Infraestrutura

Economista explica por que a China quer investir no Brasil (e um dos motivos é político)

Roberto Dumas Damas mostra que dinheiro dos chineses para infraestrutura é bem-vindo, mas que não vai resolver nossos problemas

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Roberto Dumas Damas (Crédito: Divulgação)
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SÃO PAULO – O Brasil tem um problema crônico com a infraestrutura, ficando sempre atrás da centésima posição nos rankings de países com melhores estradas, ferrovias, portos e aeroportos. Diante disso, o economista do Insper, Roberto Dumas Damas, não tem dúvida: deixem os chineses entrarem, porque todo dinheiro é bem-vindo para investir em um dos principais gargalos de crescimento do País. 

Mas e do ponto de vista deles? Como tudo no mercado é questão de interesse, Dumas lembra que um dos principais objetivos do acordo para os asiáticos é garantir o escoamento de commodities para a China, além intenção de criar uma zona de influência na América Latina e se contrapor aos Estados Unidos (estratégia aos moldes da Guerra Fria). Ainda assim, o entrevistado aponta que é preciso olhar com reserva para a proposta da ferrovia que ligaria o Pacífico ao Atlântico, uma vez que os impactos ambientais podem exigir algum tipo de adequação dessa obra.

O professor Roberto Dumas é o entrevistado do Podcast Rio Bravo para falar de investimentos Brasil-China. Para ouvir a entrevista completa clique aqui

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O Brasil atravessou uma onda de euforia no final da década passada e no início desta década, tudo por conta de expectativa relacionadas ao possível crescimento e desempenho acima da média da economia chinesa, o que, por extensão, atrairia as commodities brasileiras. Pensando nisso, quais seriam os impactos dessa dinâmica, desse desempenho, para o Brasil a curto e médio prazo?

Roberto Dumas: Na realidade, a China cresceu a uma taxa de dois dígitos em 2007, 2008. Não há a menor dúvida que o crescimento chinês está batendo já um dígito a algum tempo, e a tendência é que vá cair para 5% ou 6%, na média, na melhor da hipóteses nos próximos anos. Só que a gente precisa entender que isso, de certa maneira, impacta positivamente ou negativamente, dependendo do setor.

Por exemplo, em economia você tem três motores: consumo, investimento, quer privado, quer do governo, e exportações líquidas. A China era muito movimentada, muito mobilizada através de investimento e ela precisa aumentar o consumo porque a conta é simples e precisa fechar.

Se você faz muito investimento ou você consome tudo isso, ou você tem que abrir terceiros mercados. Como os EUA pararam de comprar tudo aquilo que a China queria, tentou se abrir a terceiros mercados, no caso o Brasil e África, mas isso daí também não dá para nós substituirmos toda a demanda que existia. Então a China decidiu que precisa se rebalancear. Ela precisa aumentar o consumo doméstico mais do que o PIB (Produto Interno Bruto). Veja, diminuir o investimento, investir menos, significa que vai ter um impacto negativo nas hard commodities, leia-se aí: cobre, níquel, ferro etc. Por outro lado, aumentando a renda da população chinesa, isso significa que daqui para frente deve ter um impacto positivo na soft commodities, ou seja, a soja.

Obviamente que, em termos líquidos, o Brasil perde, porque eu perco muito mais em quantidade e valor agregado no minério de ferro do que eu ganho na soja, mas aí, microeconomicamente, dependendo do setor, você pode ganhar dinheiro com esse soft landing e pode ser benéfico para o setor de agribusiness, que aliás é um setor que a gente aposta muito mais no Brasil, que é o agropecuário daqui para frente.

Como que, nesse sentido, devemos olhar para esses acordos que o governo brasileiro celebrou com a China há algumas semanas?

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RD: A China, na realidade, já está vindo para cá desde o meio da crise, lá para 2009, 2010, por quê? Antecipando que, essa crise, ela não conseguiria ter o outro mercado cativo, que era os EUA, sabendo que o déficit em conta corrente dos EUA cairia, primeiro, ela começou a vir para o Brasil com várias ondas justapostas.

