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Colunista convidado: Paulo Arvate, professor da Fundação Getúlio Vargas
Muitos analistas têm se debruçado em entender os determinantes da queda de popularidade da presidente após o período eleitoral. Esse fato é estranho à literatura empírica visto que se observa nesse período uma popularidade (elevada) vinda das urnas que permitem os governos realizar mudanças que se fazem necessárias. O Congresso entre num período de lua-de-mel com o Executivo em torno de mudanças.
O argumento dominante entre eles é de que houve um estelionato eleitoral. Basicamente, o que sustenta esse argumento é a ideia de que a política macroeconômica pré-eleitoral era insustentável e, a presidente, ao mantê-la, levou vantagem sobre seu adversário no momento da eleição. A política macro foi a dimensão que impôs a vitória da presidente e, a sua correção, pós momento eleitoral, determinou a queda de sua popularidade.
O objetivo dessa discussão é entender o momento eleitoral e a impopularidade recente de outra forma. Vejamos a eleição. Candidatos a eleição são avaliados pelos eleitores em diferentes dimensões. Dimensões observáveis como o programa de governo ou o que se pretende fazer/se fez/ou se faz, ou dimensões não-observáveis como simpatia, moral, etc.
Existindo grande diferença no resultado eleitoral entre os candidatos, algum fator observável ou não pode explicar essa diferença. A política macro poderia ser essa dimensão. Mas não foi o que se observou no pleito. Numa eleição tão apertada, não se pode imputar que uma dimensão observável ou não tenha determinado a vitória da presidente.
Se a política macro ou qualquer outro fator não-observável fosse importante, o resultado das urnas não seria tão apertado. Nessa situação eleitoral, o mesmo vale para o candidato da oposição. Ele não era diferente em dimensões observáveis ou não para os eleitores da candidata a presidente. Ele poderia não mentir na política macro mas poderia mentir em outras dimensões. Mudar programas sociais, etc.
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Assim, é difícil falar de estelionato eleitoral e queda de popularidade tendo a política macro como fonte nos termos apresentados.
Talvez o que tenha acontecido numa eleição bastante dividida é encontramos eleitores de dois tipos. E essa plausibilidade pode explicar os dados recentes do DataFolha: os que não-votaram em Dilma continuam a pedir a sua saída, mas existe uma parcela de eleitores, cada vez maior, que votou na presidente e se juntou a esse grupo.
O primeiro tipo, que não votou na presidente, paga imposto, recebe pouco bem público (observável) e que não estaria contente com parte dos recursos pagos ser destinado a corrupção. Afinal de contas, ele paga a conta e não recebe nada. Além dos mais, vê uma parcela de recursos públicos que ele pagou sendo capturada pelos políticos. O segundo, que não paga imposto, recebe bem público e pode ser mais tolerante com a corrupção (essa ideia não é nova; existem muitos casos de rouba mas faz no Brasil e no mundo – Portugal e Índia tem esses casos também). Assim, ele não paga a conta. Desde que receba um pedaço, ok. Talvez esse deva ser o eleitor de Dilma.
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A proporção desses dois tipos por região e ou em regiões parece ter contribuído para uma eleição apertada como se observou. Parece-nos que eleitores votaram com o bolso na eleição presidencial brasileira!
Bom, se os eleitores votaram com o bolso, o que explicaria a perda tão rápida de popularidade da Presidência pós-eleição apertada. Alguns colegas podem encontrar razões na desvalorização cambial. Isso pode ser verdade, se a desvalorização cambial provocar um aumento de custos e preços sem redução de margem. Um detalhe, isso teria que ocorrer mais sobre o segundo tipo de eleitor do que sobre o primeiro.
Considero ser esta uma boa aposta mas tenho outra explicação. Eu prefiro ficar com a ideia de que a redução do governo para os eleitores do segundo tipo fez com que os mesmos em diferentes regiões migrassem para o lado dos eleitores de primeiro tipo. Eles vivem do Estado direta ou indiretamente. Diretamente pelos programas sociais, indiretamente por emprego em diferentes áreas (alguns, fruto da corrupção que fez desaparecer seus empregos – veja o caso recente de Pernambuco e redução de postos de trabalho).
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Assim não há como evitar a rejeição do governo daqui pra diante. Conseguiu-se juntar o primeiro e segundo tipo de eleitor com a redução do Estado e isso explica a impopularidade. Vai ser muito difícil o governo lidar nesse ano e no seguinte com o ajuste e a impopularidade visto a premência da correção fiscal macro.
Mas a lição que se deve tirar desse episódio brasileiro não é evitar o ajuste fiscal para manter a popularidade e levar o país para uma situação pior para todos. E é isso o que aconteceria se o ajuste fiscal não fosse feito. A solução passa por instituições que não permitam mais esse caminho. Joaquins de plantão que fazem ajuste fiscal temos de montão entre os economistas. Joaquins que constroem instituições, temos poucos.