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17h50 – 06/09
Coluna do Tamer
LONDRES – Na gangorra da economia americana, ontem foi a vez de subir, enquanto as bolsas caem na Europa e a Europa relança a “moda Tobin”, de tributar as aplicações financeiras para reduzir a pobreza mundial. O índice de produtividade dos trabalhadores (quanto produzem por hora) no segundo trimestre cresceu 2,1%, chegando quase aos níveis de 1993 e muito próximo da média anual de 2,5% dos anos dourados de 1996 até 2000. Embora o custo da mão-de-obra (o quanto cada empregado recebe por unidade de produção) tenha também se elevado, 2,7%, o aumento da produtividade abre espaço para que o banco central americano reduza novamente as taxas de juros. Esses indicadores atenuam os riscos de inflação. Os americanos poderão continuar aumentando o consumo sem que haja pressões especiais sobre os preços, pois os custos de cada unidade de produção – mais claramente, de cada item produzido – não tendem a aumentar. A elevação do salário está, em tese, compensada pelo aumento da produtividade.
“Esses números indicam que a economia americana poderá continuar crescendo ao mesmo tempo que aumentam os salários e os lucros. É este o nosso pressentimento e a nossa esperança”, afirma a ex-vice-presidente do Fed, Alice Rivlin, refletindo um clima de certo otimismo que passou a dominar os Estados Unidos, nesta semana. Mas, acrescentam os economistas – e o próprio presidente Bush -, estamos ainda dentro daquela melhor estimativa do Fed, de um crescimento econômico americano da ordem de 1,7% ou 2% e um nível de desemprego entre 4,5% e 5%. O importante, dizem, é que, apesar da desaceleração das encomendas mundiais, não há novos ou mais fortes sinais negativos na economia americana – pelo menos por agora… – e a retomada será obtida no último trimestre do ano, como previa o Fed, prosseguindo em 2002.
E, agora, senhores… o Tobin!
A Europa continua esperando os resultados do pífio corte de 0,25 ponto percentual das taxas de juros anunciados tardiamente pelo Banco Central Europeu, o euro voltou a recuar a US$ 0,88, perdendo praticamente tudo o que havia ganho nas últimas semanas, e volta-se a discussões acadêmicas e a teses duvidosas. O primeiro-ministro francês, Jospin, não de olho na crise mundial, mas no seu futuro político, na presidência da República, ressuscita de novo a idéia do Prêmio Nobel de Economia, James Tobin, de taxar em 0,50% aplicações monetárias (investimentos) de curto prazos com fins especulativos no mercado financeiro internacional para usar os recursos no socorro dos países mais pobres.
É um prato excepcional na ceia eleitoral que domina a Europa. No fundo, o sr. Jospin quer mesmo é ganhar o apoio das ONGs para sua campanha presidencial. O chanceler alemão Gerhard Schröder, que esteve reunido terça-feira com Chirac e Jospin, admite que é preciso dar mais atenção aos movimentos antiglobalizantes, mas faz restrição àquela taxa, perguntando:
“Como é que vamos distinguir um fluxo financeiro especulativo de outro genuinamente destinado ao financiamento comercial?”
O ministro das Finanças da Alemanha, Hans Eichel, que esteve reunido com o seu colega francês, Laurent Fabius, também se opõe não à medida em tese, mas a sua viabilidade. E o presidente do Bundesbank, Ernst Welteke, levantou o ponto mais importante dessa discussão teórico-eleitoral: a taxa Tobin num momento de desaceleração econômica (ele evitou a palavra recessão, mas não afastou “crise”) seria inefetiva e, no mínimo, inoportuna. O que precisamos para fazer frente a este despencar da economia mundial é de maior integração e liquidez nos mercados financeiros para atrair investimentos. Resumindo: falar nisso, agora, é fugir dos desafios angustiantes e imediatos. Só atrapalha. O próprio professor Tobin, em entrevista publicada pelo jornal Valor, admite que a sua tese não é viável neste momento e duvida que seria em outro, pois sua aplicação depende de um mercado e de autoridades monetárias que não a aceitam e a acham inviável. Ou seja, se é para falar disso, por favor, senhores, vamos deixar para depois, não quando a economia mundial cai de 4,2% para 2,5% – se tanto.
Viva a inflação!
No Japão, confirma-se cada vez mais a previsão de que a economia deverá recuar 1%, com muitos, como Toru Umermoto, estrategista do Morgan Stanley Dean Wittrer, em Tóquio, estimando que o recuo será de 1,2%. Mas, afinal, o que está acontecendo com o Japão, há mais de dez anos em crise?
“Falta inflação”, responde, seriamente, uma analista da City a esta coluna, sem piscar os olhos ou qualquer intenção de fazer ironia. Os japoneses poupam muito, consomem pouco e não estão preocupados com isso porque os preços estão caindo. Quanto menos comprarem, hoje, mais economizarão amanhã.
É a deflação.
“Em junho, os preços pagos pelos consumidores recuaram 0,5% e, em um ano, 0,9%!” E o que eles fazem com o dinheiro? Aplicam? “Ora, os juros são de 0,1% ao ano! Sim, não é erro de digitação: juros de 0,1% (para ser tecnicamente exato, são até menos 0,08%…) Não há estímulo nem para comprar nem para investir.
Para onde vai o dinheiro?
A propósito, o professor de economia Sahoko Kaji, da Keijo University, em uma carta esclarecedora ao Financial Times, edição inglesa, dessa terça-feira, mostra onde os japoneses investem seu dinheiro. Eles poupam cerca de US$ 11,7 bilhões.
Ou seja, o consumidor e o investidor japonês não estão preocupados com o presente, mas guardam só pensando no futuro. Diante desses números, conclui o professor Kaji, não adianta “apenas” injetar mais dinheiro nos bancos em dificuldade. E conclui: “A alocação ineficiente da poupança é a principal razão pela qual a economia japonesa está nesse estado miserável há mais de dez anos.” Tem saída? A curto prazo, nem pensar. Quem vai aplicar ganhando menos de 1% (ao ano!!!) ou comprar mais se os preços de hoje são mais altos do que os de amanhã? Parece que a nossa analista da City está certa: “O que os consumidores japoneses estão precisando mesmo é de um choque inflacionário para saírem desse marasmo enquanto o mundo pega fogo…”