Moeda

Dólar entre o ruído fiscal e a alta de juros: para onde vai a moeda daqui para frente?

Sustentação da moeda em patamares elevados no exterior, crises infindáveis em Brasília e persistência da inflação são monitorados por investidores

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SÃO PAULO – Como é natural em momentos de queda da Bolsa, o dólar tem registrado altas nos últimos pregões e se valoriza em 2,24% ante o real no mês de setembro, refletindo as mesmas preocupações fiscais, políticas, inflacionárias e a respeito de preços de commodities que também afetam as ações. Contudo, há um fator que limita a valorização da moeda americana sobre o real: o ciclo de aumentos de juros promovido pelo Banco Central.

Às 16h04 (horário de Brasília) desta sexta-feira (17) o dólar comercial subia 0,36% a R$ 5,283 na compra e a R$ 5,284 na venda.

Enquanto a Selic é elevada em cada reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) para conter o avanço da inflação, o Federal Reserve – o banco central dos Estados Unidos – hesita antes de sequer reduzir as compras mensais de títulos que realiza para injetar dinheiro na economia.

Esse crescimento do diferencial entre o que os títulos pagam aqui e nos EUA, a princípio, pode atrair mais investidores estrangeiros para colocarem dinheiro em ativos brasileiros. Isso porque, apesar do risco ser maior, o diferencial de rentabilidade muitas vezes acaba compensando.

O problema é que esse equilíbrio entre risco e retorno é móvel, ou seja, a cada piora no cenário doméstico o prêmio de risco exigido pelo investidor estrangeiro para manter seu capital aqui aumenta. No médio prazo, um dos desafios de fazer projeções para o dólar é descobrir até que ponto as elevações da Selic compensarão os problemas domésticos no balanço de riscos dos grandes investidores.

Segundo Bruno Lavieri, economista da 4E Consultoria, em termos empíricos, é possível ver que o problema fiscal é quem está ganhando essa luta. “Em termos reais, essa alta de juros que o BC vem promovendo não é tão grande assim e os ruídos fiscais são muito elevados. O ajuste das contas públicas não está sendo bem tratado pelo governo”, avalia.

Hideaki Iha, operador da Fair corretora, é da mesma opinião. Para ele, o câmbio deve se manter em torno de R$ 5,30, isso se não piorar ainda mais a situação política e a crise hídrica. “Não adianta ter os juros mais altos porque o dinheiro que está entrando por causa disso é capital de arbitragem, de curto prazo, não é investimento de longo prazo”, defende.

Já José Faria Jr., diretor da Wagner Investimentos, enxerga também um outro fator de pressão para o dólar: a sustentação do dollar index, um índice de referência do dólar em relação a uma cesta de moedas, em patamares mais elevados.

“Vemos uma correlação interessante do dollar index para o dólar ante o real desde outubro do ano passado. Quando houve a incerteza com o Orçamento deste ano, o dólar aqui se apreciou mais do que contra a cesta de moedas. Depois, o real se apreciou bem mais rápido do que outras divisas na virada de março para abril. Com a alta da Selic agora, o dólar está se comportando melhor aqui do que lá fora”, entende.

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Faria Jr. acredita que, se o dollar index não cair dos atuais 93,192 pontos, para pelo menos 91, o dólar ante o real aqui não ficará abaixo de R$ 5,10.

No entanto, para ele, se governo, Judiciário e Congresso encontrassem logo uma solução para a questão dos precatórios e aumento do Bolsa Família (rebatizado para Auxílio Brasil), o mercado se acalmaria. “Acho que aprovar as despesas dos programas sociais dentro do teto daria uma aliviada.”

Enquanto isso, gestores já se movimentam com suas próprias estratégias para navegar nesse ambiente incerto. Em sua carta mensal de agosto, a Legacy Capital informou que aumentou sua posição vendida em dólar contra o real e no Ibovespa. “A análise do comportamento desta estratégia em ciclos de subidas de juros anteriores permite demonstrar seu bom desempenho, ao longo desses episódios”, escrevem os gestores.

A Legacy mostra em um gráfico como se comporta a partir de um aumento de 2 pontos percentuais da Selic essa estratégia de operar vendido tanto em Bolsa quanto em dólar, ressaltando que no ciclo atual esse patamar foi atingido em julho, de modo que a operação parece estar próxima de seu pico de desempenho.

Dividendos

Bruno Lavieri e Faria Jr. concordam que apesar de algumas explicações que circulam pelo mercado financeiro de que o dólar estaria se apreciando hoje por conta do anúncio da Vale (VALE3) de distribuição de R$ 40,2 bilhões em dividendos esse não seria um fator preponderante.

“A maior fonte de riscos que temos hoje são as declarações de quem está no Palácio do Planalto. O potencial de qualquer evento de depreciar o real é pequeno perto de discursos pouco alinhados de economia. Basta ver hoje como o mercado está reagindo à surpresa com o aumento do IOF para financiar o Bolsa Família”, comenta.

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A 4E tem uma projeção de que o dólar fechará 2021 cotado a R$ 5,00 e terminará 2022 em R$ 4,70. “Depois das eleições, independente de quem vencer, acreditamos que haverá necessidade do próximo presidente ter responsabilidade fiscal.”

Faria Jr., por sua vez, lembra que o pagamento dos dividendos da Vale não é hoje, então não existiria motivo para uma pressão neste pregão.

Sobre a possibilidade de outras empresas anteciparem dividendos por conta da reforma do Imposto de Renda (que ainda precisa ser aprovada no Senado), devido ao início da taxação desses proventos, Faria Jr. não vê tanta pressão desse ponto no dólar também, pois historicamente o Banco Central tem o costume de atuar no câmbio quando há muita remessa de lucros para o exterior.

“Ele vai atuar, com certeza, para prover liquidez, então pode ser que não tenha um peso muito grande essa antecipação do pagamento de dividendos”, conclui.

Faria Jr. não se arrisca a uma previsão exata de onde estará o dólar no fim do ano, mas acredita que o câmbio opere entre R$ 5,00 e R$ 5,50 no médio prazo. “Isso depende muito do dollar index, se o dólar lá fora não colaborar não podemos esperar que o real se aprecie aqui. Damos calls repetitivos em R$ 5,10 e R$ 5,15 para compra”, conclui.

Na terça-feira (14), a XP elevou sua projeção para o dólar de R$ 4,90 para R$ 5,20 ao final de 2021 e de R$ 4,90 para R$ 5,10 para o ano que vem. Já o BNP Paribas tem projeção de R$ 4,75 para o dólar ao fim de 2021.

No último Relatório Focus do Banco Central, a mediana das projeções dos economistas do mercado financeiro para o dólar indicavam que a moeda encerraria 2021 em R$ 5,20 e ao final de 2022 ficaria no mesmo patamar.

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