Primeiras leituras

Dilma age para livrar o Palácio do Planalto da Lava-Jato

Mesmo com a presidente nos EUA, em Brasília se age para evitar a contaminação do governo com a delação do empreiteiro Ricardo Pessoa. Ao mesmo tempo, Lula tem reunião hoje com a bancada do PT no Congresso e o assunto deve dominar o encontro

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Brasília- DF 22-06-2015 Presidenta Dilma, Patrus Ananias, Aloisio Mercadante, Rasângela Piovizani. do movimento das mulheres camponesas, federaçõ dos trabalhadores na agricultura familiar, Marcos Rochiski e Contag, Alberto Broch. durante cerimônia de lançamento do plano safra da agricultura familiarFoto Lula Marques/AgênciaPT/Fotos Públicas
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Com Dilma fora – nos Estados Unidos, em viagem de Estado – e Lula transitando pela capital da República, o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional iniciam esta semana assombrados por um fantasma: o vazamento da delação premiada do empresário Ricardo Pessoa, dono da UTC, apontado com chefe do cartel das empreiteiras na Petrobras, na Operação Lava-Jato.

A delação foi homologada pelo ministro Teori Zavascki do STF e seu teor explosivo é que ela cita contribuições (segundo o delator, com dinheiro irregular) para a campanha da presidente Dilma Rousseff e para dois dos ministros do Palácio do Planalto: Aloizo Mercadante (Casa Civil) e Edinho Silva (Comunicação Social), entre outras para políticos e partidos.

A crise, e a interpretação, botou agora os pés no Palácio, em princípio. Por essa razão, a presidente convocou duas reuniões de emergência, uma sexta e outra sábado para discutir o problema e traçar a estratégia e tentar fechar as portas palacianas ao escândalo. Até atrasou o embarque para os Estados Unidos. A realidade é que realmente o governo ficou assustado.

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O até então silêncio e aparente distanciamento do Palácio em relação à Operação acabaram. A nova estratégia, pelo menos a ensaiada no sábado, na entrevista dos ministros José Eduardo Cardozo, da Justiça, e Edinho Silva, é tentar desqualificar o “vazamento selecionado” que teria ocorrido. Ou seja, a ausência de informações sobre outros “patrocinados” pela empreiteira, com o candidato tucano adversário de Dilma, Aécio Neves.

Assim, lançam-se dúvidas sobre a lisura da Polícia Federal e até a Justiça, pois a informação pode vazar dos dois lados. Segundo alguns analistas que se manifestaram no fim de semana, é difícil que esta conversa seja producente e “cole” junto à opinião pública.

Mesmo que a oposição esteja envolvida, que os financiamentos que seus candidatos receberam das empreiteiras também tenha origem em dinheiro das falcatruas, isto não isenta Dilma, o PT e outros de qualquer ilegalidade – se, naturalmente, as revelações de Ricardo Pessoa forem comprovadas. Ficam apenas todos no mesmo barco. Essa conversa de “eu fiz, mas os outros também fazem” não convence à opinião pública. Nem é argumento jurídico.

Uma das preocupações iniciais de Dilma foi evitar que sua viagem aos Estados Unidos, para ser marcada pela elevação a um novo patamar das relações entre os dois países, fosse contaminada pelas revelações de Pessoa. Razão pelas quais, segundo o jornal “O Estado de S. Paulo” que aborda esta questão hoje, ela determinou que Mercadante desistisse de acompanhá-la.

Na volta a presidente terá de resolver também o caso dos ministros Aloizio Mercadante e Edinho Silva. De acordo com o “Valor Econômico” ela pode ter de demiti-los para tirar a crise do Palácio. A situação mais delicada é de Edinho, pelo fato de ele ter sido o tesoureiro da campanha presidencial do ano passado.

Quando Dilma o indicou para o Ministério da Comunicação Social alguns políticos disseram que era um erro político, pois um tesoureiro de campanha é sempre muito visado e sempre levaria qualquer problema que surgisse para muito perto dela. Não está dando outra coisa.

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O que Lula vai conversar em Brasília?

Ao mesmo tempo em que Dilma conversa com o presidente Barack Obama, empresários e investidores lá fora, o ex-presidente Lula tem hoje um jantar com as bancadas do PT na Câmara e no Senado.

Marcado por iniciativa do próprio Lula, antes das notícias sobre a delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, o encontro visava afinar o discurso entre o ex-presidente e os petistas, um tanto confusos e naturalmente divididos (e alguns irritados) depois que Lula fez duras críticas ao próprio partido e à presidente Dilma Rousseff e à política econômica de Joaquim Levy.

Muita gente ficou sem entender o que Lula está pretendendo, pois menos de uma semana antes de suas duas manifestações críticas ele havia se empenhado, no V Congresso da legenda, em Salvador, em evitar que o documento final do encontro contivesse ataques a Levy e à sua política. E na ocasião também não fez nenhuma referência desairosa ao partido – que depois ele acusou de ter perdido a utopia e só pensar em cargos e empregos.

Com as revelações de Pessoa, o encontro de hoje ganha outra dimensão. Pode ser inoportuno. O que Lula vai dizer, porque também para ele elas trazem mais riscos? Além disso, a insatisfação dos petistas com a presidente e com a política econômica não arrefeceu. A cada notícia ruim na área econômica o temor em relação às eleições de 2016 (e 2018) cresce. Uma questão para muitos é sobrevivência.

Uma demonstração de que o quadro das relações partido-governo piora está na decisão da legenda, de quinta-feira (informações da “Folha de S. Paulo” de hoje), de convocar três ministros para darem explicações: José Eduardo Cardozo (Justiça), Miguel Rossetto (Secretaria-Geral) e Nelson Barbosa (Planejamento).