A primeira onda foi o interesse de abrir terceiros mercados, como eu havia colocado. “EUA não quer comprar como comprava, porque tinha um déficit em conta corrente de 6,5% do PIB. Ora, então vou tentar vender na América Latina como um todo e na África.” Por outro lado, eles já vinham há algum tempo para cá para garantir acesso aos recursos naturais, comprando refinaria, ou a mineradora Itaminas, como, por exemplo, a aquisição de 40% da exploração do campo de petróleo de Peregrino.

Essa é a outra onda de interesses dos chineses para cá: acesso aos recursos naturais. A terceira onda, como eu te falei justapostas, uma para e outra vem, aproveitar o mercado consumidor não só do Brasil, mas da América Latina como um todo. Então você pega Sany Heavy Industry, a Chery, a Huawei, todas essas empresas que querem buscar. E explorar o mercado consumidor brasileiro também tem um outro ponto. Como a China, por incrível que pareça, precisa ficar menos competitiva para rebalancear sua economia, aumentar o consumo, esses empresas querem também se tornar internacionais e buscar lucratividades em outros lugares, por isso que elas resolveram também vir para o Brasil. Esse é um ponto.

Agora, um outro ponto que eu gostaria de sempre tocar é o soft power. No caso do Brasil, o interesse da China de montar uma zona de influência do Pacífico, o que a gente chama de soft power, é mais ou menos em contra ponto com o interesse do Obama de estressar cada vez mais a presença dos EUA na Ásia, principalmente na reeleição dele quando ele falou que sua prioridade era estabelecer mais ainda a presença, tanto nas Filipinas, na Coreia, ajudar Taiwan, e o que quer que seja. Por que eu digo que o soft power no Brasil é muito menor? A China de certa maneira tem interesse de influenciar as decisões geopolíticas que possam acontecer. Tanto é verdade que o maior parceiro da Rússia não deixa de ser a China. O maior parceiro da Venezuela não deixa de ser a China. O único que ainda resolve fazer negócio com a Argentina não deixa de ser a China. No Brasil, existe esse interesse em soft power? Sim, mas não quer dizer que é o maior.

Dependendo do país, o soft power é a variável chave para a China estar. O soft power não é a variável chave para a China estar no Brasil, mas certamente o é para a China estar na Venezuela junto com a aquisição de recursos naturais, como no caso do petróleo. Certamente o é para estar na Argentina. Certamente, além do Petróleo, o é para estar na Rússia e fazer negócios com o Irã.

Como que essa presença do soft power aparece nesses países, Venezuela, Argentina e Brasil?

RD: Na Venezuela, eu tenho plena convicção que você tem dois motes que levam a China a fazer negócios. Um é o acesso a recursos naturais e soft power. A Rússia é a mesma coisa, acesso a recursos naturais e soft power. Na Argentina, dificilmente vai ser acesso a recursos naturais, é muito mais mercado consumidor e também soft power. No caso do Brasil, sem dúvida é acesso a recursos naturais, abrir terceiros mercados, explorar o mercado consumidor e eu colocaria em quarto ou quinto lugar o soft power.

Alguns acordos já renderam resultados imediatos em termos de investimentos, como é o caso das áreas de aviação, petróleo, agronegócio e mineração. A escolha dessas áreas está relacionada a capacidade de obtenção de resultados, ao retorno desses investimentos?

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Roberto – Como eu coloquei, o interesse do chinês de vir para cá é, nesses setores, parte em várias vertentes. Primeiro, acesso a recursos naturais: mineração, soft commodities, como o caso da soja, etc. E também infraestrutura. Muitas vezes a pessoa pergunta: “Por que o chinês quer vir para cá investir em infraestrutura?” Não é que ele quer apenas investir em infraestrutura porque ele almeja o lucro. Claro que ele almeja o lucro, porque a lucratividade que ele vai ter na China, dado que ela tem que mudar o modelo de crescimento, vai ficar menos competitiva, vai ser maior aqui. Mas o que mais norteia a China de vir para cá para investir em infraestrutura, principalmente em ferrovias etc., é para garantir uma perenidade do escoamento da produção de hard commodities e soft commodities de volta para China.

O que eu quero é ter a minha matéria prima e conseguir escoar de forma perene, garantida, de volta para China. Esse é um dos principais objetivos, e também ter o seu retorno. Na realidade, a gente pode dizer que em que peso lucro e a rentabilidade que eles vão ter, o interesse de internacionalização, eu tenho plena convicção que o principal motivo dele estar aqui em determinados segmentos de infraestrutura é garantir o escoamento da produção, o que é muito bom. É uma perfeita simbiose. Eu tenho matéria prima, ótimo. Alguém quer comprar. É o preço justo? É. Não tem infraestrutura.

