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PARIS – Enfim, uma voz de bom senso no governo brasileiro sobre o que fazer com a Argentina. Após tantas contradições entre palavras e atos, entre promessas de apoio que colidem com críticas oficiais severas, o nosso embaixador José Botafogo Gonçalves declara à TV Globo que “temos de ajudar a Argentina, o país está em crise, há risco de uma guerra civil, mas temos de trabalhar para que isso não ocorra”. E conclui com uma frase já escrita e reescrita várias vezes nesta coluna: “Não há alternativa”. Ou seja, vamos parar de criticar e começar a agir. Mas, para isso, é preciso compreender realmente o que está acontecendo lá, analisar os caminhos abertos e fechados, ver o que se pode ou não fazer. A coluna conversa com um profundo e respeitado analista do mercado financeiro, Francisco Petros, presidente da Associação Brasileira dos Analistas de Mercado de Capitais (Abamec-SP), para uma análise detalhada do drama argentino.
Coluna – O que falta para ajudar a Argentina a sair desta crise?
Francisco Petros – A política econômica argentina não está totalmente delineada. Falta decidir sobre aspectos importantes como a gestão da política monetária (metas de inflação, financiamento do déficit público, regras de emissão, etc.). No âmbito fiscal, o desafio reside no relacionamento com as províncias, o que poderá ter efeitos sobre a sustentação política de Duhalde. Quanto à política cambial, a existência de câmbio duplo (mercado livre e para o comércio exterior) deve-se a uma provável estratégia para que os ativos em dólares sejam convertidos para pesos. Ou seja, os depósitos devem ser convertidos por US$ 1 a 1,40 peso, evitando-se que a classe média sofra grandes perdas, o que pode dificultar ainda mais a recuperação da demanda e a situação política.
Coluna – E o “câmbio duplo” se sustenta?
Petros – Não. Ele não deve durar muito por duas razões básicas: 1 – ele não funciona, apenas servirá provavelmente como um “truque” em relação aos depósitos bancários. E, acima de tudo, o FMI não o aceita. Tudo indica que a equipe econômica de Duhalde deixará o câmbio livre tão logo resolva o problema dos depósitos em dólares. Sistema financeiro frágil.
Coluna – Mas o governo Duhalde não estaria enfiando os pés pelas mãos?
Petros – Não, não. E esta é uma questão importante. Veja, apesar da situação dramática, o atual governo não cometeu até agora nenhum erro relevante de política econômica. Está apenas administrando uma situação caótica, especialmente no sistema financeiro. Mesmo que os depósitos em dólares sejam convertidos em pesos, a situação do sistema financeiro continuará terrível.
A quebra de regras e contratos gerou, na população, uma desconfiança enorme no sistema financeiro e no governo. Quando forem permitidos saques maiores, é possível que haja “corrida bancária”. Lembro que, mesmo tendo uma enorme presença de bancos estrangeiros no país, parece pouco provável que eles aportem novo dinheiro para o país. Ao contrário, vários bancos estão tentando “insular” o risco Argentina de suas demonstrações financeiras.
Ilusão quebrada
Coluna – E a famosa “internacionalização” do sistema financeiro?
Petros – Com a crise argentina quebrou-se a ilusão de que a internacionalização do sistema financeiro reduz o risco de um país. Isso era apenas uma premissa ideológica distante da realidade. A recuperação econômica do país com bancos fracos será mais lenta, pois não haverá crédito e investimentos disponíveis no curto e talvez médio prazo. A hiperinflação e os calotes do passado fazem com que a população desconfie muito do sistema financeiro.
Coluna – E o futuro, Petros? Dá para montar o tal “plano consistente” de que todos falam?
Petros – Obviamente, as condições são terríveis e o FMI e a banca internacional estão pedindo racionalidade em meio ao caos argentino. Isso revela um enorme grau de insensibilidade. O próprio discurso populista de Duhalde se justifica, pois é a única forma que ele tem para obter o apoio, que é vital, para promover as mudanças duras e inevitáveis. Um “plano racional” requer que o sistema financeiro seja normalizado – com todos os riscos que já citei – e o abandono do regime de câmbio duplo. A liberação dos depósitos pode provocar uma enorme emissão monetária e há sério risco de hiperinflação. É de extrema urgência uma ajuda externa para evitar que o caos do sistema financeiro se espalhe. Nenhum prognóstico é possível de ser feito no momento por causa da postura duríssima do FMI, esse mesmo FMI que sempre aplaudiu as políticas formuladas nos últimos dez anos, com os resultados que aí estão. A principal vantagem do presidente é que ele tem um amplo apoio político, mesmo que ainda instável.
Coluna – E o risco do nacionalismo exacerbado e de desapropriações?
Petros – O fato de que o país está se refugiando num nacionalismo irracional é fruto de arroubos populistas, sim, mas também da falta de alternativas.
Rejeitados no exterior, buscam na irracionalidade peronista políticas nacionalistas, que poderão prejudicar ainda mais profundamente o país. Só para concluir, há muitas possibilidades, na Argentina, não dá para se fazer prognósticos confiáveis. Apesar de tudo isso, não é certo afirmar que a atual gestão econômica esteja fazendo grandes tolices. Não. A única coisa que podemos afirmar hoje é que a situação é simplesmente dramática e se agravará ainda mais se a comunidade financeira internacional não agir imediatamente, fazendo as concessões possíveis diante de um cenário político desesperador. É preciso entender que esta é uma crise diferente para a qual será preciso criar novos modelos de socorro e ajuda. Tudo o mais é conversa.