Primeiras leituras

Dilma ataca a inflação, mas diz que o consumo deve continuar

A presidente chamou a inflação de “atípica”. Isto enquanto Banco Central avisa que ainda vai aumentar os juros para conter a escalada de preços

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O jornal “O Globo”, a partir da entrevista da presidente Dilma Rousseff em Bruxelas, antes de embarcar para o Brasil, e da ata do Copom relativa à reunião da semana passada, aponta que o governo está dando sinais desencontrados sobre os próximos passos da política econômica: enquanto Dilma diz que os brasileiros “têm que continuar consumindo” e culpa o dólar pela inflação, o Banco Central sinaliza que subirá os juros para frear o consumo e reduz sua ação no câmbio.

Registro importante é o fato de a presidente Dilma Rousseff ter admitido pela primeira vez tão francamente sua preocupação com a inflação. Mesmo achando é uma “inflação atípica”, ela disse aos jornalistas que os preços “preocupam bastante, pois a inflação é um objetivo que temos de derrubar, e derrubar logo”.

No entanto, Dilma emendou depois: “Não acho que a população tem de consumir menos, pelo contrário, tem de continuar consumindo.”

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A presidente disse ainda que o Brasil está extremamente preparado para a crise, que a “marolinha” externa que o ex-presidente Lula apontou em 2008 virou agora um “tsunami”, que o Brasil não tem um desequilíbrio fiscal estrutural.

Estes são pontos com os quais boa parte dos analistas não concorda, principalmente quanto ao desequilíbrio fiscal. E que é o foco principal da política de ajuste do ministro Levy.

Mais juros pela frente

A leitura da ata do Copom levou a maioria dos analistas a consolidar a expectativa de que o BC, em julho, aumentará em mais 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros, para 14,25%. A divergência é se a autoridade monetária vai parar por aí ou ainda elevará mais a Selic.

O pesquisador do Ibre Samuel Pessoa, que na campanha eleitoral fez parte da equipe de Aécio Neves, acredita que o BC para nesse número. Segundo ele, com os juros que já estão dados e mais o arrefecimento do emprego e a baixa atividade da economia garantem que a inflação chegue à meta dos 4,5% em 2017. Sua grande preocupação é com a questão fiscal.

O problema é que o BC continua afirmando que vai atingir este objetivo no fim de 2016. É isto e a declaração do BC de que o combate à inflação exige “perseverança e determinação“ que está fazendo outros analistas preverem que a Selic subirá este ano ainda acima dos 14,25%. Já há previsões superiores a 14,5% em dezembro.

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Tudo isto em meio a um quadro político complicado, com o PT insatisfeito com a política econômica e novas divergências entre o partido da presidente e o PMDB.

 

O PT tenta criticar e

não criticar o governo

A presidente Dilma Rousseff não passou pessoalmente pelos constrangimentos que muitos temiam na abertura do V Congresso do PT ontem à noite em Salvador, apesar do discurso com críticas veladas à política econômica do presidente do partido, Rui Falcão. Falcão atacou a taxa de juros e disse que o ajuste fiscal não pode ser pago pelos mais pobres.

Leia-se a descrição do evento feita pelo jornalista Ricardo Noblat em seu blog:

“A presidente Dilma Rousseff pulou a fogueira (…) Valeu voltar às pressas da Bélgica, onde estava, para não faltar ao compromisso. Foi aplaudida ao chegar. E ao fim do seu discurso.

Pouco importa que não tenha admitido erros na condução da economia durante o seu primeiro mandato. E que tenha debitado à seca e à “crise internacional” as dificuldades enfrentadas pelo país. Acredite: o discurso dela foi melhor que o de Lula.

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O de Lula foi ruim. Lula é bom de palanque. De improviso, costuma eletrizar plateias. Não se sabe por que, preferiu ler um enfadonho discurso de quase uma hora, antecedido por mais de 15 minutos de citações de nomes de companheiros que quis homenagear.

Lula apelou para o velho truque de se vitimar e de vitimar o PT. Coitadinho dele e do seu partido. Para em seguida baixar o sarrafo na imprensa, a quem apontou como algoz do PT. Falou basicamente sobre o passado e pautado por ele. Dilma foi mais esperta.

Explicou por que se sentiu obrigada a fazer o contrário do que havia dito durante a campanha eleitoral do ano passado. E justificou cada uma das medidas do duro ajuste fiscal que jurara jamais fazer. Deu argumentos para os militantes defenderem o governo.

O mais emblemático das primeiras horas do Congresso foi o que aconteceu quando um orador fez referência a João Vaccari Neto, o ex-tesoureiro do PT preso em Curitiba por suspeita de envolvimento com a roubalheira na Petrobras.

Por um momento, cessaram as divergências entre as diversas facções do partido. E todos, militantes e líderes do PT, de pé, durante mais de um minuto, aplaudiram Vaccari. O mais correto é dizer que ovacionaram Vaccari.”

Reportagem no site da revista “Veja” dá outro tom: diz que a presidente defendeu o ajuste fiscal, mas não entusiasmou a plateia e teve recepção fria durante seu discurso. Dilma apelou para o PT apoiar o ajuste fiscal e enfatizou que “não mudou de lado”.

