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Efeito Hypermarcas: 8 empresas que estão no radar de aquisições dos “gringos”

Com real em queda, deixando os ativos brasileiros baratos, e crise econômica, que faz as empresas buscarem fugir das dificuldades, o momento pode ser ideal para o estrangeiro investir aqui

Por  Rodrigo Tolotti

*correção no quarto parágrafo sobre a CCR, que não está entre os ativos que a Andrade Gutierrez pode se desfazer

SÃO PAULO – A atual crise econômica e política pela qual passa o Brasil pode estar abrindo uma grande oportunidade para alguns investidores, principalmente os estrangeiros. Nos últimos dias passou a se ouvir muito a expressão “o Brasil está barato”, ideia que foi reforçada pela recente fala do executivo Abilio Diniz e pelo anúncio da venda da parte de cosméticos da Hypermarcas (HYPE3) para a francesa Coty por R$ 3,8 bilhões.

Não só o atual momento de real fraco aumenta o interesse dos estrangeiros, mas a crise econômica também leva as companhias brasileiras a buscarem vender ativos para conseguirem captar recursos e reduzir seus endividamentos, criando um ótimo ambiente para os negócios. E as oportunidades são muitas no atual mercado.

David Beker, analista do Bank of America Merrill Lynch, lembra de recentes negócios feitos entre estrangeiros com ativos brasileiros, incluindo a Gazit comprando 5% da BR Malls (BRML3), a BAT (British American Tobacco) adquirindo a Souza Cruz (CRUZ3) para fechar seu capital, além do acordo do feriado envolvendo a Hypermarcas. O analista lembra ainda das recentes discussões entre a Oi (OIBR4) e a TIM (TIMP3) – ambas envolvendo controladores estrangeiros -, que podem se unir, com uma injeção de capital de investidores russos que poderia chegar a US$ 4 bilhões.

Fora da Bolsa, um setor que está em destaque é o de construção, com muitas empresas se desafazendo de projetos na área de logística. O grupo Andrade Gutierrez, uma das 23 empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato, por exemplo, começou a ofertar parte de seus ativos para grupos e fundos de investimentos estrangeiros. Porém, a empreiteira já informou que sua participação na concessionária CCR (CCRO3) não está entre estes ativos.

Porém, o maior plano de venda de ativos atualmente é o da Petrobras (PETR3; PETR4), que chega a US$ 15,1 bilhões previstos para 2015 e 2016. Na lista de desinvestimentos da estatal estão usinas térmicas e participações no controle de distribuidoras estaduais de gás natural, além da abertura de capital BR Distribuidora.

Outro setor que está chamando atenção dos investidores é o de mineração e siderurgia, com a CSN (CSNA3), Usiminas (USIM5) e a Vale (VALE3; VALE5) também anunciando planos de concentrar investimentos em ativos mais rentáveis. No mês passado, investidores estrangeiros mostraram interesse em comprar o Terminal de Contêiners da CSN, que estima que pode conseguir R$ 1 bilhão pelo ativo. Além disso, outras duas usinas hidrelétricas estão entre as potenciais vendas da siderúrgica para reduzir seu endividamento.

Já a mineradora já realiza desde 2011 um plano de desinvestimento, que segundo o presidente da companhia, Murilo Ferreira, estaria próximo de ser concluído. Em julho, a Vale anunciou a conclusão da venda de quatro navios para a China Merchants Energy Shipping Co, num total de US$ 448 milhões.

Há ainda outros ativos de menor valor, ou mesmo participações em empresas, que podem ter grande entrada dos “gringos”. Apesar de nada concreto, alguns analistas já citam, por exemplo, a Natura (NATU3) como uma companhia que pode ser afetada, principalmente após o negócio envolvendo os cosméticos da Hypermarcas, que deixou um sinal de que os estrangeiros estão de olho neste segmento.

É hora de investir no Brasil?
Em relatório divulgado na quarta-feira (4), Beker, do BofA, destaca que o interesse dos investidores estrangeiros realmente aumentou bastante nas últimas semanas por conta da derrocada do real, que tem tornado o mercado brasileiro mais barato, quando considerados os valores em dólar. Por outro lado, as tensões políticas ainda preocupam por conta da volatilidade que geram nos ativos, o que evita um aumento de exposição dos “gringos” no Brasil.

“Nossa percepção é de que os fundos de hedge estão com uma exposição relativamente plana no Brasil e que o investimento ainda está abaixo da média. Os investidores com quem falamos parecem estar à espera de mais clareza sobre a política e um declínio na volatilidade dos preços de ativos para elevar a exposição ao Brasil”, disse o analista. Em relação ao lado econômico, o BofA vê o mercado precificado em relação ao crescimento negativo no próximo ano e às projeções piores de inflação.

Na terça-feira (3), o Ibovespa disparou quase 5%, enquanto o dólar desabou mais de 2% e voltou para R$ 3,77 após a compra de parte da Hypermarcas. O negócio anunciado ainda no feriado aumentou as discussões de que o Brasil está barato e que para os estrangeiros, posicionados em dólar, esta poderia ser uma grande chance de investir no País.

A questão que tem ficado para os “gringos” é se o momento realmente é o ideal para investir no Brasil, que apesar de estar mais barato, ainda passa por muita volatilidade com seu ambiente conturbado. Para Pablo Spyer, diretor da mesa de operações da Mirae Asset, há um apetite muito forte de compra.

Mais do que isso a reação é uma queda do dólar que vai exacerbando a entrada dos recursos. O real se valoriza e já vejo fundos gigantescos de Singapura querendo comprar 7 bilhões de ativos. Estes fundos querem alocar bilhões no Brasil”, destaca ele.

“A frase que eu venho ouvindo é don’t waste the good prices [não desperdice os bons preços, em tradução livre]. Crise dá oportunidade e os estrangeiros posicionados em dólar acham que o Brasil está barato. Mais importante que o fluxo estrangeiro eu acho que é a impressão que fica da operação da Hypermarcas. Os estrangeiros ligaram a luzinha verde no Brasil”, continua Spyer. “Todos os nossos clientes estão com o farol amarelo ligado, desejosos de trazer o dinheiro e comprar os ativos”.

Investidores estão à espera da melhor oportunidade para se posicionar num momento estratégico, antecipando-se para quando economia brasileira retomar o crescimento. A grande dúvida ainda é o momento certo de entrar, disse Roberto Padovani, economista do Banco Votorantim, em entrevista para a Bloomberg. “Está todo mundo desesperado para comprar Brasil”.

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