Publicidade
A disparada do dólar após a eleição reacendeu o debate sobre até onde a moeda americana pode chegar nos próximos meses e quais fatores serão determinantes para sua trajetória.
Embora a reação inicial do mercado tenha sido marcada por forte aversão ao risco, analistas divergem sobre a magnitude e a duração desse movimento, com projeções que vão de um câmbio acima de R$ 5,60 a uma gradual acomodação de volta para níveis mais próximos de R$ 5,30.
No curto prazo, a avaliação de analistas é que a volatilidade continuará elevada. O resultado eleitoral trouxe incertezas sobre os primeiros passos da nova gestão, levando investidores a buscar proteção em ativos considerados mais seguros. Nesse ambiente, o dólar se fortaleceu diante do real, refletindo não apenas fatores domésticos, mas também a cautela dos agentes financeiros em relação às perspectivas fiscais do país.
A principal dúvida dos investidores é se o novo governo adotará medidas capazes de reduzir as preocupações com as contas públicas. O comportamento do dólar nos próximos meses deverá depender, em grande medida, de sinais relacionados ao compromisso fiscal, à trajetória da dívida pública e à composição da equipe econômica.
Reação exagerada?
Há, porém, quem considere que a reação inicial do mercado foi excessivamente negativa. O estrategista de mercados emergentes do Wells Fargo, citado pelo Estadão Conteúdo, Álvaro Vivanco, avalia que o movimento observado logo após a eleição exagerou os riscos do cenário. Diante dessa leitura, o banco ampliou sua posição vendida em dólar contra o real, apostando em uma valorização da moeda brasileira ao longo dos próximos meses.
A visão do Wells Fargo parte da expectativa de que o governo seja capaz de apresentar um ajuste fiscal considerado suficiente para restaurar parte da confiança dos investidores. Além disso, a eventual escolha de um ministro da Fazenda bem recebido pelo mercado poderia contribuir para reduzir os prêmios de risco atualmente embutidos nos ativos brasileiros.
Continua depois da publicidade
Nesse cenário mais benigno, Vivanco projeta o dólar retornando para a faixa de R$ 5,30, valor que considera próximo do preço justo para o câmbio após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A estimativa sugere que parte relevante da alta recente poderia ser revertida caso haja melhora da percepção em relação à política econômica.
Postura cautelosa
Outros bancos, no entanto, adotam uma postura mais cautelosa. O JPMorgan avalia que o dólar pode atingir R$ 5,50 nos dias posteriores à eleição caso os investidores revisem rapidamente as expectativas para o cenário fiscal e econômico do país. Na avaliação da instituição, a mudança no humor do mercado poderia provocar um ajuste relevante nos ativos brasileiros, acompanhando o aumento dos prêmios de risco.
O Morgan Stanley também trabalha com um cenário mais desafiador, no qual o dólar poderia alcançar R$ 5,60 em caso de deterioração das expectativas fiscais e aumento das incertezas sobre a condução da economia. Para o banco americano, uma piora da percepção de risco poderia pressionar simultaneamente o câmbio, os juros e a Bolsa brasileira.
Continua depois da publicidade
O Goldman Sachs segue linha semelhante nos cenários mais adversos. Para o banco, a moeda americana poderia avançar cerca de 12% e atingir também a região de R$ 5,60 caso o mercado conclua que a política fiscal seguirá um caminho incompatível com a estabilização da dívida pública.
Diante desse quadro, os próximos movimentos do dólar dependerão menos do resultado eleitoral em si e mais dos sinais emitidos pelo novo governo. A definição da equipe econômica, as primeiras medidas fiscais e a capacidade de restaurar a confiança dos investidores serão determinantes para saber se prevalecerá o cenário de acomodação próximo de R$ 5,30 ou as projeções mais pessimistas de câmbio entre R$ 5,50 e R$ 5,60.
