Pessimismo

Economistas divergem sobre Levy, mas estagnação até 2018 no Brasil já é consenso

Ao contrário do que antes se imaginou, o ano que vem pode marcar a continuidade, em vez de leve recuperação, do movimento recessivo de 2015, para quando é esperado PIB negativo na casa dos 2%

SÃO PAULO – O Brasil viveu de forma artificial durante os últimos anos, e agora precisa piorar antes de começar a melhorar. A frase é do economista e professor Samuel Pessoa, do IBRE/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), em entrevista publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo na edição do último domingo. É neste clima que se inserem projeções cada vez mais pessimistas acerca dos indicadores da economia nacional para este ano e 2016.

Ao contrário do que antes se imaginou, o ano que vem pode marcar a continuidade do movimento recessivo de 2015, para quando é esperado PIB (Produto Interno Bruto) negativo na casa dos 2% – a maior desde 1990, quando a economia brasileira encolheu 4,3%. O mau momento está refletido no desempenho da indústria, cuja produção recuou 8,9% entre janeiro e maio, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e o índice de confiança dos empresários, calculado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) atingiu seu nível mais baixo na série histórica, a 37,2 pontos. Além disso, o setor de serviços acompanha o pessimismo, com projeção para o primeiro recuo desde 1997 no setor. O único alento ainda parece estar no campo, onde as expectativas são de safra recorde para o ano.

Ouvido pela reportagem do jornal paulista, o economista Regis Bonelli, do Ibre, diz não se lembrar de um período tão pessimista em 40 anos. “Ninguém está imaginando que a gente vai crescer muito até 2018. Vai ser um quadriênio de crescimento muito lento”, disse ao Estadão. “Em 2009, a gente viveu um momento difícil, mas ficou claro que a economia reagiria. Agora, não. Está meio claro que, no curto prazo, a gente vai ter que amargar um período recessivo, com o nível de atividade muito reprimido: 2015 é o fundo do poço”.

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Também entrevistado pela reportagem, o economista e professor da UERJ José Luís Oreiro, representando a ala keynesiana, ressaltou a importância de o governo estimular a competitividade da indústria, sobretudo via elevação do dólar – o que naturalmente elevaria a atratividade dos produtos brasileiros no mercado internacional. Para ele, o ajuste fiscal atualmente aplicado não ajuda muito na recuperação. “O (ministro da Fazenda Joaquim) Levy aposta na mágica da confiança, ou seja, vamos restaurar a confiança com o ajuste fiscal e aí os investimentos privados vão vir. Vão vir por quê? O empresário investe com o objetivo de vender, não é porque confia no ministro. Ele precisa de demanda e de onde virá essa demanda? De lugar nenhum”, explicou.

Visão diferente é exposta por Samuel Pessôa, que acusa agendas desenvolvimentista e do bem-estar social como culpadas por esgotar o orçamento nacional. Para ele, a adoção de um modelo de crescimento baseado na intervenção do Estado na economia se mostrou ineficiente. “A nova matriz está órfã. Não tem pai, mãe, avó, tio, primo, nem amigo. Tem horas que dizem que nem existiu”, afirmou. Para ele, a solução estaria em um ajuste estrutural, muito além de mudanças para fechar as contas do lado fiscal. No entanto, o economista vê com bons olhos as ações de Levy. “Ele está fazendo a coisa certa mais rápido do que se imaginava”, disse.

De qualquer modo, Pessôa espera dias difíceis para os brasileiros – sobretudo os mais pobres. “Lamentavelmente, o ajuste pega as pessoas mais desfavorecidas. Graças a Deus, construímos um Estado de bem-estar social. Temos seguro-desemprego, o programa Bolsa Família, o salário mínimo está preservado. Isso faz com que os mais desfavorecidos estejam protegidos pelo welfare. A classe B tem mais reservas, mais poupança, condições de se proteger. Acho que a classe C, que está fora do colchão de proteção do Estado, vai sentir mais: ser afetada pelo desemprego e pela perda de renda”, concluiu.