Em tempos de bolsa em queda, com quais operações é possível lucrar?

Aluguel de ações, contrato de índice futuro e opções são caminhos para investidor que quer ganhar com a tendência de baixa

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SÃO PAULO – Testemunhar as quedas diárias da bolsa traz certo desânimo para alguns investidores – nos últimos 30 dias, o principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa, tinha recuado 9,44% até a última segunda-feira (17). Ver os 73 mil pontos se transformarem em 62 mil apaga, pelo menos em parte, as perspectivas mais otimistas para a renda variável brasileira, com o Ibovespa acima de 80 mil pontos.

É preciso lembrar que investimentos em ações, geralmente, são focados no longo prazo – e, nesse horizonte, as boas projeções se mantêm. O ano de 2010, contudo, pode não ser fácil para a bolsa, em meio às eleições presidenciais e um ambiente macroeconômico global incerto. A opção, então, é esperar pelo melhor e ficar só observando o índice rumar para baixo?

“A própria CBLC (Câmara Brasileira de Liquidação e Custódia) detectou que muitas pessoas físicas aprenderam com a queda em 2008 e não estão mais naquela atitude passiva de ficar olhando o mercado cair. Eles perceberam que existe alternativas para obter algum ganho com o mercado em queda”, explica Edgard Tamaki, estrategista da TCX Consultoria.

Para esse investidor, quais as maneiras de lucrar com a baixa da bolsa?

Aluguel mais indicado do que contratos futuros
Entre as principais opções do investidor para tentar gerar ganhos mesmo com o mercado em queda estão o aluguel de ações e operações com contratos futuros do Ibovespa.

“Com o mercado indefinido – que me parece que está mais para o ruim do que para o bom – uma forma de auferir algum lucro seria através do aluguel de ações”, explica Tamaki. “É um mercado mais tranquilo, e o preço é relativamente barato – o aluguel de Petrobras (PETR3, PETR4), por exemplo, está 0,5% ao ano”, afirma. Como é a ação mais negociada da bolsa, uma opção é o investidor alugar o papel e operar vendido em Petrobras. “A empresa tem ficado meio indefinida, e deve continuar assim até a capitalização. Operar vendido seria um jeito de se proteger e aproveitando para ter algum lucro com a queda da bolsa”, explica.

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Alugar uma ação e operar vendido é operação vantajosa se a perspectiva é de queda dessa ação. Imagine um investidor que, hipoteticamente, aluga uma ação que no mercado à vista custa R$ 10, e paga ao locatário R$ 0,05 pelo aluguel por um ano. Ele vende a ação no mercado à vista e embolsa estes R$ 10, arcando também com os custos de transação. Sua expectativa é que no prazo de vencimento da operação – ou seja, na hora de devolver a ação ao seu proprietário – o papel esteja mais barato no mercado; o investidor que alugou a ação sairá no lucro se o preço no mercado à vista na data de devolução da ação somado ao prêmio pago pelo aluguel (R$ 0,05 no nosso exemplo) e aos custos transacionais seja inferior a R$ 10, que foi o tanto embolsado pela venda da ação alugada.

Segundo o estrategista, papéis que subiram bastante no ano passado – como as construtoras, que não tem tido um desempenho muito bom esse ano – seriam bons para aluguel. “Papéis como Cyrela (CYRE3), Rossi (RSID3), têm uma volatilidade boa, então o investidor pode entrar vendido, e há até uma boa possibilidade de ganho no day trade”, destaca.

Tamaki lembra, contudo, que há quatro condições que o investidor deve avaliar antes de alugar um papel: a taxa do aluguel, ou seja, quanto o dono da ação vai cobrar pelo empréstimo; o prazo, que depende da estratégia do investidor; se o dono do papel pode pedi-lo de volta antes desse prazo – “se a sua estratégia de um mês, e o dono da ação quiser o papel de volta antes, pode estragar a sua estratégia”; e se o investidor pode devolver antes do prazo – pagando, assim, só a taxa de aluguel do período utilizado.

“É uma coisa completamente acessível ao investidor pessoa física – sempre tem alguém disposto a alugar papel. Sempre há um investidor disposto a preencher essas condições”, afirma o estrategista.

