Dívida interna brasileira superou a externa na década de 1980

Com menor fluxo de capitais aos países emergentes nos anos 80, Brasil foi forçado a "trocar" dívida externa por interna

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SÃO PAULO – O projeto do governo militar de desenvolver o país, principalmente na década de 70, exigiu o recurso à poupança externa, o que alavancou a vulnerabilidade da economia brasileira. Assim, aproveitando a ampla liquidez no mercado financeiro internacional, o Brasil se endividou muito, a taxas flutuantes.

Contudo, os altos déficits gerados por guerras e pela política econômica do governo Reagan levaram o Federal Reserve a elevar a taxa básica de juros no EUA no início dos anos 80, o que fez disparar a dívida dos países emergentes.

Como a maior parte da dívida externa era estatal, o Brasil foi forçado a emitir títulos no mercado interno para pagar suas obrigações, no que ficou conhecido como a estatização da dívida. O fluxo de capitais só retornou ao país no início da década de 90, no contexto do Plano Brady e da abertura da economia brasileira.

Governo Reagan afetou endividamento brasileiro

Os crescentes déficits decorrentes da política econômica do governo Reagan levaram a gestão de Paul Volker no Federal Reserve, revelando o caráter independente da autoridade monetária, a adotar uma política monetária mais rígida no final da década de 70, de forma a conter a forte desvalorização do dólar, que chegou ao patamar de US$ 2,00 para cada libra esterlina.

Deste modo, as taxas de juros básica dos EUA, os Fed Funds, subiram muito, de forma que o país se transformou no grande absorvedor de capitais, visto que o risco inerente era muito inferior aos dos países emergentes. Com a redução do fluxo às nações em desenvolvimento, além do aumento da dívida, feita a taxas de juros flutuantes, ficou cada vez mais cara a rolagem destas. Isso culminou na insolvência da Polônia e da Argentina em 1982 e levou o Brasil a recorrer ao FMI no final do mesmo ano, para renegociar suas obrigações.

Brasil “trocou” dívida externa por dívida interna

Iniciou-se, então, um processo de ajustamento externo sob tutela do Fundo, de busca de superávits, com vistas a garantir o pagamento da dívida externa. Contudo, as obrigações da dívida externa não estavam distribuídas proporcionalmente entre os diversos setores da economia, de forma 80% da dívida era do setor público, após a “estatização” da dívida de meados da década de 70, enquanto a maior parte do superávit era gerado no setor privado.

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Dessa forma, iniciou-se o endividamento interno, com o governo emitindo títulos públicos com prazos cada vez menores e a juros maiores, transformando a dívida externa em dívida interna, acelerando a deterioração das contas públicas.

Brasil declara moratória em 1987

Em 1986, a queda nos preços do petróleo e nas taxas de juros, além da apreciação cambial, melhoram significativamente as condições externas. Contudo, o peso da dívida externa inviabilizava a economia doméstica, levando a uma forte queda no superávit comercial e à incapacidade do pagamento de juros. Com isso, em 20 de fevereiro de 1987, foi anunciada a suspensão de todos os pagamentos de juros relativos à dívida de médio e longo prazos com bancos comerciais estrangeiros, como forma de defender as reservas internacionais do país.

Contudo, em princípios de 1988 o Brasil já caminhava para a plena integração às regras de negociação convencional da dívida. Observa-se, deste modo, o porquê de a década de 80 tornar-se conhecida como a década perdida, uma vez que o país enfrentou impedimentos ao seu crescimento em função do elevado nível de endividamento atingido na década anterior. A essência do problema se dá devido às transferências de recursos reais ao exterior, que chegam a representar mais de 5% do PIB e 40% das exportações, praticamente inviabilizando a sustentação de taxas adequadas de crescimento econômico, tendo em vista queda da taxa de investimento e a implementação de políticas duradouras de combate à inflação.

Fluxo de capitais retorna ao país na década de 90

Os anos 90 se iniciam com o retorno dos capitais externos ao Brasil, refletindo a queda dos juros básicos nos Estados Unidos, a expansão da liquidez no mercado internacional e a securitização dos empréstimos da dívida externa. O país é beneficiado pelas negociações das dívidas externas de países vizinhos, uma vez que o Brasil só renegociou sua obrigações em 1994, nos termos do Plano Brady.

Além disso, no início da década de 90 começa o processo de abertura da economia brasileira, com redução das tarifas protecionistas e incentivos às importações e ocorre a abertura para os investimentos em bolsas de valores. Deste modo, foi encorajada a entrada de capitais de curto prazo, estimulando o ingresso de capital especulativo, aumentando a vulnerabilidade da economia.

Sem recursos, Brasil “troca” dívida externa por interna

Com isso, após um período de grande liquidez no mercado na década de 70, o que resultou em grande endividamento do Brasil, a adoção de uma política monetária restritiva nos EUA ressaltou a vulnerabilidade da economia do país, que passou a sofrer com o fechamento da torneira dos investimentos externos.

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O Brasil apresentou então um processo de ajuste de suas contas externas na década de 80, o que não foi suficiente, levando o país a recorrer ao FMI e declarar moratória em 1987. Durante a década, a falta de recursos levou o país a emitir títulos no mercado interno, a altas taxas, para pagar suas obrigações no exterior “trocando”, dessa forma, sua dívida externa por um endividamento interno.

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