Em qual indicador está o sinal de que a recessão chegou ao fim nos EUA?

Não existem dados mágicos, mas atenção aos números pode evitar que o investidor fique atrás da curva e perca o ponto de virada

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SÃO PAULO – Um calhamaço de dados sobre a economia norte-americana é publicado todos dias. São números do mercado de trabalho, produção industrial, sentimento do consumidor, vendas no varejo, exportações, importações, etc… Mas qual vai mostrar ao investidor o fim da recessão norte-americana?

“Nenhuma série de dados é o indicador mágico”, afirmou à InfoMoney, Ellen Beeson Zentner, vice-presidente e economista sênior para os EUA do Bank of Tokyo-Mitsubishi UFJ. Acostumada à leitura diária dos indicadores e a publicar o seu entendimento de cada um, Ellen lembra que muitos investidores médios simplesmente não prestam atenção aos dados.

Por isso, há uma parcela dos investidores que apenas notará alguma melhora quando algum indicador que represente algo bastante real, como o mercado de trabalho, voltar a crescer. Mas, antes mesmo que o Relatório de Emprego – indicador publicado mensalmente – melhore, outros dados podem refletir com antecedência a dinâmica da economia.

O emprego

Como destaca Allan von Mehren, analista-chefe de análise estratégica e macro internacional do dinamarquês Danske Bank, a retomada do emprego é essencial. “O emprego será o fator chave para a recuperação. Se não tivermos crescimento do emprego, o consumo irá esmorecer quando o estímulo estiver acabado”, disse à InfoMoney.

Além disso, como explicitado na tabela abaixo, quanto mais rápido é o corte de empregos, mais acelerada pode ser a recuperação da economia. E a velocidade dos cortes nesta recessão é impressionante. Desde dezembro de 2007, foram cortadas 6,7 milhões de vagas. Para Ellen, caso a recessão de 1958 possa servir parâmetro, então o crescimento dos empregos pode ser retomado em setembro deste ano.

O mercado de trabalho e a recessão
Pico Mínima PIB real no período (%) Perda de empregos no período (%) Meses até a retomada do emprego
Dezembro 2007 Maio 2009 -3,8 -5,3
Março 2001 Novembro 2001 -0,4 -2,0 22
Julho 1990 Março 1991 -1,3 -1,5 12
Julho 1981 Novembro 1982 -2,9 -3,1 4
Janeiro 1980 Julho 1980 -2,2 -1,3 1
Novembro 1973 Março 1975 -3,1 -2,7 4
Dezembro 1969 Novembro 1970 -1,0 -1,4 4
Abril 1960 Fevereiro 1961 -1,3 -2,3 3
Agosto 1957 Abril 1958 -3,8 -4,4 3
Julho 1953 Maio 1954 -2,7 -3,3 4
Novembro 1948 Outubro 1949 -1,7 -5,1 5
Média das recessões pós-2º Guerra Mundial -2 -2,7 6
Fonte: US Business Conditions Weekly – Bank of Tokyo-Mitsubishi UFJ

Porém, olhar para os dados do emprego é olhar para uma estrela que brilha, mas já morreu. Da mesma forma que os dados oficiais do PIB (Produto Interno Bruto) publicados pelo governo, portanto, “os economistas precisam se debruçar sobre dados que possam providenciar sinais antecipados de um retorno ao crescimento”, explica Ellen. Pior, talvez, seja ainda esperar pelo decreto oficial de recessão, conferido pelo NBER (National Bureau of Economic Research). O instituto, por exemplo, só declarou o final da recessão de 2001 (novembro) em julho de 2003 e, a atual recessão, iniciada em dezembro de 2007, foi anunciada em dezembro de 2008.

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Antecipando a recuperação

“É possível traçar uma distinção entre os indicadores que mostram que a crise está atrás de nós, contra indicadores de qual a força da recuperação econômica em andamento”, disse à InfoMoney Richard Kelly, economista sênior do canadense TD Bank Financial Group. Segundo ele, é interessante acompanhar o custo dos empréstimos para empresas com rating AAA (o mais elevado), que já retornaram para níveis próximos ao período pré-crise (veja gráfico). “Mas enquanto a melhora na arena financeira é necessária para uma recuperação econômica, ela não pode nos dizer qual força terá a retomada”, diz.

Para isso, Kelly chama atenção aos dados manufatureiros, como o ISM e os de pedidos de bens industriais e de exportações. O ISM Index, por exemplo, ainda está abaixo dos 50%, o que indica retração, porém, o ritmo de recuo tem desacelerado desde dezembro do ano passado. O indicador mede o nível de atividade industrial levando em consideração os seguintes fatores da indústria norte-americana: número de pedidos, produção, emprego, número de entregas e estoques.

Taxa de crédito corporativo AAA (Moody’s)
Fonte: Federal Reserve Bank of Dallas

Ellen, por sua vez, destaca o Leading Indicators (LEI)- relatório que compreende vários índices já divulgados, como pedidos de auxílio-desemprego, custo de mão-de-obra, permissões para construção entre outros -, publicado pela Conference Board.

“O LEI tende a antecipar o crescimento econômico entre 3 a 6 meses e pode antecipar muito bem os pontos de virada no ciclo econômico”, explica.

Em junho, última medição do indicador, o LEI aumentou 0,7%, a terceira elevação consecutiva. É uma indicação que a recuperação pode estar bem próxima. Segundo Ellen, a primeira leitura do PIB do terceiro trimestre, a ser publicado no dia 29 de outubro deverá ser suficiente para convencer a todos que os EUA estão em recuperação.