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SÃO PAULO – Maior inimigo dos princípios que regem o mercado nos dias de hoje, o intervencionismo parece fazer cada vez mais vítimas na América Latina. Enquanto o governo de Cristina Kirchner tenta recuperar a Argentina de uma grave crise econômica com métodos completamente heterodoxos de ampliação de intervenção pública nos mais diversos setores da economia e proibições por todos os lados, não é apenas a população local que sofre com a deterioração da situação do país. Junto com os “hermanos”, nós, aqui no Brasil, também podemos sentir na pele os efeitos de uma política econômica que apenas joga os problemas para debaixo do tapete no país portenho.
Na visão do economista-chefe da Pezco Microanalysis, João Ricardo Costa Filho, a proposta de Cristina Kirchner de tapar os buracos da economia “tem afundado o país cada vez mais”. “As políticas econômicas da Argentina são baseadas em indicadores duvidosos. Eles subestimam a inflação e vendem um modelo não muito amistoso ao mercado”, afirma.
Para Costa Filho, o intervencionismo e a política de controle artificial no câmbio – que consiste na restrição dos argentinos à compra de dólares ainda que em baixas quantidades se não obtiverem autorização federal, a fim de manter a cotação da moeda no nível desejado -, por si, não têm condições de segurar a economia. “A economia vai achar uma forma de driblar essa taxa de câmbio – o mercado negro (de câmbio paralelo)”, destacou o economista.
Os maiores prejudicados
O controle cambial kirchnerista, as leis cada vez mais rígidas para importações e exportações e o populismo criam barreiras cada vez maiores para as relações bilaterais entre as maiores economias do continente. De acordo com dados extraídos de relatórios do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, os principais setores da economia brasileira com negócios diretos com a Argentina em 2012 foram o de automóveis, mineração, energia elétrica, siderurgia, agropecuária e consumo.
Ainda segundo o ministério, as empresas que mais tiveram negócios com a Argentina no ano passado foram as montadoras Renault, Toyota, Volkswagen e Ford. Dentre as companhias de capital aberto, destacam-se Vale (VALE3, VALE5), Braskem (BRKM5), Gerdau (GGBR4), Usiminas (USIM5), Petrobras (PETR3, PETR4) e Paranapanema (PMAM3) no time das principais exportadoras e importadoras ao mesmo tempo. Do lado as importações também se destacam Unilever – que não tem ações negociadas na Bovespa -, a fabricante de biscoitos M. Dias Branco (MDIA3) e a empresa de alimentos processados Marfrig (MRFG3).
“Quem paga a conta é o consumidor”
Não necessariamente a crise argentina acarretará em fortes perdas a essas companhias. A situação delicada do país vizinho vem de antes do ano passado, mas é evidente que um quadro de instabilidade traz mais sensibilidade no mercado, aumentando a exposição e os riscos destas empresas, tendo em vista a imprevisbilidade das medidas do atual governo.
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“Nunca é bom países da mesma região com vizinhos em problemas domésticos. Nosso país quer exportar mais e a Argentina impõe limites”, afirma Costa Filho, ressaltando ainda que o maior prejudicado nessa história é o próprio consumidor. “Quando há protecionismo, quem paga a conta é o consumidor”, completa.
Neste contexto, algumas poucas atitudes podem ser tomadas pelo Brasil para evitar maiores problemas e garantir posições importantes no xadrez político. Segundo o economista-chefe da Pezco, o país deve procurar evitar o contágio, levando importantes questões comerciais a organismos multilaterais, mas não tentar intervir nos problemas domésticos do país.
Pouco espaço de manobra
Já à Argentina, o primeiro passo seria reconhecer o cenário exposto pelos indicadores econômicos emitidos por entidades privadas – que, em detrimento aos números públicos, apontam para uma situação de deterioração muito mais grave -, para, desta forma, iniciar um período de reformas estruturais de menos populismo e intervenção.
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Na visão dos economistas João Pedro Bumachar Resente e Juan Carlos Barboza, do Itaú BBA, que emitiram relatório recentemente sobre a Argentina, a mais eficiente solução seria permitir a desvalorização cambial, aumentar os juros e o aperto fiscal, o que poderia solucionar ao mesmo tempo os problemas de competitividade e inflação galopante.
“No entanto, essa solução parece ser a com menor apelo para o goveno. A natureza ortodoxa destas políticas fará com que elas sejam inaceitáveis do ponto de vista político”, concluíram Bumachar Resente e Barboza.
Recuperação de Cristina e eleições
Operada na última terça-feira (8) para retirar um hematoma do cérebro, Cristina Kirchner recebeu alta no domingo (13) e terá que ficar em repouso por 1 mês. Isso a afastará da política neste período, chave para o destino do país.
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A recuperação da presidente argentina ocorre a duas semanas das importantes eleições legislativas do país, que ocorrerão no dia 27 deste mês, quando metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado serão reformulados. Com isso, Cristina pode ter sua maioria no Congresso em risco e sua capacidade de governar dificultada a partir do ano que vem.