Embraer: ação cai 10% com decepções em série no 1T – mas tese positiva está “intacta”

Analistas destacam fraquezas do balanço, mas não veem grandes mudanças nas projeções e reiteram visão positiva

Lara Rizério

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ERJ-145. Foto: Embraer/Divulgação
ERJ-145. Foto: Embraer/Divulgação

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Mais uma vez sem animar. A Embraer (EMBJ3) anunciou nesta sexta-feira seus números do primeiro trimestre de 2026 (1T26), levando a uma forte reação negativa dos mercados. Às 11h30 (horário de Brasília), os ativos caíam 9,70%, a R$ 75,26.

A fabricante de aviões registrou lucro líquido ajustado de R$145,4 milhões para o primeiro trimestre de 2026, em comparação com lucro de R$299,9 milhões registrado no mesmo período do ano passado, segundo balanço divulgado ao mercado nesta sexta-feira.

Na visão do Itaú BBA, a companhia registrou dados fracos. “Foi uma pequena perda de 3% em relação ao consenso, mas de baixa qualidade (por exemplo, margens mais fracas que o esperado, ganhos não recorrentes)”, aponta. Assim, o banco já projetava uma reação negativa.

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Na mesma linha, o JPMorgan também projetava uma reação negativa por parte dos investidores, uma vez que o EBIT (lucro operacional de uma empresa antes de deduzir juros e impostos) ajustado foi de US$ 94 milhões, 12% abaixo do consenso, enquanto o EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) foi 7% menor.

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O banco ressalta que o trimestre foi positivo em relação às suas expectativas – mas pior do que o mercado projetava, impulsionado por receitas acima do esperado e um evento não recorrente de US$ 25 milhões na área de defesa, sobre o qual destacou precisar de mais detalhes.

A margem EBIT foi de 6,5%, o nível mais alto para o 1º trimestre desde 2016, mesmo incluindo um impacto negativo de aproximadamente 90 pontos-base ou US$ 13 milhões devido às tarifas dos EUA (a companhia ainda tem US$ 11 milhões a serem reconhecidos em tarifas sobre seus estoques), ficando 40 pontos-base abaixo da projeção do banco.

Já o Goldman Sachs ressaltou que, além do Ebitda, o fluxo de caixa livre (FCF) decepcionou, enquanto a receita superou o consenso.

O Bradesco BBI também destacou que o Ebitda totalmente ajustado de US$ 140 milhões (+21% ano a ano ) ficou 7% acima da sua estimativa, embora significativamente abaixo do consenso. “Ajustado pelas tarifas, houve um impacto positivo no segmento de Defesa e um impacto de US$ 7 milhões nos custos de logística no segmento Comercial. Observamos que o 1T26 ainda é impactado pelas tarifas americanas nos segmentos Executivo/Serviços, totalizando US$ 12 milhões, e esses efeitos devem diminuir gradualmente, já que estão atualmente inativos. A administração destacou que, se não fossem pelas tarifas, o EBIT esperado para o ano teria sido 60 pontos-base maior”, avalia.

Destaque positivo do trimestre, o segmento de Defesa viu sua receita líquida saltar 63% anualmente, com margem EBIT ajustada de 6,0% (contra -1,6% no 1T25).

Para a XP, os resultados foram “incertos”, à medida que as iniciativas de nivelamento da produção começam a se materializar no ritmo de entregas, embora ainda não se traduzam em margens recorrentes mais altas.

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Apesar do resultado e forte queda das ações, analistas mantiveram visão positiva para a fabricante de jatos.

“Estamos satisfeitos em ver a Embraer continuar a apresentar maior rentabilidade e tendências de melhoria em seu balanço patrimonial, mesmo que este trimestre tenha sido impactado pelo segmento de defesa – com receita e Ebitda crescendo 30% ano a ano e margem EBIT recorrente (excluindo tarifas) em 7,4%”, avalia o JPMorgan, que tem recomendação overweight (exposição acima da média, equivalente à compra) para o ADR (recibo de ações negociados na Bolsa de Nova York) EMBJ, com preço-alvo de US$ 84.

O Itaú BBA ressalta que a Embraer continua sendo uma história de crescimento, com riscos positivos ainda não precificados (por exemplo, Eve, aviação de defesa na Índia e nos EUA) e bem posicionada para uma reprecificação (re-rating) quando o ambiente geopolítico melhorar.

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A companhia ainda reiterou o guidance para o ano, apesar do resultado abaixo do esperado. As projeções incluem a entrega de 80 a 85 jatos comerciais, 160 a 170 jatos executivos, receita total entre US$ 8,2 bilhões e US$ 8,5 bilhões (contra a previsão de consenso de US$ 8,46 bilhões), margem EBIT ajustada entre 8,7% e 9,3% (contra a previsão de consenso de aproximadamente 9,4%) e fluxo de caixa livre ajustado superior a US$ 200 milhões (contra a previsão de consenso de US$ 344 milhões).

“Dito isso, nossa expectativa de que o mercado levasse o consenso para acima do guidance pode ter sido adiada (mas ainda não cancelada)”, apontou o BBA, que tem recomendação outperform (desempenho acima da média) para o papel EMBJ, com preço-alvo de US$ 75. O Goldman tem recomendação de compra, com preço-alvo de US$ 80.

O Bradesco BBI tem mesma recomendação e preço-alvo ainda maior, de US$ 88, avaliando que a combinação de mais KC-390s e A-29 Super Tucanos sendo vendidos no exterior deve manter uma tendência positiva para preços e margens.

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“A empresa reiterou sua projeção para 2026, continuando a assumir a tarifa de 10% dos EUA para todo o ano, mesmo que estas tenham sido revogadas. No geral, as estimativas do BBI/consenso permanecem majoritariamente acima do ponto médio, devido à projeção refletir tarifas que ainda estão em vigor para o ano. O potencial de alta adicional decorrente da ausência de tarifas aproximaria a projeção da Embraer dos números do mercado”, avalia.

“Olhando para o futuro, a isenção tarifária dos EUA remove um obstáculo embutido na projeção para o ano fiscal de 2026 e, se mantida, cria potencial de aumento de margem, em nossa opinião”, aponta a XP. Embora acompanhe a trajetória da margem ao longo do ano, a equipe de análise da casa não acredita que os resultados do 1T26 impliquem necessariamente em mudanças materiais em sua projeção de lucros para o ano fiscal de 2026, considerando assim a queda de 9% na projeção para o EMBJ3 como uma reação exagerada.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.