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SÃO PAULO – Em muitos casos, as pessoas costumam julgar o fracasso de um marinheiro de primeira viagem exatamente à falta de experiência do comandante. Pois essa “desculpa” não poderá ser atribuída para explicar um eventual insucesso de Eike Batista com os ambiciosos projetos do Grupo EBX, já que o megaempresário e ex-homem mais rico do Brasil já havia visto no século passado uma de suas empresas ir do céu ao inferno.
É o que relembra a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo divulgada no último domingo (4). A matéria conta a história da TVX Gold, a mineradora de ouro que teve Eike como principal acionista e presidente desde a sua criação, em 1985. Assim como boa parte das empresas “X” listadas recentemente na BM&FBovespa – como OGX Petróleo (OGXP3) e MMX Mineração (MMXM3) -, a TVX atraiu muitos investidores não pelo seu desempenho operacional, mas sim pela expectativa acerca dos projetos desenhados pelo seu principal acionista. Mas, assim como temos visto hoje, boa parte destes projetos não vingou, levando as ações da TVX, que chegaram a valer US$ 722 nas bolsas de Toronto e Nova York em 1996 – o que a colocou entre as 10 maiores empresas de ouro do mundo -, despencarem até US$ 0,27 pouco antes da companhia ser vendida à também mineradora canadense Kinross em 2001.
A reportagem destaca diversas semelhanças entre a TVX e as empresas do Grupo EBX. Uma delas está aliada aos projetos extremamente ambiciosos de expansão: Eike pretendia colocar a TVX entre as seis maiores mineradoras das Américas em pouco menos de 4 anos e, para tal, anunciou investimentos de US$ 480 milhões na Europa, Canadá, EUA, Peru e Equador – o quádruplo do que a empresa tinha em caixa na época. A solução para financiar os investimentos seria a mesma usada recentemente: o mercado de capitais. O empresário captou quantias milionárias de investidores empolgados com as expectativas de produção da TVX, o que poderia levar o valor da empresa de US$ 1,2 bilhão para US$ 3 bilhões entre 1995 e 1998, estimava Eike.
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Outra grande semelhança entre a mineradora canadense e as atuais empresas X: o “time” de profissionais que Eike formou para liderar a companhia. Assim como no Grupo EBX, onde o empresário recrutou ex-funcionários da Vale (VALE3, VALE5) e Petrobras (PETR3, PETR4), a TVX teve no comando Ian Telfer, uma das maiores autoridades mundiais no mercado de ouro. “A presença de Ian Telfer na TVX era o atestado de credibilidade de Eike”, disse ao Estado de S. Paulo o analista da Maison Placements. Atualmente Telfer é hoje presidente do Conselho Global do Ouro, entidade criada pelas mineradoras do mundo todo para discutir o mercado.
Um dos motivos do fracasso da TVX ficou atrelado à própria dinâmica do mercado de ouro. Minas de difícil exploração só são viáveis quando o preço do ouro está em um patamar alto, mas entre 1995 e 2000 o preço do ouro só caiu, inviabilizando parte dos projetos – em 2001, o preço médio do ouro havia sido de US$ 271, o mais baixo desde 1978. A reportagem aponta também os problemas enfrentados na Grécia, onde Eike adquiriu o complexo de minas de Cassandra mas, como as minas estavam localizadas em uma área de florestas nativas da Europa e cercadas por sítios arqueológicos, o projeto veio duramente rejeitado pela população local, impedindo que ele se tornasse operacional. Procurado pelo Estado de S. Paulo, o Grupo EBX não quis comentar a passagem de Eike no comando da TVX.