Eleições EUA

“Eleição de Trump não pode ser comparada ao Brexit”, diz economista

Para Luís Leal, economista-chefe do ABC Brasil, a Bovespa deve seguir a tendência mundial de aversão ao risco, mas a magnitude das perdas pode não ser tão grande como se imagina

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SÃO PAULO – A eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos certamente terá efeitos negativos relevantes nos mercados globais, mas não pode ser comparada ao “Brexit” — plebiscito realizado em junho em que os britânicos decidiram pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Esta é a avaliação do economista-chefe do banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal. Para o especialista, o grau de incerteza agora é muito maior. “Ao contrário do Brexit, quando se sabia que as alternativas eram permanecer ou sair da UE, agora será necessário esperar uma segunda rodada de informações sobre o que de fato Trump pretende fazer à frente da Casa Branca”, comentou.

Para Leal, os mercados reagirão com mais força à medida que o novo presidente norte-americano começar a definir quais serão suas diretrizes de governo, especialmente no campo econômico, o que deve acontecer antes de sua posse, em janeiro.

“No primeiro discurso após ser eleito, ele já adotou tom mais moderado que o da campanha, na linha de que vai governar para todos. Resta saber se as decisões serão neste rumo ou se ele de fato vai cumprir o que prometeu ao longo da disputa pela presidência”, disse Leal, citando como exemplo as propostas protecionistas de aumentar as alíquotas de importação de produtos do México e da China.

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Segundo o economista-chefe do ABC, os mercados acionários brasileiros devem seguir a tendência mundial de aversão ao risco visto nesta quarta-feira (10), mas a magnitude das perdas em um primeiro momento podem não tão grandes como se imagina, a ponto de haver o acionamento do “circuit-breaker”, mecanismo que suspende o pregão se o Ibovespa recuar mais de 10%. “O primeiro movimento é de susto e de aversão a risco por conta de ser uma novidade que ninguém sabe precificar”, disse.

Leal ponderou ainda que atualmente não está claro quem serão os integrantes da equipe econômica de Trump e qual corrente de pensamento ele deve seguir. “A abertura (do Ibovespa) vai ser ruim. O quão ruim vai depender muito. Por exemplo, teoricamente, Trump na presidência vai ser pior para os países asiáticos que para os europeus. Certamente, será péssimo para o México”, observou, projetando perdas mais fortes no país latino-americano que no Brasil.

Reação Global
No mercados dos Estados Unidos, após surpresa com a vitória de Donald Trump, o S&P futuro chegou a superar os 5% de queda, o que fez com que as negociações fossem temporariamente suspensas. Depois do maior susto, o índice amenizou as perdas e recuou menos que 2%. Na Europa, o londrino FTSE chegou a mergulhar mais de 4% no mercado futuro, mas agora opera estável após a abertura do pregão regular.

O índice acionário de emergentes do MSCI chegou a recuar 3,25%, atingindo o nível mais baixo em pouco mais de três meses. O ETF (Exchange Traded Fund) EWZ, que representa os papéis com maior peso no Ibovespa, cai 4%. O peso mexicano, ativo prejudicado pelo discurso de Trump crítico aos imigrantes e ao livre-comércio, chegou a cair 12% e agora recua 8%. O temor é que a chegada de Trump ao poder dê fim ao acordo de livre-comércio com o país.

O contrato futuro do VIX (VIXX6), considerado o “índice do medo”, chegou a disparar 42,35%, a 22,70, mas diminuiu os ganhos e agora sobe 11,74%, a 17,85. O VIX negocia a volatilidade das 500 ações mais negociadas na Bolsa de Nova York e tende a disparar em momentos de turbulência nos mercados financeiros. No mesmo sentido, o ouro – ativo normalmente procurado como “porto seguro” em momentos de maior aversão a risco – subia mais de 3%, a US$ 1.300 a onça, refletindo as incertezas dos investidores sobre o que esperar de uma gestão Trump.

Leal avalia que as quedas “menos intensas do que se imaginava” podem significar que investidores “ainda estão anestesiados” ou que aceitaram o fato de que terão que lidar com as consequências das eleições norte-americanas pelos próximos quatro anos. “Hoje é o dia de se repensar várias coisas em termos de investimento, mas o que vai ser daqui pra frente, acho ninguém faz a mínima ideia”, afirmou.