O chinês vem… Vai ser essas operações? Não sabemos, mas pelo menos um memorandum of understanding (memorando de entendimento). É o único que está interessado em fazer essa magnitude de investimento aqui. Justamente, meu principal gargalo, além da educação etc., torna-se a infraestrutura, o chinês vem e fala: “Olha, tenho interesse de investir mais 53 bilhões principalmente em infraestrutura.” Tenho que ficar absolutamente de braços abertos em um negócio desse. Agora, é importante dizer o seguinte: na minha opinião, na minha experiência, brasileiro tem uma coisa muito estranha, que ele acha que é um investimento exótico do chinês vir para cá.

Dá para confiar? Não dá para confiar? Coloque-se tudo no contrato, por exemplo. No caso da linha de transmissão de State Grid, e você não coloca no contrato que os chineses não podem trazer tantos milhares de chineses para vir trabalhar aqui, eles vão trazer. É aquela coisa, você tem que deixar o contrato absolutamente blindado.

Mas o Brasil tem poder de barganha para isso?

RD: É duplo interesse, não tem problema. O Brasil não quer se transformar, como alguns países da África, onde vem 20 mil 30 mil chineses trabalhar. Não tem problema, tudo tem um preço. Você quer vir aqui construir essa estrada? Você quer vir aqui construir essa ferrovia? Eu permito que você traga X trabalhadores chineses, mais do que isso não. Coloque as condições, o que for assinado em grande parto foi um memorandum of understanding, o que é muito bom. Tudo é negociado, o chinês adora negociar.

E não cabe agora… Nós queremos sair atrás gritando atrás da ambulância falando que nada vai dar certo, o que é uma bobagem. A única coisa que não deu certo foi da Foxconn. E a Foxconn é uma empresa privada de Taiwan, que não deixa de ser China. Esse acordo, basicamente, envolve todas empresas, ou seja, só empresas públicas, e quem veio fazer o acordo com o governo chinês. Então, não tem porque não acreditar.

Todos vão sair do papel? Óbvio que não, muita coisa vai dar errado, mas desses 53 bilhões de dólares, dado que já veio para cá, entendendo a dinâmica da economia chinesa, o interesse que ele tem dos recursos naturais, a desconfiança que ele tem da infraestrutura, eu tenho que ficar absolutamente de braços abertos.

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O governo deve acreditar nessa disposição dos chineses em termos desse empréstimo de 53 bilhões de dólares ao Brasil?

RD: Certamente que sim, porque uma maneira de você legitimar o Partido Comunista Chinês não deixa de ser controlar eventuais ou possíveis tensões sociais no seu país e garantir a continuidade do seu crescimento econômico ou até mesmo o rebalanceamento, e o Brasil faz parte dessa equação. Garantir acesso a recursos naturais, garantir a continuidade do crescimento econômico em determinadas vertentes em que pese isso e, consequentemente, garantir a legitimidade do partido comunista chinês. Então não é apenas o interesse econômico.

Óbvio que economia, política e sociedade estão ligados, mas é muito também um interesse político. Garantir o acesso a recursos naturais, a continuidade do seu crescimento, a internacionalização da empresa. O Brasil é uma variável chave para a China, o que é muito bom nesse sentido, porque são economias complementares e não absolutamente competidoras. Ou seja, ele precisa de matéria prima, eu vendo matéria prima. É só isso? Não, eles estão trazendo valor agregado. Eles querem investir em infraestrutura.

Em relação a ferrovia que ligaria o Pacífico ao Atlântico? Em que contexto de relacionamento essa obra seria possível?

RD: Essa ferrovia de ligar o Atlântico com o Pacífico é uma coisa muito grande e que aí eu acho que, eventualmente, teria muitas intempéries no meio do caminho. Primeiro, que você vai passar por alguns países e segundo que você obviamente vai ter, não problemas, mas impactos ambientais que em alguns momentos podem ter que sofrer alguma adequação.