Os verdadeiros embates no petismo e em relação ao governo vão começar em Salvador a partir de hoje. Há alas, como a liderada pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e pelo ex-governador do Rio Grande do Sul, Tasso Genro, que insistem em colocar no documento final do encontro críticas à política econômica e ao próprio ministro Joaquim Levy. Trinta e cinco dos 63 deputados federais petistas assinaram um documento em que explicitam essas divergências.

Lula, embora não tenha feito uma enfática defesa do plano econômico ontem, age nos bastidores para poupar críticas ao ministro. O ex-presidente quer estar bem com os dois lados: com Dilma, de quem depende para seus planos futuros, e com os petistas insatisfeitos e com os sindicalistas ligados à CUT, também vitais para seu projeto de 2018.

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Há um texto base aprovado pela ala majoritária do partido, intitulado “Carta de Salvador” (que deve nortear o documento final do encontro) que suaviza as críticas à política econômica e defende uma nova política de alianças para 2018, mais voltada para a esquerda.

No momento o PT parece buscar a quadratura do círculo. O documento final a ser divulgado no sábado deve refletir esse paradoxo: críticas veladas à política econômica, sem referências ao ministro da Fazenda, e elogios à presidente Dilma. No melhor estilo tucano – ou no do velho PSD mineiro de Tancredo Neves.

ATENÇAO – Mais um lance da nova crise entre o PMDB e o PT e o governo: a convocação do presidente do Instituto Lula para depor na CPI da Petrobras e a quebra do sigilo bancário do ex-ministro José Dirceu, manobra da oposição para jogar Lula no centro do debate do petrolão e desgastar mais ainda o PT, contou com a valiosa colaboração do PMDB e de Eduardo Cunha. Permanece o mal estar entre Michel Temer e Aloizio Mercadante. Na semana que vem, quando está novamente marcada a votação das mudanças na desoneração da folha de pagamento, os líderes governistas terão de se desdobrar para não colheram um resultado muito amargo para o ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy.

Outros destaques dos

jornais do dia

 

– PETROBRAS/TRANSPARÊNCIA – O Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que a Petrobras altere seus procedimentos de contratação de serviços de engenharia, apresentando mais detalhes técnicos sobre serviços contratados, formação de preços, e quantitativos de insumos, por exemplo. A decisão tomada pelo plenário do Tribunal indica que era “inadiável a exigência de maiores controles e transparência” na empresa. A companhia terá até 180 dias para cumprir as determinações do órgão, válida para contratos superiores a R$ 100 milhões. A Petrobras se beneficiava de um regime especial de contratações, com menos exigências no processo licitatório, em função de um decreto de 1998. Entretanto, o TCU avalia que a medida era inconstitucional e trava um embate na justiça contra a medida. A estatal, que defende o atual modelo, tenta manter o regime especial com recursos no STF.

 

– REFORMA POLÍTICA – O plenário da Câmara reduziu a idade mínima para que cidadãos possam concorrer a deputado, a governador e vice-governador e a senador. Os deputados reduziram de 21 anos para 18 anos a idade mínima para disputar a uma vaga de deputado federal, estadual e distrital, de 30 para 29 anos, para os que querem concorrer a governador e vice-governador, e de 35 para 29 para senador. A Câmara aprovou também novas datas de posse do presidente da República (5 de janeiro) e de governadores (4 da janeiro). As propostas da reforma política ainda precisam passar por mais uma votação na Câmara e duas no Senado. O presidente do Senado, Renan Calheiros, condenou a redução do mandato dos senadores de oito para cinco anos a partir de 2022.

E MAIS:

– “Itamaraty propõe burlar a lei para proteger Lula” (Globo)

 

– “Caixa baixa juros para compra de veículos” (Globo)

 

– “Levy quer tributos para compensar estados do ICMS” (Estadão)

 

– “CPI convoca Okamoto e quebra sigilo fiscal de Dirceu” (Globo/Estadão/Folha/Valor)

 

– “Técnicos do TCU dizem que governo subestimou dívida” (Folha)

 

LEITURAS SUGERIDAS

 

  1. José Paulo Kupfer – “Quando o remédio pode virar veneno” (diz que altas nas tarifas de energia e outros preços administrados exigem doses mais altas e mais arriscadas de juros) – Globo
  2. Editorial – “Guerra à inflação tem de seguir” (diz que relaxar seria o maior dos erros) – Estadão
  3. Luiz Carlos Mendonça de Barros – “Levy: a mudança de tom do PT” (diz que com Dilma em busca de uma saída honrosa para seu governo, a distância entre ela e o PT vai crescer) – Folha
  4. Ribamar Oliveira – “Governo procura R$ 30,4 bi para cumprir meta fiscal” (comenta estudos oficiais sobre as contas públicas e diz que o governo fala em “medidas adicionais” para elevar a receita) – Valor
  5.  Editorial – “Em crise de identidade, PT procura uma estratégia” (diz que a tarefa imediata do partido é dupla e complexa: apoiar o governo e ao mesmo tempo empurrá-lo para cumprir o programa com o qual foi eleito) – Valor
  6. Entrevista – “Uma nova crise no horizonte” (Martin Wolf, colunista do “Financial Times” diz que uma nova crise financeira não só está no horizonte como pode ser ainda mais grave do que a iniciada em 2007) – Valor