A irritação com Cardozo é enorme, ele é acusado de ter perdido totalmente o controle da Polícia Federal na Operação Lava-Jato. Rossetto não é do grupo majoritário do partido (o de Lula) e é criticado por não ter boa interlocução com os movimentos sociais, como seu antecessor, Gilberto Carvalho, de estrita confiança do ex-presidente. Barbosa, embora mais próximo a Lula, deve explicar o ajuste fiscal, uma saída pela tangente diante da dificuldade de chegar até Levy.

O meio ambiente político voltou a ficar muito tenso e parece que se caminha para uma espécie de “salve-se quem puder” no petismo. Enquanto isso, o PMDB observa tudo de cadeirinha…

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ATENÇÃO – É previsível grande turbulência no mercado financeiro internacional hoje com a decisão do governo grego de decretar feriado bancário por seis dias e impor o controle de capitais, até o plebiscito que vai decidir se o país fica no euro e se faz um acerto com os credores. As bolsas asiáticas abriram esta segunda-feira com fortes baixas. Serão inevitáveis também reflexos no mercado brasileiro.

Outros destaques dos jornais

– Sábado

– BNDES NÃO FINANCIA MAIS PETROBRAS – A Petrobras não poderá contar mais com o BNDES para financiar investimentos. Uma resolução do Banco Central deu três anos para o banco se enquadrar nos limites de prudência e impediu novos financiamentos e aportes em participação nas empresas nas quais ele tenha excesso de recursos comprometidos, caso da estatal. O limite para comprometimento do banco com um único cliente é hoje de R$ 24,1 bilhões. O BNDES terminou 2014 com um comprometimento de R$ 64 bilhões com a Petrobrás.

– Segunda

– PRODUÇÃO DE PROVAS DA DELAÇÃO – A Procuradoria Geral da República (PGR) já encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) os primeiros pedidos de produção de provas com base na delação premiada do dono das construtoras UTC e Constran, Ricardo Pessoa. O empreiteiro relatou o envolvimento de diversas autoridades com foro privilegiado em esquemas de desvio de recursos da Petrobras e de outras obras públicas. Por ter citado nomes novos, pedidos de abertura de inquéritos serão feitos pela PGR ao STF, além dos procedimentos já em curso contra dezenas de autoridades. A delação de Pessoa também terá desdobramentos na ação de investigação eleitoral aberta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para analisar a prestação de contas da campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff

– ESCÂNDALOS DERRUBAM TÍTULOS DE EMPREITEIRAS – As incertezas sobre os desdobramentos da Operação Lava-Jato nos negócios da Odebrecht e da Andrade Gutierrez mudaram o humor dos investidores internacionais, que já “punem” as duas empresas. Os papeis da Odebrecht e da Andrade era negociados a 80,6% e 77% do seu valor de face, respectivamente, patamar abaixo do registrado no último dia 19, antes da detenção dos presidentes das duas empresas. As empreiteiras correm o risco de serem rebaixadas pelas agências de classificação de risco.

– VAZAMENTO DE NOTÍCIAS SOBRE DESINVESTIMENTOS DA PETROBRAS – Uma mensagem distribuída em celulares de sindicalistas da Petrobras vazou, na sexta-feira, informações do plano de venda de ativos da estatal, antes de a empresa se posicionar oficialmente ao mercado, o que só deve acontecer hoje. Segundo a mensagem, “Liquigás, Gaspetro,Transpetro, algumas sondas e poços terrestres serão desinvestidos”. O texto trata ainda da transferência de empregados dessas subsidiárias para a companhia controladora. “Todos os 500 funcionários próprios de Cabiúnas (terminal em Macaé, no Rio) serão cedidos (à Petrobrás) a partir de janeiro de 2016”, traz a mensagem.

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E MAIS:

– “Marco Aurélio: análise das contas deve levar em conta delação” (Globo)

– “Nos Estados Unidos, Dilma tenta se descolar da Lava-Jato” (Estadão)

– “Governo acelera solução para o rombo elétrico” (Valor)

– “BC chinês volta a reduzir juros para acalmar mercado” (Valor)

– “Montadoras e fornecedores buscam socorro bilionário de suas matrizes” (Valor)

LEITURAS SUGERIDAS

– Sábado

1. Fernanda Estevan – “Crise é bom para discutir a universidade gratuita” (diz que a gratuidade é dificilmente justificada e sua eficácia é questionável para garantir o acesso democrático ao ensino superior) – Folha

2. André Singer – “Grito de alerta” (comenta e elogia as críticas à política econômica de documento da Executiva Nacional do PT na semana passada) – Folha

– Domingo

1. Henrique Meirelles – “Depois do curto prazo” (faz críticas à política econômica dos últimos quatro anos e que é preciso estabelecer regras que dêem segurança ao investidor) – Folha

2. Editorial – “Setor público generoso” (comenta o fato de o salário médio das empresas públicas ser 58,1% maior do que o de uma empresa privada, conforme pesquisa do IBGE. Proporcionalmente ele contrata também muito mais) – Estadão

– Segunda

  1. Paulo Sotero – “’Novo capítulo’ entre Brasília e Washington” (diz que antes uma proximidade com os Estados Unidos era um problema, agora é solução) – Estadão
  2. Editorial – “Finanças arruinadas” (comenta que enquanto a arrecadação tributária cai em todos os níveis das unidades da federação as despesas públicas continuam a crescer. Concentra-se principalmente na grave situação dos municípios) – Estadão
  3. Ricardo Mello – “Pessoa e o ser ou não ser do PT” (diz que enquanto o partido não definir um programa coerente a tendência é o esvaziamento da legenda) – Folha