Entrevista

Encontro entre Dilma e Obama foi realmente positivo para o Brasil? Economista explica

Para Monica de Bolle, ida da presidente brasileira para os EUA trouxe alguns acordos, mas ainda faltam mais avanços

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SÃO PAULO – Na última semana, muito se falou sobre a ida da presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos para, além de retomar as relações com o país, realizar uma série de acordos comerciais. Porém, as notícias que pareciam grandes novidades e bastante positivas, podem não trazer avanços, segundo a economista Monica de Bolle.

Em entrevista para o podcast da Rio Bravo Investimentos, ela, que é pesquisadora do Peterson Institute for International Economics em Washington DC, afirma que “No que tange ao estabelecimento de uma estratégia comercial entre Brasil e Estados Unidos, não há nada a relatar”. de Bolle ainda ressalta a importância de se firmar acordos globais mais sofisticados, virando a página da Rodada Doha, mas observa que, no Brasil, ainda existe a mentalidade de que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos pode custar empregos dos brasileiros.

Confira a entrevista abaixo:

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Rio Bravo – Você teve oportunidade de estar presente no encontro da presidente Dilma Rousseff com Joe Biden (vice-presidente dos Estados Unidos) na última terça-feira. Qual foi a reação e qual o rescaldo da visita da presidente Dilma aos Estados Unidos?

Monica de Bolle – De um lado, a vinda da presidente Dilma aos Estados Unidos nesse momento tem ares oportunos e ares não tão oportunos. O lado oportuno, evidentemente, tem a tentativa de reatar os laços com os Estados Unidos, restabelecer as relações que ficaram basicamente congeladas desde o escândalo da espionagem da NSA em 2013. Os Estados Unidos continuam sendo um país extremamente importante para o Brasil, então não faz sentido que essa relação tenha sofrido o abalo que sofreu nos últimos dois anos. Nesse aspecto, a vinda da presidente Dilma é muito positiva, dá um sinal de que o Brasil pretende levar essa relação mais longe do que ela andou nos últimos dois anos. Mas falta um pouco de definição sobre o que isso significa.

Quando a gente tenta avaliar o que saiu da visita até agora (quando a entrevista foi gravada, a presidente ainda estava nos EUA), o que saiu das conversas em Nova York, sobretudo em Washington, foram algumas iniciativas importantes nas áreas de meio ambiente e de concessão de vistos para brasileiros que vêm muito aos Estados Unidos, a questão do Global Entry, que é uma coisa que sempre ajuda a quebrar o gelo dessas relações bilaterais… No que tange a comércio internacional, a estabelecer um caminho, uma estratégia, uma agenda para o comércio bilateral Brasil – Estados Unidos, a gente não tem nada a relatar. O que é uma infelicidade, porque os Estados Unidos estão plenamente engajados em dois mega acordos comerciais, um com a região Ásia/Pacífico, incluindo países latino-americanos como México, Chile e Peru, além de diversas nações asiáticas, com quem os Estados Unidos em muitos casos já têm acordos de livre comércio.

Existe um esforço muito grande em fechar esse grande acordo até o fim do ano. Nas últimas duas semanas, as medidas necessárias para que esse acordo entre em vigor até o fim do ano foram aprovadas no Congresso dos Estados Unidos, o que foi uma enorme vitória para Obama. A agenda do Obama está toda voltada para isso, no momento em que ele está no fim do mandato. Ele tem mais 18 meses de mandato e esse é o grande legado que ele quer deixar. A América Latina ficou muito na retaguarda. Quer dizer, a América Latina, à exceção de México, Chile e Peru, ficou muito na retaguarda desse processo e por muito tempo as pessoas esqueciam que o Brasil existia.

A visita veio em boa hora para mostrar que o Brasil existe, mas, por outro lado, vem em má hora, porque esse é um momento em que a administração Obama não está olhando para a América Latina, e sim para outros acordos e outras regiões.

RB – Em artigo recente na revista Política Externa, você comentou que o presidente Barack Obama busca resgatar, por meio desses mega acordos comerciais, a relevância como potência geopolítica e econômica. Como o Brasil poderia extrair vantagem na tentativa de restabelecer vínculos comerciais entre as duas nações?

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MB – Existe hoje a forma como a administração Obama tem se colocado perante esses acordos, perante as iniciativas da China com as instituições que ela está criando – como o Asia Infrastructure Investment Bank, o banco dos Brics. Nesse aspecto, acho até que os Estados Unidos foram bastante infelizes por não quererem participar de algumas dessas iniciativas, mas existe um certo embate, ao menos por parte dos Estados Unidos, em se colocar como o país que continua a reescrever ou a escrever as regras que ditam não só o funcionamento do sistema financeiro internacional como o funcionamento do comércio internacional. Isso é o que está acontecendo no grande debate, no grande mapeamento do que ocorre no mundo hoje.

