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SÃO PAULO – Depois de apontar sua maior alta desde novembro de 2008 na última quarta-feira (21) – o dólar subiu 3,75% a R$ 1,858 -, os investidores se perguntam o que motivou esta disparada que, nos últimos 15 dias, fez a divisa norte-americana valorizar-se 18% no mercado brasileiro. Vale lembrar que em 2008, no auge da crise, o pico do dólar se deu também em meados de setembro, como agora, quando a divisa alcançou R$ 2,62.
“São vários fatores, entre eles o risco de contágio mundial da crise na Europa e nos EUA”, explica Felipe Pellegrini, gerente da mesa de operações do Banco Confidence. Segundo o especialista, anteriormente, a divisa apontava um preço abaixo da realidade econômica brasileira, e nos últimos dias passou a marcar um patamar mais real. “Dólar a R$ 1,54 não é nossa realidade, mas uma valorização como essa, também não é”, aponta Pellegrini.
Esta é a mesma opinião do professor de economia da Trevisan, Alcides Leite, que completa: “esse aumento se deve à instabilidade do mercado externo, mas não se trata do estabelecimento de um novo patamar”, explica o especialista que acredita em variações entre R$ 1,60 e R$ 2,00.
O que há de novo em relação a 2008, então?
De todo modo, o que realmente chama a atenção entre os motivos desta alta são os fatores internos, pouco atuantes em 2008, mas que recentemente passaram a imprimir grande peso no movimento da moeda norte-americana por aqui.
“O movimento atual é semelhante ao de 2008, porém por razões completamente distintas: em 2008, o credit crunch mundial levou à venda maciça de ativos, com o Brasil sendo mais atingido justamente por oferecer melhores condições de liquidez”, explica Rafael Bistafa, da Rosenberg Consultores Associados.
“A alta decorre das turbulências externas e do aumento de aversão ao risco, porém, o real se desvalorizou muito mais, quando comparado às outras moedas internacionais, o que denota também fatores internos”, lembra o economista da Tendências Consultora, Silvio Campos Neto.
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O primeiro deles foi a decisão do Banco Central de reduzir em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros, a Selic, ao final de agosto para 12% ao ano, o que desanimou os investidores. “Assim, na cabeça do mercado, o novo juro nominal deve estar abaixo de 11% e a inflação roda em torno de 6,5% – o que dá um juro real entre 4% e 4,5%, considerado muito baixo. Como sempre, o mercado não vai ficar sentado esperando um ajuste lento; o mercado está tentando recompor já a rentabilidade anterior e testa a autoridade monetária”, diz Bistafa.
Neto, da Tendências, completa, “a redução foi tomada no momento em que não havia espaço pra isso, dado o nosso cenário de política monetária. Estamos com inflação acumulada de 7,3%, o que supera o teto da meta. A decisão do BC não foi de acordo com os fundamentos econômicos”.
Outra medida que também pesa na conta do dólar, segundo Silvio Campos Neto, foi a decisão do Ministério da Fazenda de aumentar o IOF (Imposto sobre Operação Financeira) para transações com derivativos. “Esta medida criou uma anomalia no mercado, uma vez que pune somente quem está vendido em dólar, ou seja, quem aposta na queda da divisa. Assim, ninguém vende dólar porque será taxado,” explica.
Quando isso vai parar?
Segundo os analistas consultados pelo portal InfoMoney, esta é a pergunta de US$ 1 milhão, literalmente. “O câmbio está descolado dos fundamentos. Uma depreciação excessiva do real também não é saudável para nossa economia. A subida do dólar favorece os exportadores, mas coloca mais lenha na inflação,” ressalta o economista da Tendências Consultoria, ao referir-se aos preços de alimentos, produtos de higiene e limpeza, eletrônicos e mesmo o setor de serviços que dependem da cotação da moeda americana, por usarem componentes importados.
O BC parece já ter sentido o peso da excessiva valorização da moeda, e há pouco, quando o dólar avançava mais de 4%, realizou uma operação de swap cambial normal, quando a autoridade monetária vende dólar no mercado futuro. Nesta quinta-feira o montante da operação, que não acontece desde 26 de junho de 2009, foi de US$ 5,6 bilhões. A ação foi suficiente para conter a valorização da divisa, que por volta de 12h10 (horário de Brasília) subia 0,89%, cotado a 1,8745.
A intervenção do BC é vista por especialistas como pouco efetiva. À medida que a presença do BC tornar-se constante neste tipo de operação, como foi observado no caso do swap reverso há algumas semanas, a atuação perde valor sob o mercado, que passa a precificá-la.
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“É importante ficar atento aos movimentos do BC e posição vendida dos bancos, estrangeiros na BMF e capital estrangeiro na Bovespa”, adverte o analista da Rosenberg Consultores Associados, Rafael Bistafa.