Dólar na máxima em 12 anos ou só nos R$ 7,33? Entenda o polêmico comentário de jornalista

Nesta semana o apresentador do Jornal da Gazeta afirmou ser errado afirmar que o dólar é o mais alto em 12 anos e o InfoMoney explica porque está declaração está errada

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SÃO PAULO – Nos últimos dias viralizou na internet um vídeo em que o apresentador Rodolpho Gamberini, do Jornal da Gazeta, afirma que a imprensa está errada ao afirmar que o dólar está no maior patamar em 12 anos. Segundo ele, a moeda deveria ser ajustada pelo IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado) para que se possa realizar a comparação. Desde então a internet se divide sobre esta avaliação. Mas será que faz sentido?

Primeiro vamos explicar melhor o que o apresentador quis dizer: basicamente, o que ele queria é que o câmbio fosse ajustado por um indicador de inflação, que desde 2003 foi extremamente alta no Brasil, em um método parecido em como fazemos quando comparamos o salário mínimo entre períodos.

“Procure você o site do Banco Central e faça a atualização desse valor pelo IGP-M da Fundação Getulio Vargas. O dólar, para estar com o mesmo valor de 12 anos atrás, deveria ser vendido a R$ 7,33”, afirmou Gamberini durante o telejornal. Para fins de informação, hoje o dólar comercial é cotado a R$ 3,41, mesmo valor de 2003, quando chegou a R$ 3,66 em março.

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Diante disso, o InfoMoney procurou especialistas em câmbio para entender se esta explicação está correta. Segundo Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora, a visão do jornalista da Gazeta está bastante equivocada, e a razão é simples: hoje o câmbio no Brasil é flutuante.

“Se nós fizermos esta correção pela inflação seria a mesma coisa que aplicar a antiga ‘correção monetária’ e é exatamente para acabar com isso que surgiu o Plano Real”, explica Galhardo. Ou seja, caso a moeda precisasse sofrer algum tipo de correção o câmbio deixaria de ser “flutuante” para ser “fixo”, em um cenário parecido com o que foi visto em 1999, quando o dólar era fixado pelo governo e sofria correções inflacionárias.

Uma das explicações para se aplicar algum tipo de correção no valor do câmbio seria apenas em análises sobre o poder de compra da moeda ou na força do real em relação a 2003. Porém, como explica Galhardo, mesmo assim a visão do jornalista é bastante simplista, já que deveria ser aplicado não só o IGP-M mas outros tipos de indicadores, incluindo a inflação nos EUA – que apesar de estar próxima de zero também faz diferença neste período.

“Hoje temos a taxa real da moeda considerando a crise política e outros eventos internacionais. Temos uma moeda que se ajusta ao cenário interno e externo”, explica o gerente. A base do mercado cambial se deve ao princípio básico de oferta e demanda e por isso mesmo, a própria inflação afeta a quantidade de dólares que entram e saem do País, o que afeta diretamente a cotação da moeda, não tendo assim motivo para se corrigir os valores.

Pode ter faltado tempo para Gamberini explicar o que realmente quis dizer, mas analistas e economistas discordam da frase do jornalista e ressaltam que é correto declarar que o dólar está em sua máxima em 12 anos. Desde 2003, o câmbio se corrige diariamente para o patamar “justo” em relação à economia tanto do Brasil quanto mundial. Mas se o que ele quis dizer foi sobre o poder de compra do real em comparação com o dólar, aí a discussão é bem mais complexa. 

Rodrigo Tolotti

Repórter de mercados do InfoMoney, escreve matérias sobre ações, câmbio, empresas, economia e política. Responsável pelo programa “Bloco Cripto” e outros assuntos relacionados à criptomoedas.