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Economist: latinos, esqueçam o passado glorioso – agora é hora de pensar no futuro

Em densa reportagem, a revista destaca o motivo da economia da região estar em baixa - e como fazer para resolver isso, algo que não é tão fácil de ser realizado

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SÃO PAULO – Em uma análise bastante detalhada, a revista britânica The Economist destacou nesta semana a virada da economia da América Latina – e não em um bom sentido. Depois de anos de crescimento rápido e de um boom de commodities que promoveu dias positivos para a região, agora as memórias de crescimento parecem mais distantes. E, diante desta situação, agora é a hora de pensar no futuro. 

A publicação cita a  construção do grande Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro) anunciada em 2006, pelo ainda presidente Lula, que foi reduzida a uma pequena refinaria, com data de conclusão postergada para meados de 2016 graças ao escândalo de corrupção e queda dos preços do petrólelo que atingiram a Petrobras. 

Além disso, a década de ouro do crescimento médio de 4,1% causado pela alta nos preços das commodities dos minerais, petróleo e grãos trazida pela China e o trem que desencadeou a transformação social que tirou 60 milhões de pessoa da pobreza e inchou a classe média, acabou. 

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A reportagem ressalta que o Brasil vai ver sua economia encolher 1,2% este ano, junto com o aumento do desemprego. Na Argentina a situação é duradoura e prolonga a inflação de dois dígitos. A Venezuela enfrenta uma contração dolorosa de 7% este ano e inflação de 95%, diz o FMI (Fundo Monetário Internacional).

“Agora os bons tempos acabaram. A economia da América Latina está em um impasse; ela teve um crescimento de apenas 1,3% no ano passado e, neste ano, segundo o FMI, o crescimento deve ser de 0,9%, no quinto ano seguido de desaceleração”. E, aponta a revista, com isso, muitos analistas veem que agora que a região enfrenta um período de crescimento “novo normal” entre 2% e 3% ao ano, o que coloca em risco os ganhos sociais recentes, enquanto a queda na pobreza foi interrompida.

O que deu errado
Então, o que deu errado? Será que a América Latina desperdiçou o seu boom? Entre as explicações, estão a queda dos termos de troca, os menores investimentos na região – relacionados com os preços das commodities em queda -, além da expectativa de que a iminente alta de juros pelo Federal Reserve aumente os custos dos empréstimos.

No passado, tais reversões abruptas causaram pânico e saída de capitais. Agora o movimento é parcialmente diferente. Melhores políticas macroeconômicas, como taxas de câmbio flutuantes e dívida pública em baixa permitiram que muitos países se ajustassem sem problemas. Chile, Colômbia e Peru, que têm lidado com seus assuntos de forma responsável, ainda estão crescendo, mas muito mais lentamente. Os mais atingidos são os países que falharam em suas políticas, em diferentes graus, como é o caso do Brasil, Venezuela e Argentina.

E como fazer para retornar aos períodos de maior crescimento? Para retornar a um crescimento mais rápido, a América Latina deve abordar as suas deficiências estruturais crônicas. Ela exporta, poupa e investe muito pouco, suas economias não são diversificadas o suficiente e muitos de suas firmas e trabalhadores são improdutivos.

Para piorar a situação, ressalta a revista, a ascensão da China e do mundo emergente em geral ao longo dos últimos 15 anos agravou alguns destes problemas, conforme concluiu o Banco Mundial em um relatório publicado em maio. A China reforçou o papel da América Latina como um exportador de commodities, enquanto o peso relativo das suas exportações de manufaturados diminuíram.

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Um dos problemas enfrentados, avalia a revista, é a incapacidade da região de se juntar as cadeias globais de valor. Conforme destaca Ricardo Hausmann, economista da Universidade de Harvard, raramente os latino-americanos falam em tecnologia e inovação. 

A diferença de produtividade entre a América Latina e o resto do mundo tem sido cada vez maior. A região tem grandes empresas modernas, algumas das quais evoluíram para multinacionais de sucesso. Mas o negócio latino-americano típico assemelha-se a uma oficina sem escala, tecnologia e gestão profissional. Além disso, muitos países são muito fechados, como o Brasil, e é preciso ganhar escala para aumentar a produtividade. Soma-se a isso o fato de que metade dos latino-americanos trabalham em empresas não registradas e informais, que lutam para obter tecnologia e capital. 

Um freio ainda mais poderoso sobre a produtividade é a falta de estradas e portos. Enquanto a China investe 9% do seu PIB em infraestrutura e a Índia 6%, a América Latina investe apenas 3%. Por fim, a educação de baixa qualidade tem um efeito nocivo sobre a produtividade. 

A revista conclui destacando que, para mudar este quadro, é preciso melhorar a infraestrutura, melhorar a educação, fomentar concorrência e disseminar a tecnologia. “Durante o boom de commodities, muitos governos poderiam ignorar esses desafios. Agora, eles já não podem mais”.