Em 2010 de turbulência no mercado, ouro sobe 32% e é melhor investimento do ano

Inflação come ganhos das principais aplicações; pela 1ª vez desde 1995, Ibovespa tem rentabilidade de apenas um dígito

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SÃO PAULO – A combinação da volatilidade vista nos mercados em 2010 e da força da economia brasileira – que trouxe consigo inflação e valorização do real – colocou o ouro isolado na posição de melhor investimento do ano, com ganhos nominais de 32,26%. A rentabilidade do segundo lugar, que ficou com os CDBs pré-fixados, foi de 9,91% – ou seja, menos de um terço dos ganhos da commodity. 

O ouro teve as maiores rentabilidades em cinco meses do ano, impulsionado pela aversão ao risco suscitada pela situação da economia global e perspectivas não muito positivas para uma recuperação mais consistente nos países desenvolvidos. Desde 2002, as cotações do ouro já avançaram quase 245%.

Vale dizer que, para alguns analistas, a commodity deve continuar sendo uma boa opção em 2011. É o caso de bancos como o Goldman Sachs e o UBS, que acredita que as pressões inflacionárias e cambiais seguirão atrapalhando os emergentes no próximo ano – o que, combinado com um retorno não atrativo do mercado de renda fixa das principais economias, deve impulsionar a demanda pelo ouro e levar suas cotações a novas máximas históricas.

Os ganhos magros do Ibovespa
No caso da renda variável, 2010 acabou e o Ibovespa segue abaixo dos 70 mil pontos, muito abaixo do projetado para o ano. Apesar dos ganhos de mais de 80% no ano anterior, as expectativas eram bastante otimistas para a bolsa no final de 2009.

 O Ibovespa no ano 
Mês Variação
Janeiro -4,65%
Fevereiro +1,68%
Março +5,82%
Abril -4,04%
Maio -6,64%
Junho -3,35%
Julho +10,80%
Agosto -3,51%
Setembro +6,58%
Outubro +1,79%
Novembro -4,19%
Dezembro +2,35% 
2010 +1,04%

Contudo, o bom desempenho da economia brasileira não conseguiu segurar uma alta consistente no Ibovespa, que até se aproximou de sua máxima histórica, mas encerrou 2010 com uma pequena alta de 1,04% – desde 1995 o índice não fechava um ano com uma variação (positiva ou negativa) de apenas um dígito. Naquele ano, vale dizer, o índice registrou desvalorização de 1,26%. De lá para cá, são 1.512% de valorização ao longo dos anos.

Entre os fatores que contribuíram para esse desempenho nada espetacular, está a pressão exercida pelas ações da Petrobras (PETR3, PETR4). A maior capitalização da história derrubou a estatal em diversos momentos no ano, em meio a incertezas do processo, questionamentos sobre a governança devido à interferência da União nas decisões, o período de subscrição e uma bateria de cortes de preço-alvo e recomendações após a conclusão da operação. Com isso, seus ativos ON e PN – que têm juntos uma fatia de 12,22% do benchmark – fecharam o ano com queda de 24,33% e 22,97%, nessa ordem. Ainda no front corporativo, a recuperação que não veio para o setor siderúrgico também pressionou o Ibovespa.

No âmbito macroeconômico, o clima incerto lá fora tampouco contribuiu com os ganhos do índice. Nos EUA, o cenário trouxe uma recuperação mais lenta do que se esperava, segurada pelos mercados imobiliário e de trabalho, o presidente encontrando bastante oposição para governar e ao invés da estratégia de saída que se imaginava, um novo pacote de ajuda.

Na Europa, a crise fiscal que começou na Grécia agora já ameaça economias maiores, como Portugal e Espanha – uma enxurrada de revisões negativas de ratings e cortes de orçamento mantiveram o continente no foco dos mercados no ano. Os pacotes de resgate costurados por FMI (Fundo Monetário Internacional) e União Europeia fizeram pouco para acalmar os ânimos com a questão. 

Já na China as pressões inflacionárias começam a exigir ações do governo para desacelerar a economia, levantando temores de que o motor do mundo perca ritmo, causando, por exemplo, uma queda na demanda por commodities.

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Com isso, o mercado deixou um pouco de lado o bom desempenho da economia doméstica – que deve encerrar o ano com avanço de 8% do PIB (Produto Interno Bruto), segundo as últimas estimativas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou 7,6%, de acordo com a Fitch. As eleições presidenciais também não tiveram grandes impactos ou surpresas: Dilma Rousseff é a sucessora de Lula no comando do País, e Guido Mantega também segue à frente do Ministério da Fazenda.

