Política monetária

Dólar em alta e PIB surpreendente farão o Banco Central diminuir o ritmo de cortes da Selic?

Economistas avaliam que, na próxima reunião, o corte em 0,5 ponto percentual dos juros já está praticamente contratado, mas divergem sobre se o ciclo de cortes será ajustado ou não

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SÃO PAULO – Desde que o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros do Brasil para 6% ao ano e indicou ser este apenas o início de um ciclo de cortes, o mercado está bastante ansioso para ver até onde a Selic vai cair.

O Relatório Focus do Banco Central, que compila as expectativas de instituições financeiras para os principais indicadores econômicos brasileiros, mostra que a aposta mais forte é de que os juros fechem 2019 em 5%. 

No entanto, o dado acima do esperado do Produto Interno Bruto (PIB) divulgado nesta quinta-feira (29) colocou uma “pulga atrás da orelha” dos investidores.

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Combinado com a valorização do dólar – que chegou a bater R$ 4,19 na máxima desta semana – o crescimento econômico de 0,4% no segundo trimestre poderia fazer o BC ser menos agressivo no ciclo de baixa da Selic. 

A lógica é que o dólar mais alto eleva os preços de produtos importados e os custos das empresas que importam maquinário e matérias-primas, o que pressionaria a inflação. Combinado como uma economia menos dependente de estímulos e mais forte, o que também levaria a um aumento dos preços com a alta da demanda, esse cenário poderia fazer a cabeça de membros do Banco Central para voltar atrás na decisão de derrubar os juros. 

A preocupação faz sentido. Porém, os economistas não acreditam que esses fatores sejam suficientes para alterar a perspectiva de cortes da Selic. No máximo, a intensidade do ciclo de cortes poderia ser revisada – mas isso ainda dependeria de outros fatores.

Enquanto isso, o corte de juros de 0,5 ponto porcentual na próxima reunião do Copom, que ocorre em 17 de setembro, é dada como praticamente certa. 

Marcos Ross, economista da XP Investimentos, destacou em entrevista em vídeo para o InfoMoney que a surpresa positiva no PIB foi guiada pelos investimentos, que devem arrefecer no terceiro trimestre. 

“Foi uma surpresa pontual, pois a ociosidade da nossa indústria ainda está muito alta. Temos cerca de 25% das máquinas da indústria brasileira desligadas, por isso eu imagino que para o próximo trimestre esse número deve dar uma arrefecida e voltar ao seu patamar normal”, afirmou o economista da XP.

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Assim, pelo lado do PIB, Ross não vê grandes impactos sobre o ciclo de cortes da Selic. Porém, eventualmente, a pressão no câmbio pode afetar a inflação brasileira e alterar os planos da autoridade monetária para o corte de juros. “Por enquanto, um novo corte de 0,5 ponto percentual na taxa já está mais do que esperado pelo mercado, mas o que vai acontecer depois disso depende do comportamento do dólar”, avalia.

Trade war

Já Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, explica que a decisão do Copom de reduzir os juros em 0,5 ponto percentual na reunião de 30 de julho levou em consideração fatores estruturais, e não conjunturais, até porque a transmissão de uma mudança na política monetária para a economia demora em média seis meses. 

“O BC não pode olhar para movimentos sazonais ou temporários. Ele precisa de informações concretas sobre como a alta do dólar afetou os preços do varejo e se isso é só transitório ou não”, avalia. 

Logo, em sua avaliação, a possibilidade do Copom mudar sua direção na próxima reunião por causa do dólar e do PIB é praticamente nula. 

Mesmo em um horizonte mais distante, Agostini não acredita que possa ocorrer uma alteração na política monetária. “A economia com 12 milhões de desempregados e renda baixa mostra que as coisas não estão tão fáceis assim”, pondera. 

Além disso, na ata do último Copom está escrito que o cenário externo “mostra-se benigno, em decorrência das mudanças de política monetária nas principais economias. Entretanto, os riscos associados a uma desaceleração da economia global permanecem.”

Desde então, três grandes fatos internacionais impactaram bruscamente o mercado.

O primeiro foi a imposição pela China de tarifas de 5% a 25% sobre US$ 75 bilhões em produtos norte-americanos. O segundo, a resposta dos EUA em elevar taxas de 25% para 30% sobre US$ 250 bilhões em produtos chineses e de 10% para 15% em cima de outros US$ 300 bilhões.

Por fim, o terceiro foi a crise argentina após Alberto Fernández aparecer 15 pontos percentuais na frente de Mauricio Macri nas primárias das eleições, o que levou a uma maxi-desvalorização do peso e à fuga de capital de emergentes para ativos mais seguros. 

“O risco associado à guerra comercial aumentou e a Argentina tornou-se mais um foco de preocupação. Talvez mude o discurso quanto a isso já nesse Copom, pois são questões que pressionam ainda mais tanto a economia quanto o câmbio”, aponta Agostini. 

Swaps

Também há quem tema que a nova atuação do BC de vender dólares à vista diante da volatilidade da moeda signifique uma mudança de postura. Não é isso que defende Bruno Lavieri, analista da 4E Consultoria. 

Lavieri diz que o uso das reservas internacionais para frear a alta do dólar significa menos uma alteração na postura da autoridade monetária e mais um novo remédio para uma depreciação do real que é bem mais forte do que as que ocorreram até agora em 2019.

“Antes, era possível acalmar os ânimos do mercado com swaps. Depois da crise argentina, a porta [para saída de dólares] ficou mais larga. Foi preciso usar um instrumento mais potente”, comenta. 

O analista acredita que a ideia do BC tampouco é reduzir as reservas para diminuir o custo delas para o Tesouro, pois isso só teria sentido se fosse acompanhado por uma simultânea redução da dívida pública, o que não ocorre. 

Em suma, as vendas de dólar spot não mudam a mentalidade da instituição presidida por Roberto Campos Neto, de modo que não se espera algum reflexo na política monetária tão cedo. “Acho improvável que o novo quadro leve o BC a aumentar os juros ou conter o ritmo de queda”, conclui Lavieri. 

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