Real mais forte

Dólar nas mínimas em dois anos: o que explica a forte alta do real e o que esperar pela frente?

Para analistas, moeda brasileira ainda tem espaço para se fortalecer no curto prazo, mas veem real acima de R$ 5 no fechamento do ano

Por  Vitor Azevedo -

O dólar comercial teve mais um dia de forte baixa, fechando esta sexta-feira (25) com queda de 1,75%, a R$ 4,746 na compra e R$ 4,747 na venda, menor patamar de fechamento desde 11 de março de 2020. Na semana, a baixa foi superior a 5%; no mês, de quase 8%. Já no ano, a desvalorização da divisa americana ante o real já é de quase 15%. 

Com a sequência de quedas, que vem se estendendo já há algum tempo, surgem também as dúvidas sobre se este é o melhor momento para comprar a moeda americana ou se há a possibilidade de ela cair mais.

A verdade é que essa é uma pergunta difícil de responder. Definir a direção do preço de uma moeda é algo complicado, pois a dinâmica de preços envolve muitas variáveis. Mas a percepção de alguns analistas é de que ainda há espaço para uma valorização do real. 

“A previsão de câmbio sempre foi um dos desafios mais difíceis para os economistas. De fato, um dos nossos modelos favoritos e mais simples usados ​​para observar a moeda tem indicado que o real está ‘barato’”, comentam Dalton Gardiman, Ricardo Mauad, Guilherme Zimmermann e Bernardo Keiserman, do Bradesco BBI, em relatório.

Para os analistas do banco, o real se valoriza frente ao seu par americano mesmo em um cenário de ainda muitas incertezas. Fatores como a guerra na Ucrânia, desafios fiscais no Brasil, eleições presidenciais e o desenrolar da pandemia, que aparentemente caminha para seu fim, deixam o cenário turvo. 

Quando há muita neblina impedindo a visão do caminho, é normal que investidores desacelerem a mão e se posicionem com mais cautela. Não é, porém, o que vemos agora. A queda do dólar frente ao real parece mostrar que aportar no Brasil se tornou mais atraente. 

Entenda o que causa a queda do preço do dólar

O fato é que, mesmo com incertezas à frente, há certa percepção de que o cenário está mais tranquilo. “De fato, a recente redução de notícias negativas na frente fiscal, avaliações locais atraentes, surpresas mínimas em torno da eleição, avaliações pouco atraentes nos EUA e uma taxa de juros muito mais alta do que no restante do mundo provavelmente estão desempenhando papel”, explicam os analistas do BBI. 

Na frente fiscal, por exemplo, o Governo Federal afastou, nas últimas semanas, os comentários de que haveria interferência nos preços da Petrobras (PETR3;PETR4) ou grandes subsídios para diminuir o valor dos combustíveis na bomba – isso em um cenário em que as contas públicas já estão apertadas. 

Quanto às eleições, apesar dos prováveis ataques que virão nos próximos meses, a percepção de parte do mercado é que não há nada novo no horizonte. Os dois principais candidatos à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, já ocuparam o cargo antes e, ao menos parcialmente, suas formas de governar já são conhecidas pelo mercado. 

Há também o fato de que a bolsa brasileira estava, há pouco tempo, em níveis historicamente baratos. Ao se levar em consideração a relação entre os lucros recentes das companhias e o preço das ações, o Ibovespa, principal índice da B3, chegou no fim do ano passado a bater múltiplos não vistos desde a crise de 2008.  

“Apesar de os dados consolidados do Banco Central ainda não estarem disponíveis, é razoável concluir que o fluxo de capital em ações teve papel importante na apreciação do Real contra o dólar, com dados disponibilizados pelo Institute of International Finance’s (IIF) e pela própria B3”, contextualizam os analistas do BBI. 

Nos Estados Unidos, do outro lado, os preços de várias companhias estavam sendo vistos como exagerados, principalmente no setor de tecnologia. “Avaliações das companhias de tecnologia dos EUA atingiram níveis extremos e sugeriram algum potencial de diversificação, especialmente quando o Federal Reserve começou a comunicar suas intenções de apertar as taxas em várias reuniões até meados de 2023”, explicam. 

Companhias de tecnologia são avaliadas, em grande parte, pelo seu potencial de crescimento. Com o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos no futuro próximo, a percepção é de que essas empresas crescerão menos, uma vez que o início do ciclo de altas está sendo implementado justamente para conter a economia muito aquecida. Além disso, as !”techs” tendem ainda a ter mais dívidas, uma vez que costumam realizar mais emissões de dívidas, na busca de capital para para sustentar o crescimento, e terão, a partir de agora, gastos financeiros maiores, o que impacta a lucratividade. 

A Nasdaq, bolsa americana conhecida por abrigar boa parte das companhias de tecnologia dos Estados Unidos e também do mundo, acumula com isso uma queda de mais de 10% nos últimos três meses.