Apesar das preocupações com a economia global, vale dizer que os índices norte-americanos e europeus – salvo exceções – caminham para um fechamento bem mais positivo do que o registrado pelo Ibovespa, mostrando o peso do mau desempenho de algumas companhias de commodities no índice.

Outras métricas
Considerando os ganhos reais – ou seja, descontando o IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercados), que surpreendeu e marcou alta de 11,32% no ano – somente o ouro, dentre as principais métricas de investimento, ficou no campo positivo em 2010.   

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A aplicação em CDBs pré-fixados de 30 dias garantiu retorno nominal médio de 9,91% no ano, acima do benchmark CDI (+9,58%). A caderneta de poupança, por sua vez, apresentou retorno nominal de 6,22% em 2010.

dólar acompanhado pela variação da Ptax, por sua vez, registrou rentabilidade nominal negativa de 4,31% no período – o pior investimento do ano. O dólar comercial, por fim, fechou o ano com perdas de 4,32%

Confira na tabela abaixo a rentabilidade dos principais investimentos:

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Investimento 2010 Real* 2009 Real**
Ibovespa +1,04% -9,23% +82,66% +85,85%
CDI*** +9,58% -1,57% +9,81% +11,73%
CDB **** +9,91% -1,27% +9,72% +11,64%
Poupança +6,22% -4,58% +6,92% +8,79%
Ouro +32,26% +18,81% -3,05% -1,35%
Dólar Ptax -4,31% -14,04% -25,49% -24,19%
IGP-M +11,32% -1,72% – 

* Deduzida a inflação pelo IGP-M que ficou em 11,32% em 2010
** Deduzida a inflação pelo IGP-M que ficou em -1,72% em 2009
*** Taxa Efetiva Anbima
**** Taxa pré 30 dias

Inflação e câmbio despontam como preocupações
Apesar de positiva, a força do País trouxe consigo alguns problemas – o primeiro deles foi a inflação, que voltou a preocupar os brasileiros. Apesar de ter interrompido em julho o ciclo de altas da taxa Selic iniciado em abril, elevando a taxa básica de juro pela última vez em 2010 (para 10,75% ao ano), o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) seguiu indicando uma deterioração do cenário inflacionário.

Com os alimentos marcando forte alta, o BC acabou tomando medidas macroprudenciais, como a elevação do compulsório. Na ata da reunião de dezembro – a última presidida por Henrique Meirelles, que será sucedido por Alexandre Tombini no cargo – o Copom indicou um aperto monetário em 2011, ao dizer que “a depender das circunstâncias, ações macroprudenciais podem preceder ações convencionais de política monetária”.

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A dinâmica interna, contudo, não é a única responsável pela inflação brasileira. O excesso de liquidez no mercado internacional – que ganhou ainda mais força com a nova rodada de flexibilização quantitativa nos EUA, o QE2 – também tem sua parcela de culpa. Com as taxas de juro nos mercados desenvolvidos próximas de zero, os emergentes, que já se recuperaram da crise, oferecem rendimentos maiores e atraem capital externo.

Os US$ 600 bilhões do QE2 também trouxeram como consequência uma desvalorização do dólar norte-americano, o que passou a incomodar os emergentes – Brasil em China em particular, que começam a perder competitividade. A política cambial do gigante asiático foi alvo de muitas críticas dos EUA – que, contudo não provocaram reação alguma.

No caso brasileiro, a partir de meados de setembro o governo se preocupou em assegurar que estava monitorando a situação da divisa e que agiria para evitar a sobrevalorização do real. Em outubro, o Brasil implementou uma série de medidas para tentar barrar a alta da divisa nacional, incluindo a elevação do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre capital externo no mercado de renda fixa brasileiro e sobre a margem de garantia (apenas para investimentos estrangeiros no mercado futuro), uma regra de câmbio simultâneo para determinados investimentos, restrições de aluguel, troca ou empréstimo de títulos e a exclusão das cartas de fiança do rol de garantias aceitas pelas câmaras de compensação da BM&F Bovespa para colateralização de operações realizadas por estrangeiros.

A questão ajudou a evidenciar ainda mais a divisão entre emergentes e desenvolvidos: enquanto os emergentes tentam conter as pressões inflacionárias, economias desenvolvidas como a norte-americana despejam dinheiro na economia tentando evitar uma deflação. Ambos os assuntos devem seguir em pauta em 2011 – por aqui, apesar da desaceleração vista em dezembro, a inflação deve seguir preocupando, assim como a guerra cambial. Lá fora, o que atormentou os mercados em 2010 – seja a questão fiscal europeia, a marcha lenta em que os EUA se recuperam ou o aperto monetário chinês – também promete marcar presença no ano que se inicia na próxima semana.