“Difícil ter convicção”: como gringos veem ações do Brasil a poucos dias da eleição

A poucos dias das eleições, investidores estrangeiros seguem cautelosos com o Brasil e mantêm posições neutras, apesar do interesse crescente pelo mercado. Bancos apontam que a definição do cenário político pode destravar fluxo para ações ligadas a juros, bancos, commodities e consumo doméstico.

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Faltando poucos dias para as eleições presidenciais, uma frase do Morgan Stanley parece resumir o sentimento predominante entre investidores estrangeiros em relação ao Brasil: “é difícil ter convicção sobre o Brasil”. Apesar das avaliações de que a bolsa negocia com desconto e oferece um dos melhores perfis de risco-retorno entre os emergentes, a maioria dos gestores globais prefere esperar por mais clareza eleitoral antes de aumentar exposição.

Em relatório após conferência com investidores em Londres, o Morgan Stanley afirma que os investidores estão montando portfólios para diferentes cenários, mas sem grande convicção sobre o desfecho da disputa. Segundo os estrategistas, o Brasil negocia atualmente próximo ao ponto médio entre os cenários otimista e pessimista para 2027, refletindo justamente essa incerteza.

A visão encontra eco em encontros recentes realizados pelo Itaú BBA e pelo Bradesco BBI com investidores nos Estados Unidos. Em ambos os casos, os relatos mostram um mercado que desperta interesse crescente, mas ainda sem converter atenção em posicionamento relevante.

O Bradesco BBI classificou o momento como um clássico caso de “alto interesse e baixo posicionamento”. Segundo o banco, as eleições dominaram as conversas durante o roadshow, mas a maioria dos investidores descreveu seus portfólios como neutros em Brasil e em modo “wait and see” (esperar para ver). O gatilho para aumentar exposição poderia vir de uma definição eleitoral mais clara, de cortes de juros pelo Banco Central ou de melhora na percepção fiscal.

Já o Itaú BBA relata que o posicionamento em Brasil está entre neutro e ligeiramente acima da média, sustentado por valuations atrativos e benefícios de diversificação. Ainda assim, os investidores permanecem defensivos diante das dúvidas sobre o quadro fiscal, desaceleração da atividade e riscos do ciclo de crédito.

Brasil segue favorito na América Latina, mas perdeu exclusividade

Embora a cautela domine o curto prazo, os investidores estrangeiros continuam enxergando valor no mercado brasileiro.

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O Bradesco BBI mantém Brasil como sua principal aposta na América Latina (overweight), argumentando que o país segue entre os mercados mais baratos do mundo e oferece uma das assimetrias mais atraentes entre crescimento e ciclo de juros nos emergentes.

O Morgan Stanley, por sua vez, mantém visão levemente positiva para o Brasil dentro do universo emergente, mas destaca que o país deixou de ser uma aposta consensual na região. O banco vê uma relação de risco-retorno equilibrada e afirma que a América Latina voltou ao radar dos investidores por conta de eleições e investimentos ligados à inteligência artificial, mas tem preferência mais clara pelo Chile atualmente.

Entre os países da região, o Morgan Stanley afirma que o Chile é seu mercado favorito na América Latina, enquanto o Itaú BBA destaca o Peru como o destino preferido dos investidores fora do Brasil. O México aparece, em geral, entre neutro e abaixo da média nas carteiras internacionais.

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Bancos lideram preferência dos estrangeiros

Se existe um consenso entre os investidores globais, ele está no setor financeiro.

O levantamento do Itaú BBA mostra que bancos e empresas financeiras seguem sendo a exposição preferida ao Brasil. Entre os nomes mais citados aparecem BTG Pactual (BPAC11), Nubank (BDR: ROXO34), B3 (B3SA3), XP (BDR: XPBR31) e Bradesco (BBDC4). O BTG surge como uma das posições de maior consenso graças à exposição combinada a mercado de capitais, gestão de patrimônio e crédito corporativo.

O Bradesco BBI encontrou percepção semelhante. Segundo o banco, BTG e B3 são os veículos favoritos para capturar um eventual cenário de queda de juros, enquanto Banco do Brasil (BBAS3) e XP são vistos como apostas mais alavancadas a uma melhora macroeconômica. Itaú Unibanco (ITUB4), por outro lado, aparece mais frequentemente como fonte de recursos para financiar outras posições.

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Já o Morgan Stanley destaca um grupo de ações que poderiam se beneficiar de uma eventual mudança estrutural de política econômica focada em investimento e crescimento. Entre os nomes citados estão Nubank, XP, BTG Pactual, B3, Mercado Livre, Cyrela (CYRE3), Vibra (VBBR3), Petrobras (PETR4), Banco do Brasil (BBAS3), Motiva (MOTV3), Rumo (RAIL3) e Auren (AXIA3).

Petrobras e Embraer aparecem como consensos fora do setor financeiro

Além dos bancos, duas empresas surgem repetidamente nas conversas com investidores globais: Petrobras (PETR4) e Embraer (EMBJ3).

O Itaú BBA afirma que Petrobras é a principal preferência entre as commodities brasileiras, sustentada pelos dividendos e pelo crescimento da produção no pré-sal. Embraer também aparece como uma história de receitas globais com alta convicção entre diversos fundos.

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No levantamento de ações de maior consenso entre investidores estrangeiros realizado pelo banco, aparecem BTG Pactual, Quality Bank, Petrobras, Embraer, Credicorp e Banorte.

O Bradesco BBI também destaca Petrobras entre os papéis mais mencionados, ao lado de Rede D’Or (RDOR3), Cyrela (CYRE3) e Cury (CURY3).

O que os investidores querem comprar pós-eleição

Em comum, a visão é de que a maior parte dos investidores não está montando posições para o cenário eleitoral atual, mas preparando uma lista de compras para depois da definição do resultado.

No Itaú BBA, os principais beneficiários de um ambiente de juros menores e maior visibilidade fiscal seriam BTG Pactual, B3, XP, Localiza (RENT3) e incorporadoras como Cyrela.

O Bradesco BBI vê potencial semelhante em ativos ligados ao mercado doméstico e ao ciclo de juros, mantendo em sua carteira Brasil nomes como BTG, B3, XP, Nubank, Itaú, Rede D’Or, Equatorial (EQTL3), Auren (AXIA3), Petrobras e Cyrela.

Já o Morgan Stanley adota uma estratégia “barbell”, equilibrando ações mais defensivas e exportadoras com empresas sensíveis ao ciclo doméstico. Para o banco, o mercado ainda não tem convicção suficiente para precificar qualquer um dos extremos eleitorais e, por isso, prefere manter exposição balanceada entre diferentes cenários possíveis.

Com isso, o Brasil continua atraente em termos de valuation e potencial de valorização, mas a definição eleitoral permanece como a peça que falta para transformar interesse em fluxo efetivo. Os investidores estrangeiros seguem observando de perto – e comprando devagar.

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Onde Investir

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.