Os Estados Unidos estão tentando, através desses acordos, estabelecer essas regras e ter uma vantagem na largada, no estabelecimento dessas novas regras que vão pautar os acordos comerciais daqui para frente. Para o Brasil, seria extremamente importante fazer parte dessa agenda. Se nós não tivéssemos ficado tão para trás nessa história de reengajar com os Estados Unidos, quem sabe não o Brasil poderia – não necessariamente estar participando do acordo Transpacífico, porque a parceria Transpacífica exige uma série de outros requerimentos e de participação em outros acordos comerciais que o Brasil não tem – estar sendo contemplado como o país que futuramente teria acesso à parceria Transpacífica.

Neste momento, a gente não tem essa discussão ainda, o que remonta à falta de preocupação por parte das autoridades brasileiras com a inserção do Brasil no comércio internacional. É bom que ela esteja se dando agora? É, mas tantos passos têm que ser tomados até que o Brasil chegue nesse ponto de ser contemplado como um integrante futuro do acordo Transpacífico que a gente, infelizmente, vai ficar mais uma vez para trás.

RB – No cenário pós-crise econômica de 2008, há quem diga que o Brasil estaria certo ao desconfiar dessa agenda do livre comércio e abraçar, ao mesmo tempo, certa tese protecionista. Por que esse discurso e essas práticas não funcionam num cenário complexo como o atual?

MB – Não funcionam porque, se a gente olhar para os países latino-americanos, todos eles, salvos Argentina, Venezuela e Brasil, são países que hoje têm inúmeros acordos bilaterais de comércio com diversas nações. O México é um caso a ser ressaltado. É um país que firmou mais de 60 acordos bilaterais de comércio nos últimos dez anos. A Colômbia é outro que também firmou diversos acordos bilaterais, o Chile, o Peru… Não é à toa que esses quatro países se reuniram e formaram a chamada Aliança do Pacífico, para fortalecer esses laços de integração que eles, bilateralmente, já estabeleceram.

O mundo nos últimos 15 anos caminhou para isso, quer dizer, a falência das rodadas multilaterais de comércio, das rodadas de Doha, e, de certa forma, um certo descaso que tem havido no mundo com a OMC, levaram a que os países transitassem para esse tipo de novo modelo de acordos comerciais, regionais, plurilaterais, bilaterais… Enfim, a gente foi para esse mundo, em que os países estão mais integrados.

As cadeias de produção hoje funcionam de tal forma que precisam desses acordos, porque se imaginarmos que uma indústria automobilística, por exemplo, no México, funciona à base de importação de peças e componentes de diversos outros países, para que ela sobreviva, precisa que o México tenha acordos comerciais com todos esses países que integram a cadeia produtiva.

O modo de produção hoje em dia exige que você tenha esse tipo de acordo comercial, e o Brasil, nesse aspecto, ficou muito atrasado, porque se voltou completamente para o mercado interno, e essa tem sido a visão nos últimos 25 anos, se voltar completamente para o mercado interno. Isso ficou ainda mais evidente depois da crise, que o Brasil teve um retrocesso protecionista e, assim, a gente vai ficando defasado em relação a como as estruturas produtivas e as estruturas comerciais do século XXI funcionam. As nossas são do século XX, a dos outros países são do século XXI.

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RB – Como podemos perceber essa agenda ou essas práticas protecionistas?

MB – Eu acho que no Brasil a gente tem isso muito claro em algumas áreas, por exemplo: uma coisa que nós estabelecemos e que nós já tínhamos, mas voltamos a fazer com enorme vigor a partir de, mais ou menos, 2010, 2011, foram as chamadas Regras de Conteúdo Local. Regras de Conteúdo Local e Regras de Conteúdo Nacional são aquelas regras que especificam que uma parcela determinada de um produto específico, aquele insumo que você usa para produzir aquilo tem que ser comprado localmente ou tem que ser comprado de uma empresa nacional. Se você vai produzir um carro, X% do carro tem que vir de produtores nacionais.

