impacto esperado sobre os IGP’s (índices gerais de preços), somente por este efeito, pode atingir cerca de 0,60 ponto percentual em 2011.

Por sua vez, as variações das cotações agrícolas nas praças domésticas em reais já mostram elevação, como no caso do milho e da soja (ao redor de 4%) e do algodão (2%). Desta forma, devemos esperar IGP’s mais pressionados no último trimestre, aproximando nossa projeção do patamar de 7,0% no encerramento deste ano.

E mais projeções…
Segundo o economista da MCM, as projeções indicam inflação mais alta, tanto neste como no próximo ano, em ambos os casos estourando o teto da meta de inflação. “Em 2011, a inflação do IPCA subiria a 6,6% e ao redor de 6,7% em 2012,” aponta.

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Sendo assim, os principais canais através dos quais o aumento do câmbio impactam a inflação já do próximo ano são o “passthrough” cambial – ou os efeitos do repasse das variações cambiais sobre o sistema de preços – a inércia via maior inflação dos preços administrados, que sairia de 4,8% para 5,2% , e a piora das expectativas de inflação.

“Neste sentido estamos refinando nossas projeções e, por ora, não vamos alterar nosso cenário básico de inflação, hoje em 6,6% para 2011 e 6,4% para 2012, mas a direção da revisão é clara. O único evento capaz de refrear o impacto inflacionário da depreciação cambial seria, naturalmente, um forte agravamento da crise externa, com recessão mundial e estrangulamento de crédito”, finaliza Madeira.

Por sua vez, Marcelo Portilho, da Safra Corretora, acredita que “o cenário de queda das commodities, explicado acima, pode ajudar o Banco Central a manter uma política de flexibilização da Selic mais agressiva que a expectativa do mercado, remunerando as apostas na parte curta da estrutura a termo”. Portilho comenta ainda que o índice brasileiro de commodities atingiu recentemente seu menor patamar desde dezembro de 2010.