Bolsa americana

“É o começo de uma nova era”, diz CEO da Nasdaq sobre o papel das empresas com a sociedade

Adena Friedman disse que a "essência do capitalismo está mudando" e vê um "capitalismo cooperativo", no qual empresas e governos andam juntos

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SÃO PAULO — O papel das empresas com a sociedade e o meio-ambiente está mudando e isso marca o início de uma nova era do capitalismo, na visão de Adena Friedman, CEO da bolsa americana Nasdaq, que participou nesta sexta-feira (17) da Expert XP 2020.

Em conversa com o sócio da XP Inc. Bruno Constantino, Adena reforçou que o fundamento ESG (ambiental, social e governança — ou, em inglês, environmental, social and governance) é uma realidade para as empresas do mundo todo, e que os CEOs das companhias estão se sentindo mais empoderados para assumir um compromisso de sustentabilidade com a sociedade.

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“Eu acho que a essência do capitalismo está mudando. Nas últimas décadas por exemplo, quando a gente pensa no papel das empresas na economia, havia uma ideia de que era primeiro entregar retorno aos acionistas. Claro, isso é importante, mas afasta o verdadeiro propósito da empresa que é focar em crescimento e nos seus funcionários, isso consequentemente vai beneficiar os investidores”, disse.

Ela chamou essa nova era do capitalismo de “capitalismo cooperativo”. “Eu acredito que este seja um próximo passo muito, muito importante, e a pandemia levantou os problemas de focar apenas no retorno dos acionistas. As companhias têm responsabilidades com seus funcionários, com as comunidades em volta delas, com seus clientes e com seus fornecedores para garantirmos que estamos criando uma economia sustentável”, afirmou.

Segundo Adena, isso se tornou um novo padrão de qualidade nos conselhos das companhias nos Estados Unidos, mudando a definição de propósito das empresas, incluindo outras áreas igualmente importantes junto com os acionistas.

“O que eu acho que veio com a pandemia é que os CEOs estão se sentindo muito empoderados para ter uma nova forma de pensar em quais são seus papéis e essa ideia de colaborar com o governo para ter certeza de que estão provendo o que a sociedade ao nosso redor precisa, assim como colaborando com seus funcionários e clientes para termos certeza de que podemos nos proteger na pandemia.”

“É o começo de uma nova era. Eu estou muito empolgada com o que nós podemos ver lá na frente, em termos de futuro capitalismo”, completou. A CEO da Nasdaq enfatizou que há uma cobrança para que a bolsa americana seja mais firme em relação ao movimento ESG nas empresas, mas que, na opinião dela, é importante que isso parta dos investidores, tem que ser uma escolha dos próprios acionistas.

“Existe uma pressão sobre a Nasdaq para para que a gente possa ser mais firme na cobrança das empresas por esse papel. Mas em vez de a gente definir obrigações para as empresas, temos que estimular que elas sejam mais sustentáveis e apresentá-las aos investidores. Essa escolha é algo fundamental nos Estados Unidos. Eles devem optar por isso.”

Desigualdade

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Adena afirmou que está na essência do capitalismo oferecer oportunidades iguais para que todos possam alcançar o sucesso, mas que, embora estejamos longe dessa realidade, isso não significa que devemos abandonar o capitalismo e encontrar um novo sistema. Segundo ela, temos que encontrar nossas fraquezas e procurar melhorar, o que passa pelas atitudes das empresas, mas também é uma responsabilidade grande de empenho do governo.

“O capitalismo é o sistema que se provou ser o mais eficiente, mas não é perfeito. Sua essência é oferecer oportunidade igual para todos alcançarem o sucesso. Não quer dizer que todos vão aproveitar a oportunidade, mas todos devem tê-la. Isso inclui a responsabilidade do governo de ter programas sociais para dar chances a todos. As empresas também têm essa obrigação com seus funcionários.”

Ela usou o exemplo da educação, que é uma área que tem sido abordada tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos por governos e empresas, que estão usando a tecnologia para democratizar o acesso à formação médica ou fundamental, disse.

Em relação às empresas, a CEO da Nasdaq afirmou que ter ambições ou metas é algo bom para que elas se desenvolvam e se tornem mais responsáveis perante à sociedade. Adena citou o anúncio da XP Inc. feito hoje de que a companhia pretende ter pelo menos 50% de mulheres em todos os níveis hierárquicos dentro da empresa até 2025.

“Você tem ambição de ter 50% dos funcionários mulheres em um determinado período de tempo. Quando você tem uma meta alta, você muda o seu comportamento. Você vai lançar programas, você vai motivar mais os seus funcionários. Nós fazemos isso também na Nasdaq. Não sei se vamos atingir as metas, mas vamos buscá-las”, disse.

Surpresa com IPOs

Quanto ao retorno das ofertas iniciais de ações, os IPOs, na sigla em inglês, Adena se mostrou surpresa com a retomada no segundo trimestre deste ano. A bolsa americana já teve 87 ofertas de ações neste ano, que movimentaram mais de US$ 21 bilhões, apesar de o coronavírus ter derrubado os preços dos papéis em março.

“Tivemos uma queda nos preços [das ações], mas muitas indústrias já têm se recuperado. A pandemia criou novas experiências para os consumidores e isso vai ser algo duradouro”, disse. “Eu não esperava que o mercado de IPOs ficasse tão forte em março e abril. No começo do ano houve muitas ofertas adiadas, mas logo as empresas perceberam que era possível fazer uma oferta remota e aí tivemos uma recuperação grande.”

“Eu não sei nem se a gente vai voltar ao sistema antigo [de fazer ofertas de ações presenciais]. Os investidores se acostumaram [com as ofertas remotas], as empresas se prepararam, os road shows abrangem mais gente, foi uma experiência ótima”, completou a CEO da Nasdaq.

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