O aluguel de ações pode ser mais seguro – entretanto, Ricardo Almeida, da FIA, destaca que ainda há riscos. “O mercado não vai estar em queda para sempre – amanhã mesmo ele pode subir”, afirma. “Entre aluguel de ações e contratos de Ibovespa futuro, o aluguel é um pouco menos arriscado, porque a variação do preço da ação não vai ser tão abrupta quanto a do contrato futuro – mas o risco ainda está lá. A sensação é de que o mercado vai ficar em queda todo dia, mas ele não vai – ele pode subir amanhã”.

Tamaki também prefere o aluguel aos contratos futuros. “Contrato futuro tem chamada de margem – se o investidor não tiver uma disponibilidade financeira, está sempre sendo chamado em margem”, explica.

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Com adrenalina
Outro caminho disponível aos investidores é o mercado de opções. Esse caminho, contudo, é o mais agitado. “O mercado de opções é muito nervoso. Para cada movimento de 1% no preço de uma ação, as opções andam 10%, 15% – então, uma viradinha qualquer do mercado é significativa”, explica Tamaki.

Almeida também não é a favor de o investidor se envolver com o mercado de opções dada a instabilidade do mercado. “Eu não vou aconselhar ninguém a operar com opções agora, porque é um assunto que o investidor tem que estudar a fundo, e existe a chance de dar errado”, afirma o professor. “Eu deixaria as opções para os fundos de investimento”.

O operador André Terreri, por sua vez, acredita que o mercado de opções pode ser uma boa alternativa. “Num momento de volatilidade maior, os investidores podem se aproveitar das volatilidades implícitas mais altas embutidas nas opções e vender calls das ações que possuem no portfólio, pelo menos financiando a posição e sem se desfazer dela”, diz.

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Segundo ele, esta estratégia é mais adequada para investidores que estão comprados há algum tempo, que querem manter a posição, mas compensar parte das possíveis perdas, no entanto abrem mão de uma alta expressiva do papel. “Por exemplo, um call de VALE com strike R$ 43,64 (6,5% acima do preço atual) para 35 dias vale R$ 0,90 (2,2% do preço da ação)”. Ele lembra que essa estratégia é adequada apenas para investidores que pegaram esse último rali da bolsa e não querem se desfazer de suas posições.

Terreri também destaca que conhecer o funcionamento desse mercado é fundamental. “O ideal é sempre o investidor conhecer e ter alguma experiência antes de entrar no mercado de opções, e sempre estar consciente das perdas potenciais principalmente em estratégias vendidas em opções, onde a perda pode ser ilimitada”, explica. Nesse caso, as estratégias compradas oferecem perdas limitadas.

Outro caminho possível apontado por Terreri são as opções de câmbio. “A volatilidade dessas opções é menor do que as de bolsa, tornando-as um hedge relativamente barato para as posições compradas em bolsa”, afirma. “A única ressalva é que às vezes a correlação dos dois ativos não é a mesma”. Aqui, entretanto, o mercado é muito mais restrito a investidores institucionais, pois as vezes envolve chamada de margem por parte da bolsa.

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Foco no longo prazo e na cautela
Entretanto, alguns acreditam que essa não é hora de o investidor pessoa física tentar ganhar dinheiro em cima das variações do mercado – ao menos não no curto prazo. “Acho que só os grandes investidores, os fundos de investimento, podem se aproveitar desse movimento do mercado que estamos vendo atualmente”, afirma Almeida.

Para ele, o tempo que o investidor pessoa física vai perder monitorando o mercado e estudando as operações não compensa um eventual ganho – nem a possibilidade de perda. “Acho que colocando na ponta do lápis, não compensa. É um tipo de operação para profissional, é muito desgastante para a pessoa física”, justifica o professor.

Isso não significa, contudo, que a turbulência nos mercados seja um sinal de que o investidor pessoa física deva desistir da bolsa. “O mercado em baixa é uma boa oportunidade de compra, de fazer uma carteira de longo prazo”, diz Almeida.

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“O investidor tem que fracionar o dinheiro que ele tem para aplicar em renda variável em vários pedaços, e assim que ele observar uma queda na bolsa abaixo de X%, entrar um pouco no mercado”, explica Almeida.

“Quanto mais a bolsa cai, melhor é a aplicação na própria bolsa – porque a tendência dela é subir. A condição é que seja uma aplicação de longo prazo”, afirma Alcides Leite, professor de economia da Trevisan Escola de Negócios.

No curto prazo, Leite destaca que, com a alta dos juros, renda fixa também volta a ser mais vantajosa, principalmente aplicações pós-fixadas, independente do título.