O Brasil, desde depois da crise até os dias de hoje, foi um dos países, ou o país, se não me engano, a que o Peterson Institute fez um estudo em 2013 sobre regras de conteúdo local e o Brasil foi o país que mais instituiu regras de conteúdo local desde a crise de 2008. Quer dizer, passando à frente, inclusive, de países como a China, a Argentina e até como os Estados Unidos, que tem essas regras de conteúdo local também. Mas o Brasil é o campeão disso. O problema dessas regras de conteúdo local é que é uma forma extremamente obscura, opaca, pouco transparente de você impor uma barreira comercial.

Quando você tem uma tarifa de importação no setor, você sabe exatamente que você vai pagar para importar um determinado insumo, para importar um determinado bem intermediário, um tanto a mais do que você pagaria se a tarifa não existisse. Como uma regra de conteúdo local, você não sabe o quanto a mais você está pagando ou quanto você está deixando de descontar daquilo que você vai produzir. Quer dizer, o custo da regra de conteúdo local é muito opaco e torno, portanto, esse tipo de medida particularmente ineficiente e particularmente perniciosa.

RB – Casos como o da Grécia em 2015, e você mesmo mencionou a situação da Argentina em 2001, não indicariam que os países mais frágeis do ponto de vista econômico tendem a perder quando participam de processos de integração mais sofisticados? Como as nações emergentes podem escapar desse tipo de caminho perverso?

MB – Essa é uma boa pergunta, mas são duas coisas distintas. Uma coisa é a gente falar de comércio, eu vou voltar a história do comércio, e outra coisa é o caso da Grécia. O caso da Grécia, que agora então está muito em evidência porque a gente está chegando na hora da verdade, expõem uma outra coisa em relação a países em desenvolvimento, a países emergentes ou a países que têm determinadas fragilidades. Expõem a necessidade de esses países fortalecerem suas instituições e suas políticas para que possam participar de determinadas coisas, como por exemplo, uma união monetária.

A Grécia é um caso que, quando ela entrou no Euro em 2001, não tinha as condições de convergência exigidas pelos Tratados de Maastricht. A Grécia tinha uma dívida PIB altíssima, tinha um déficit fiscal também altíssimo e nunca fez nenhum tipo de esforço. A dívida da Grécia sempre foi alta, o déficit da Grécia sempre foi alto e nunca houve nenhum esforço de fato para fazer essa convergência para os níveis estabelecidos por Maastricht, que depois acabaram sendo abandonados por todo mundo. Mas a Grécia nunca fez esforço nenhum, nunca reformou nada.

O setor público na Grécia continuou muito inchado, a parte toda de agenda de reformas estruturais jamais fez, é o sistema previdenciário mais caro da Europa, e olha que a Europa tem sistemas pesadíssimos na área de previdência, mas o da Grécia é o mais pesado, mais oneroso. A Grécia é um exemplo disso: países que não fazem o que precisam fazer para se adequar à realidade acabam tendo os problemas como a Grécia está tendo. Essa deveria ser a lição, não o contrário.

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A lição não deveria ser “países emergentes não devem entrar, não devem se integrar porque são mais frágeis”. Não. A lição deveria ser: para se integrar, esse sendo o objetivo, os países precisam fazer determinadas coisas para dar maior solidez as suas economias. O mesmo tipo de coisa vale para o comércio. O comércio ainda é uma coisa um pouco mais complicada porque quando as pessoas pensam em comércio, geralmente pensam assim: “Comércio, sobretudo comércio internacional, é uma situação em que sempre um país ganha e outro perde.” Essa é a grande falácia que existe sempre nessas discussões de comércio.

É sempre assim: “Ah, se eu vou fazer um tratado de comércio com outro país, isso significa que eu vou perder empregos no meu país e vou estar dando empregos para o estrangeiro.” Existe sempre essa ideia, enquanto que a literatura a literatura acadêmica sobre o comércio já mostrou que não é assim. O comércio não é um jogo de soma zero onde um perde e outro ganha. O comércio, se é bem estruturado, bem feito, ele é uma jogo em que os dois lados ganham, e por isso que as nações perseguem esse tipo de acordo comercial e fazem acordos comerciais entre si. Eu acho que a discussão, antes de mais nada, passa pelo entendimento do que o país emergente ou em desenvolvimento almeja ser. Ele é um país que quer ficar atrasado e defasado em relação aos seus pares ou ele é um país que quer avançar?

RB – Em termos de disposição para receber investimento estrangeiro, o que outros países têm feito em comparação ao Brasil? Poderia dar alguns exemplos?

