Análise do Société

É o fim do esquema Ponzi global: “não se surpreenda se o S&P colapsar como Xangai”

Para estrategista do Société Générale, as medidas adotadas pela China apenas adiarão o colapso, e os ventos ruins podem se expandir para o Ocidente

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SÃO PAULO – As medidas para conter a queda dos mercados chineses fizeram com que Xangai, após cair 30% nas últimas três semanas, disparasse nas últimas duas sessões. 

A medida mais drástica foi tomada na última quinta-feira, quando agência reguladora de valores mobiliários da China proibiu que acionistas com participações superiores a 5% vendessem seus papéis nos próximos seis meses. A China Securities Regulatory Commission (CSRC) afirmou em seu site na noite desta quarta-feira que irá tratar com severidade qualquer violação da regra. 

Na quinta-feira, cerca de metade das ações chinesas estavam com as negociações suspensas, com 418 delas em Xangai e 1.049 em Shenzhen. E as medidas pareceram ter surtido efeito: dois dias de forte alta para Xangai, na maior sequência de ganhos desde 2008. 

Porém, há quem desconfie que estas medidas podem ser as piores a serem feitas, caso do analista do Société Générale, Albert Edwards. Em relatório, o Société Générale afirma que medidas como restringir as vendas a descoberto e paralisar a negociação de ações apenas pode retardar o risco de se expor e gerar riscos de disseminação dos problemas para outras áreas do mercado financeiro, produzindo posteriormente mais pânico. Um contágio do tipo pode elevar o risco financeiro sistêmico, afirmou o banco.

Edwards entra ainda em uma questão, como destacado pelo Financial Times: o analista compara a situação da China com a bolsa de Karachi, no Paquistão. Por motivos pessoais, em 2008, enquanto todos olhavam para a crise do subprime nos EUA, Edwards olhava também para o mercado paquistanês. 

Neste ano fatídico, o índice de cem ações de Karachi havia subido forte para atingir o seu nível mais alto em 20 de abril de 2008, aos 15.760 pontos. Desde então, o preço das ações entrou em colapso com o índice mergulhando 40% em apenas 4 meses. Com isso, medidas drásticas foram tomadas, algo considerado “insano” por Edwards: em 20 de agosto de 2008, um “piso” foi fixado em 9.144 pontos – ou seja, abaixo deste ponto, não poderia cair mais. “Todos os investidores, incluindo os estrangeiros que queriam buscar uma saída, ficaram ‘presos'”.

Edwards cita Simon Cox, da Emerging Markets Stock Funds de Hong Kong, que destacou ter registro das mais antigas bolsas de valores do mundo (desde 1602, a de Amsterdã) e nunca tinha visto mecanismo de bloqueio de saídas para manter a bolsa de valores em pé, uma vez que viola os princípios básicos de mercado livre. Cox ainda afirmou que o Paquistão cometeu um grande erro, transformando a catástrofe em calamidade. O piso permaneceu por 108 dias e, quando finalmente foi abolido, o mercado, como já se temia, desabou para o nível de 4.782 pontos em menos de quinze sessões, ou 52%, além do declínio anterior de 40%. 

Voltando à China, na quinta-feira, no Shanghai Composite, 719 ações subiram e apenas sete caíram. Em Shenzhen, nenhuma ação caiu, enquanto 733 subiram.

A semana foi intensa após a queda de 30% e o “congelamento” dos mercados levou a uma reação. Mas questões como as medidas que a China ainda poderá tomar e o impacto na economia devem nortear o mercado. Além disso, a noção de controle do Partido Comunista Chinês parece ter mudado. E suspensão da negociação de ações por lá irá impedir apenas temporariamente um novo colapso.

“A mesma perda de confiança na onipotência das autoridades chinesas, certamente, vai ecoar também para o Ocidente”, afirma. Ele argumenta que o colapso em curso do mercado de ações na China também pode ocorrer nos EUA ou na União Europeia e, quando isto acontecer, nenhuma medida, como flexibilização quantitativa (QE), será suficiente para colocar um fim a essa questão, classificada por ele como um grande “esquema Ponzi global”. 

Esse golpe é um esquema financeiro exótico e fraudulento que atrai pessoas oferecendo retornos muito altos, acima da média de qualquer investimento conhecido e, enquanto houver gente nova entrando e colocando dinheiro, o golpista pode usar esses recursos para pagar aqueles que saem. O nome Ponzi vem de Carlo Ponzi, um corretor italiano radicado nos Estados Unidos. 

“O Fed e o BCE tem criado bolhas no mercado de ações em um esforço para conter as expansões anêmicas na economia. Não se surpreenda se um colapso no S&P ocorrer exatamente da mesma forma que na bolsa de Xangai”, afirmou.

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O cenário é dramático, afirma ele, e comparável a bolha asiática de 1997: “A maioria dos investidores pareceu acreditar que a bolha do mercado de ações foi oficialmente sancionada. O seu colapso em curso tem destruído a credibilidade das autoridades e poderia facilmente afetar uma economia já enfraquecida”, afirmou.

“O inevitável borbulhar do mercado acionário foi, aparentemente, visto pela maioria dos clientes e comentaristas como bastante sensível uma vez que ela ajudaria a impulsionar o consumo e incentivar os grupos de empresas super alavancadas e vulneráveis ??(incluindo bancos) a emitir ações no mercado flutuante”, afirma. “Então, isso faz sentido para a maioria dos investidores. Mas a realidade é que você nunca pode controlar uma bolha “, disse ele. 

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