Disparada do dólar: até onde pode chegar

Cenários são distintos, já que mais pessimismo deve puxar dólar para cima; porém fundamentos da economia indicam perspectiva mais estável

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SÃO PAULO – O aumento do nervosismo do mercado, com o temor dos investidores quanto ao cenário eleitoral e em relação à capacidade do governo continuar rolando a dívida pública tem levado à forte alta do dólar. De fato, a moeda norte-americana já se valorizou quase 13% somente neste mês de junho, representando a melhor alternativa de investimento tanto para pequenos como para grande poupadores.

A pergunta agora é se ainda vale a pena investir em dólar, já que, por um lado, as cotações subiram muito, porém, por outro, a incerteza com a eleição e com os rumos da economia ainda são incertos, o que pode levar a uma maior deterioração da situação.

Cotação do dólar é o termômetro do mercado

Em função do modelo de política cambial adotado pelo governo a partir de 1999, a cotação do dólar passou a ser o principal termômetro das expectativas do mercado brasileiro. Qualquer piora na situação, seja por causa dos atentados nos EUA, da situação na Argentina ou ultimamente por problemas domésticos, é quase que imediatamente refletida na cotação da moeda norte-americana.

Assim, não é surpreendente que o dólar tenha tido um comportamento tão instável nos últimos meses, pois no fundo ele acaba refletindo o humor do mercado. Quando o mercado estava mais tranqüilo, ele chegou a R$ 2,25 e agora, com toda a instabilidade, ele já chegou a superar R$ 2,85.

Migração de investimentos também puxa cotação

Além de refletir o humor do mercado, principalmente dos bancos, gestores de recursos e grandes investidores, a cotação do dólar também é afetada pela estratégia de investimento dos pequenos investidores. Com o nervosismo atual e em conseqüência das novas regras de marcação dos fundos de investimento, muita gente acabou sacando dinheiro dos fundos DI ou renda fixa para investir em fundos cambiais ou dólar.

Como o dólar, como a grande maioria dos ativos, também responde ao aumento da procura, as cotações da moeda norte-americana acabam refletindo a visão mais pessimista também dos pequenos investidores. Quanto de nós já não pensamos em comprar ativos reais, como imóveis, por exemplo, ou dólar, em situações como a atual ?

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Cotações vão seguir humor dos investidores

A alta do dólar tende a continuar se o pessimismo registrado nas últimas semanas for mantido. Embora a cotação já não reflita mais a situação da economia, subindo muito mais em resposta ao medo dos investidores do que propriamente devido a uma deterioração dos fundamentos econômicos, ainda existe mais margem para alta.

Para que isso aconteça é somente necessário que os investidores continuem tirando recursos de fundos DI ou renda fixa, que, em sua grande maioria, são lastreados por papéis do governo, e invistam em dólares ou fundos cambiais. É o velho conhecido mecanismo do pânico, que acaba levando muita gente a tomar decisões sem pensar nas conseqüências.

O problema é que o volume investido em renda fixa é muito maior do que em câmbio. Embora seja difícil quantificar a diferença de tamanho, no final de maio deste ano, cerca de R$ 240 bilhões estavam investidos em fundos renda fixa ou DI, enquanto apenas R$ 8,5 bilhões estavam aplicados em fundos cambiais. Caso muita gente tente sair dos títulos do governo e migrar para o dólar, podemos, deste modo, esperar maior valorização da moeda americana.

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Fundamentos não justificam reação do mercado

Embora a possibilidade da situação piorar ainda mais exista, os fundamentos da economia não justificam o pânico do mercado nas últimas semanas. Em primeiro lugar, o cenário eleitoral não está definido. Além disso, mesmo que a oposição vença, a probabilidade de uma solução não negociada para a dívida pública é baixa.

É difícil imaginar que um governo eleito com mais que 50% dos votos se proponha a não pagar a dívida pública, principalmente porque grande parte desta dívida está nas mãos dos próprios eleitores. Embora exista muita retórica a respeito de quem é o grande beneficiado pelos juros altos, no fundo ganhamos todos nós que temos dinheiro investido em qualquer instrumento de renda fixa.

Deste modo, na ausência de novos fatos negativos, a tendência é que o mercado se acalme e que a situação gradualmente se normalize. Não interessa a ninguém levar o governo à bancarrota, pois praticamente todos perdem: brasileiros ou estrangeiros que investem aqui, grande e pequenos investidores e mesmo aqueles que não tem recursos para investir, pois em uma situação de caos a situação do desemprego se deteriora ainda mais, como pode ser visto na Argentina.

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Dentro deste cenário, a tendência para o dólar é apresentar um comportamento mais estável, passando a refletir os fundamentos da economia. Este é o cenário que esperamos e torcemos, pois a alternativa não é desejável para ninguém.