MB – A gente falou só de tratado de comércio, mas uma coisa que a gente tem que sempre lembrar é que quando você está estabelecendo uma relação bilateral entre dois países, por exemplo, uma relação plurilateral, que envolva vários países, como o caso da Aliança do Pacífico com outras, esses acordos… Tudo que é comércio passa por investimento. Tanto que, por exemplo, no caso específico da parceria Transpacífica do TPP… o TPP é um acordo que envolve comércio e investimento.

Então, você não vai ter comércio sem investimento, até porque se você parar para pensar o que isso significa você aumentar o comércio com um país ou você ter relações mais estreitas de comércio com um país significa que você vai permitir que empresas do país estrangeiro invistam no seu país e vice-versa. Esse tipo de integração que a gente sempre chama de comercial passa, necessariamente, por uma integração de investimento também. As duas coisas andam lado a lado. Acho que essa é a lição mais importante que a gente pode tirar disso que está sendo discutido no mundo e disso que o Brasil não está discutindo com o resto do mundo.

RB – De que modo esse discurso da presidente Dilma em torno da visita aos Estados Unidos, buscando retomar uma agenda para comércio, serve de cortina de fumaça para o mercado para tentar apaziguar alguns ânimos mais acelerados, em termos da política internacional ou da política interna.

MB – Eu esperaria que ela tivesse sendo realmente franca e honesta em relação a esse discurso, que ele não tivesse simplesmente sendo usado como uma cortina de fumaça. É pena se esse for o caso. Se esse for esse o caso, não vai funcionar, porque, no fim das contas, se você não explicar para as pessoas… Como eu estava dizendo antes, as pessoas têm, de um modo geral, uma falácia básica na cabeça com relação ao comércio.

As pessoas acham que se você entrar em uma relação de comércio com outro país, principalmente se esse outro país for mais rico, maior do que o seu, como na relação Brasil e Estados Unidos, as pessoas geralmente têm a impressão de que um país sai ganhando e o outro sai perdendo. No caso o Brasil sai perdendo e os Estados Unidos saem ganhando. A não ser que se tenha realmente uma vontade de levar a frente essas relações, o simples discurso do comércio ou não tem ressonância interna ou tem ressonância contrária exatamente ao que ela gostaria de ter.

As pessoas podem começar a pensar que vão começar a perder emprego para os americanos. Eu acho que se isso for uma cortina de fumaça para abafar os problemas internos do Brasil, é deletério para todo mundo, inclusive para a própria presidente Dilma. Se for um discurso franco e honesto, se de fato é isso que o Brasil pretende, então está na hora do Brasil começar a explicar para a população brasileira o que isso significa para que as pessoas de fato entendam que comércio pode ser uma coisa boa.

Eu estou dizendo tudo isso assim, dessa forma, porque, inclusive um artigo que eu vou publicar na Folha em breve, sobre uma pesquisa que fiz com um colega meu que tem uma pequena empresa de pesquisas de opinião, em que a gente tentou mapear a opinião das pessoas no Brasil a respeito dos lados positivos e dos lados negativos de uma relação mais forte entre Brasil e Estados Unidos. Sobressaíram duas coisas.

A primeira coisa que sobressaiu foi: mais de 50% das pessoas entrevistadas, e foram várias, uma amostra bem representativa, encobrindo mais de 60 municípios no Brasil, acham que se você tiver uma aproximação entre Brasil e Estados Unidos, o Brasil perde empregos e os Estados Unidos é que ganham. Isso foi um dado assustador. A segunda coisa que sobressaiu foi o seguinte: “Tudo bem, a gente vai perder mais emprego e mais renda, mas, por outro lado, se a gente tiver mais bens de consumo americanos para comprar, isso é bom.”

Tem uma desconexão aí. As pessoas querem ter acesso a bens de qualidade, mas temem que se o preço para ter esses bens de qualidade for um engajamento com os Estados Unidos, que, na cabeça delas, danifique as perspectivas de emprego e de renda, isso é ruim. Então, tem que ter alguém que explique que, na verdade, uma coisa anda ao lado da outra. Para você ter mais bens de qualidade, você precisa ter maiores relações de comércio. Isso não necessariamente significa que você vai ter menos empregos no Brasil e mais empregos nos Estados Unidos.

Quem é que tem que explicar isso? É quem está puxando a agenda. Se o governo está puxando a agenda, o governo tem que dar essa explicação. O que eu espero que saia do governo daqui para frente, se de fato existe uma seriedade nessa história de abrir o Brasil e ter mais Brasil no mundo e mais mundo no Brasil, que foi o slogan que a presidente usou no discurso que ela fez em Washington na Câmara de Comércio americana, é preciso que o governo explique para a população o que isso significa.