Dólar: entenda os fatores que explicam o sobe-e-desce da moeda norte-americana

Percepção do risco Brasil pelo mercado explica boa parte das oscilações do dólar frente ao real nos últimos anos

Publicidade

SÃO PAULO – Para muita gente, a cotação do dólar é uma das primeiras coisas que vem à mente quando se fala de mercado financeiro. Afinal de contas, para quem se lembra do que aconteceu em 2002, quando a cotação da moeda norte-americana disparou em função das incertezas eleitorais, a sensação de que o dólar é uma espécie de “termômetro do mercado” ficou definitivamente marcada.

E, de fato, esta percepção é correta. Bastou uma leve deterioração nas perspectivas no cenário internacional, com o aumento nas cotações do petróleo e o temor de aumentos mais significativos nos juros norte-americanos, para que em maio o dólar voltasse a superar o patamar de R$ 3,00.

Fatores que afetam o dólar

Mas, afinal de contas, quais são os fatores que explicam este sobe-e-desce das cotações da moeda norte-americana, que tanto afeta a vida do brasileiro, seja através do nervosismo que isto traz, como dos efeitos sentidos diretamente no bolso, devido ao impacto sobre a inflação?

De maneira geral, como qualquer ativo financeiro, o dólar é afetado por fatores que alteram sua oferta ou sua procura. Um aumento na oferta de dólares no Brasil como, por exemplo, causada pelos excelentes resultados na balança comercial brasileira, acaba pressionando para baixo a cotação da moeda dos EUA.

Outro fator que aumenta a quantidade de dólares no Brasil é o fluxo de captações de empresas ou bancos no exterior, que acabam se endividando no exterior em moeda estrangeira. Assim, quando estes recursos entram no Brasil, isso acaba aumentando a oferta de dólares, pressionando para baixo as cotações. Por outro lado, quando estes papéis vencem e os recursos têm que sair do país para pagar os credores, o efeito é inverso.

Também acabam afetando as cotações do dólar outros fluxos financeiros com o exterior, como, por exemplo, os investimentos de estrangeiros em ativos brasileiros, como bolsa e renda fixa, os fluxos de capital de multinacionais, de não residentes e mesmo o fluxo de turismo, tanto de estrangeiros no Brasil como brasileiros no exterior.

Continua depois da publicidade

O papel do governo

Também a atuação do governo deve ser analisada para explicar as variações do dólar. Mais especificamente, a estratégia adotada pelo Tesouro Nacional e pelo Banco Central em relação à chamada dívida cambial afeta, de forma significativa, as cotações do dólar. Para quem não está familiarizado, parte da dívida pública interna brasileira é corrigida pelo dólar, e a proporção desta dívida em relação ao total tem variado bastante nos últimos anos.

Por exemplo, em 2002 o temor que tomou conta do mercado levou o governo a expandir a parcela da dívida cambial, visando evitar uma explosão ainda maior da cotação do dólar, que chegou a atingir R$ 4,00. De fato, com o mercado buscando alternativas mais seguras, a procura por dólares aumentou, o que elevou as cotações da moeda norte-americana. Para suprir estas necessidades, o governo passou a oferecer uma quantidade maior de papéis indexados à moeda norte-americana.

Com a normalização da situação a partir de 2003, o governo pode reverter esta estratégia, deixando de renovar boa parte dos títulos cambiais que venciam. Refletindo a menor procura por dólares, a oferta também caiu, pois o estoque de títulos públicos indexados ao dólar diminuiu, o que permitiu a redução da parcela da dívida cambial.

Continua depois da publicidade

Percepção de risco é chave

Para quem soube ler as entrelinhas, fica claro que a variável principal por trás das flutuações do dólar acaba sendo a percepção de risco. Assim, como muitos investidores consideram investimentos na moeda norte-americana como “portos seguros” em momentos de instabilidade, toda vez que a percepção aumenta, sobe também a procura por dólares, muitas vezes afetando suas cotações.

Dentro do modelo de taxa câmbio adotado pelo governo, que permite um grau relativamente elevado de flutuação do real frente ao dólar, a cotação da moeda norte-americana acaba funcionando como “termômetro” da percepção do mercado.

Assim, as grandes flutuações do dólar desde 2002 têm muito a ver com a percepção de risco em relação ao Brasil, como evidenciado pelo “pânico” de 2002 e pela maior tranqüilidade a partir do ano passado.