Ou seja, vai ter que ter um plano de mitigação de impacto, e aí precisa saber se é realmente do interesse. Seria muito do interesse do chinês. É interesse meu também, é interesse do brasileiro também. Só que aí você está envolvendo três países, envolvendo inúmeras agências de regulamentação, inúmeras agências do meio ambiente, Ministério do Meio Ambiente, o IBAMA, fora todas as agências que tem lá fora, o Ministério Público… E a gente sabe que a parte de meio ambiente ou até mesmo social no Brasil tem inúmeras agências, justamente com ideologias diferentes, com velocidades diferentes e com agendas diferentes, e que por mais que você consiga licença prévia, licença de instalação, licença de operação, pode ocorrer do Ministério Público falar que não concorda e para toda a obra. Então, é uma obra muito complexa. Eu não ficaria olhando se os acordos vão dar certo olhando somente nisso. Calma, isso daqui é uma coisa para se pensar bem no longo prazo.

Esse tipo de acordo faz com que o Brasil se torne dependente, de certa maneira, da China, em termos da política internacional?

RD: Veja, aí nós entramos nos casos das vantagens comparativas, vamos dizer assim. Se eu sou dependente da China ou não. É óbvio que sozinho não vou conseguir fazer a infraestrutura pelo jeito. Atualmente, claro, em nenhum momento estou dizendo que o chinês vai me colocar no estado da arte em termos de infraestrutura.

Só para você ter uma ideia, nosso nível de investimento em infraestrutura é mais ou menos 2.2% do PIB, e a média do mercado emergente é 5.4%. Se você fizer uma conta boba, bem back-of- the-envelope, você percebe que o Brasil precisa, mais ou menos, até 2030 de 240 bilhões de reais em infraestrutura. Eu não tenho esse dinheiro, o governo não tem esse dinheiro e muito dificilmente daqui a 5 anos eu vou ter esse montante.

De novo, não quero dizer que a China vai me ajudar totalmente nisso, mas esses US$ 53 bilhões praticamente fecha um terço, vamos dizer assim, da minha necessidade anual. Ou seja, o chinês teria que vir para cá e trazer o que ele está prometendo pelo menos três vezes mais todo ano, até 2030. Isso não vai acontecer, mas por causa disso não vou querer? Claro que não, lógico que eu quero. Pelo menos seria bom ele vir para cá, dar um impulso no espírito do empreendedor depois das reformas e talvez o setor privado passe a poupar um pouquinho mais e investir, enfim.

É óbvio que essa dependência é relativa, porque estou dando concessão. Não quero ficar dependente, mas aí fica aquela coisa: “Governo tem dinheiro? Não, invisto apenas 1%, o resto está tudo em custeio. 36% do que arrecado, 1% só vai para investimento. Setor privado, tem dinheiro? Tenho, mas o que invisto é 1.2 e agora não estou confiando, então não invisto nada”.

Mas e no contexto das decisões políticas em termos globais? Essa dinâmica não faria o Brasil ficar muito mais atrelado a China nesse momento?

RD: Não existe um, até onde sei, acordo de que: “Eu passo esse investimento para você e de certa maneira você passa a votar na ONU uma posição na forma que eu desejo”. É óbvio que um dos interesses dos chineses é também exercer seu soft power, fazer uma bipolarização com os EUA trazendo cada vez mais os países que precisam de recursos ou que não são bem vistos, que não é o caso do Brasil, pelos EUA, para o lado da China. Essa dependência fica “between the lines” (entrelinhas), vamos dizer.

Não há uma dependência, mas é óbvio que o chinês vê muito que os parceiros deles pensam e como se posicionam em relação a Taiwan, como se posicionam em relação ao aspecto geopolítico, como se posicionam em relação aos EUA, a Rússia… Isso é óbvio que passa no interesse deles, mas eu não me preocuparia com isso. Eu acho que esse não é o principal ponto.

A questão é agora sentar e fazer os contratos de concessão. Como eu já vi até um economista falar: “O diabo está nos detalhes.” Então, vamos montar todo esse acordo direitinho e se chegar efetivamente num contrato de concessão, que é o que o Brasil realmente quer. Quanto nós pagamos, o nível de exigência de conteúdo local… Se a gente continuar com essa bobagem aí… O nível de exigência de mão de obra, brasileira ou não e o nível de qualidade. Se isso não acontecer, a concessão é retirada, isso é simples.