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SÃO PAULO – Depois de acumular forte queda frente ao real ao longo de 2005, o dólar vem apresentando uma trajetória de valorização frente à moeda brasileira no mês de dezembro, com ganhos de mais de 7% no período.
Certamente, a taxa de câmbio é uma das variáveis mais fundamentais de qualquer economia e, diante desta recente queda do real, surge a pergunta: já se pode falar em uma “tendência de alta” da moeda norte-americana ou seria esta recente valorização apenas uma correção técnica?
Fatores para a alta
Na tentativa de responder a esta questão, é preciso compreender os fatores que levaram a moeda brasileira à depreciação durante o mês de dezembro. Talvez o principal deles seja a intensificação do ritmo das atuações do Banco Central no mercado de câmbio. A entidade vem intervindo sucessivamente, seja por meio de compra de dólares à vista ou pelos leilões de swap cambial reverso, cujo efeito prático é de compra de dólares no mercado futuro.
Outros fatores também contribuem. O primeiro é a expectativa de uma reversão da posição “vendida” das tesourarias de grandes bancos, seguido pela decisão do governo brasileiro de antecipar o pagamento de US$ 15,5 bilhões ao FMI para o final do ano, o que corresponde a uma saída de divisas do país. Além disso, a perspectiva da adoção de uma política monetária mais expansionista pelo Copom (Comitê de Política Monetária) em 2006, a qual reduziria a atratividade relativa dos ativos brasileiros e, por conseguinte, a demanda por reais, também é um aspecto que ajuda a entender a recente apreciação do dólar.
Fluxo positivo
Em contrapartida, se os fatores acima tendem a impulsionar a cotação da moeda dos EUA, a manutenção do fluxo positivo pressiona a taxa de câmbio. Diante de um cenário de extrema liquidez internacional, proporcionado por juros baixos nas economias centrais, queda da trajetória do risco país, continuidade de superávits expressivos na balança comercial brasileira e juros internos ainda bastante elevados, o mercado doméstico segue atraindo recursos, o que tende a “empurrar” o dólar para baixo.
Deste modo, com o fluxo positivo elevado, parece haver espaço para a sustentabilidade da tendência de alta do dólar somente se o Banco Central der continuidade à atual intensidade das intervenções no mercado de câmbio e o spread entre os juros internos e externos seja reduzido de forma significativa, o que dependeria da redução da taxa Selic de forma consistente ao longo de 2006.
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Conflito com política monetária
Contudo, a longevidade da atual estratégia do Banco Central em intervir intensamente no mercado de câmbio vai de encontro com a política monetária, sugerindo um possível abandono do atual ritmo de tais atuações no curto ou médio prazo. À medida que a entidade compra dólares, a quantidade de reais em poder do público aumenta.
Finalmente, considerando que há um limite para a magnitude das atuações do BC no câmbio, a manutenção da trajetória de valorização do dólar parece depender de forma quase que exclusiva da continuidade da farta liquidez internacional e do elevado diferencial de juros. Somente caso estes dois critérios sejam atendidos, parece haver espaço para a sustentabilidade da “tendência de alta” do dólar.