O Brasil, então, foi beneficiado pelo movimento conhecido como “sell tech, buy value”, ou seja, pela venda ações de tecnologia e a compra valor, de companhias já grandes, mas com menor perspectiva de crescimento, que estavam descontadas em excesso.

Os analistas do BBI explicam também que a taxa de juros brasileira está, atualmente, muito acima daquilo que é visto em outros países, o que dá espaço para o movimento que é conhecido como carry-trade. 

“Taxas mais altas, principalmente nos instrumentos de renda fixa, atuam como fator de impulso, impedindo a saída de capital, e também como fator de atração, atraindo fluxos via carry trades”, comentam. “Mesmo que a inflação em 2023 falhe novamente a meta de 3,25% e termine em cerca de 5% no ano de 2023, os rendimentos reais permaneceriam bem acima de 6% nas letras do Tesouro Nacional, por exemplo”. 

Por fim, a alta dos preços das commodities como petróleo, minério, milho e trigo – todos produzidos em larga escala no Brasil, auxilia a balança comercial brasileira a fechar no positivo. A demanda por esses produtos estava alta já há alguns meses e com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, países que têm papéis importantes na produção de várias commodities, passou a existir ainda um problema do lado da oferta.

A balança comercial soma, até agora, um superávit de US$ 10,11 bilhões no ano. Em suas trocas comerciais, o Brasil está, nos últimos meses, vendendo mais para o exterior do que comprando.

Há espaço para o dólar cair mais?

Apesar de o dólar já ter se desvalorizado consideravelmente frente o real, a perspectiva é que há espaço para mais – mas isso depende de algumas variáveis. 

“Gostamos de comparar a Taxa de Câmbio Real Efetiva (TRE) com a posição líquida de investimento internacional do país ao longo do tempo. No longo prazo, pode-se ver um ajuste decente entre as duas séries. Na verdade, o real poderia estar sendo negociado, sem surpresas, em níveis materialmente mais fortes”, dizem os analistas do BBI. 

Os analistas do BBI, contudo, diminuíram suas projeções médias para o preço do dólar em 2022 de R$ 5,50 para R$ 5,20 (upside de 8,6% em relação ao preço atual). Para 2023, as projeções são de que uma unidade da moeda americana custará R$ 5,50, ante R$ 5,70 anteriormente.

Em ambos os casos, apesar da mudança de perspectiva, o preço do dólar está acima do atual. Em grande parte, o banco se posiciona com cautela, justamente por ver que as incertezas fiscais e geopolíticas têm potencial para pesar contra a performance da divisa brasileira ao longo deste ano.

“Os impactos da guerra na Ucrânia são bilaterais, com fortes impactos positivos no curto prazo em relação ao Brasil, mas há incertezas e provavelmente teremos consequências negativas a médio prazo”, pontuam. “Não descartamos a continuação da forte tendência de queda, mas também vemos fraquezas que podem se consolidar em um momento futuro de escolhas fiscais”. 

Analistas do Credit Suisse vão, basicamente, na mesma direção. O gigante financeiro fixou sua projeção de preço para o real nos próximos três meses em R$ 5 e em R$ 5,30 para os próximos doze meses. 

Para Solange Srour, Lucas Vilela e Rafael Castilho, analistas da instituição, o real nos últimos meses apenas apagou parte da sua forte queda recente – a moeda brasileira entre 2020 e 2021 caiu mais de 40% em relação ao dólar, o que é justificado, segundo eles, por uma aversão estrangeira pelo mercado brasileiro, por conta do enfraquecimento do quadro fiscal nacional. 

Contudo, mesmo com a projeção de valorização do dólar até o fim do ano, o Credit Suisse vê espaço ainda para a moeda brasileira ganhar força antes disso. No mesmo sentido, para o banco isso dependerá, justamente, de menor ruídos políticos e fiscais.

Segundo a mediana de modelos de projeções realizados pelo Credit Suisse, o preço do dólar pode chegar a R$ 4,10, patamar mínimo de uma banda que vai até R$ 4,80 e cuja mediana é de R$ 4,50, um dowside de 6,8% na comparação com o preço de fechamento desta quinta. 

“Alguns de nossos modelos, baseados em diferenciais de taxas de juros, prêmios de risco, diferenciais de inflação e termos de troca, sustentam a avaliação de que a moeda brasileira tem espaço para se valorizar”, comentam. “Essa valorização depende, porém, da redução da incerteza política e fiscal nos próximos meses. Os riscos para uma moeda mais depreciada do que com base nos modelos acima são as incerteza resultante das eleições presidenciais deste ano”. 

Para a Levante, o real deverá, pelo menos por algum tempo, seguir em uma trajetória de ajuste, com uma possível maior valorização após a fraqueza da moeda brasileira registrada em 2020 e 2021.

“Porém, esse processo será tudo menos linear e previsível. Ao contrário, o caminho das taxas de câmbio seguirá acidentado, pois além da migração de recursos devido à alta dos juros e à demanda global por hedge contra a inflação de matérias-primas, não se descartam movimento especulativos, ainda mais com o avanço do ano eleitoral”, avaliam.

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