Destaques da reunião da Berkshire evidenciam equilíbrio que Greg Abel terá de fazer

Há muito conhecida como o “Woodstock do Capitalismo”, a reunião manteve seus traços peculiares de sempre

Bloomberg

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Greg Abel não demorou a enfrentar o elefante na sala.

Em seus primeiros minutos diante dos acionistas da Berkshire Hathaway Inc. neste sábado — a primeira assembleia anual sem Warren Buffett comandando a festa — Abel levou os investidores de volta a um ano antes, quando Buffett surpreendeu a plateia e o indicou como próximo presidente-executivo (CEO).

Abel, conhecido como um operador astuto que está sempre procurando maneiras de melhorar os lucros dos diversos negócios do conglomerado de US$ 1 trilhão, disse que teve apenas um pensamento naquele momento: a empresa já tinha desembolsado o dinheiro para reservar a arena da assembleia anual de 2026. Com ele sendo a única grande atração, eles realmente precisariam de tudo aquilo?

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No fim das contas, precisaram. Embora a plateia tenha sido menor, milhares de investidores ainda assim foram a Omaha, Nebraska, para ouvir o novo CEO, de 63 anos.

Há muito conhecida como o “Woodstock do Capitalismo”, a reunião manteve seus traços peculiares de sempre: na sexta-feira, os acionistas circularam pelo piso do centro de exposições, comprando Squishmallows do ex-sócio de Buffett, Charlie Munger, e tirando fotos com o mascote da Geico, o lagarto. Os investidores também podiam comprar por US$ 2 um cartão de “Carrying Card Capitalist”, com a arrecadação destinada à ONG Girls Inc.

Mas houve mudanças notáveis em relação à tradição: Abel dividiu os holofotes com seus principais executivos, dando a eles a chance de falar diretamente aos investidores sobre seus respectivos negócios.

A reunião trouxe o slogan “The Legacy Continues” (“O legado continua”), numa tentativa aparente de tranquilizar os investidores de longa data de que o lendário conglomerado pode continuar a prosperar sem Buffett como CEO

Abel conta com o firme apoio de Buffett e do conselho da Berkshire. Ainda assim, as ações Classe B da companhia caíram 12,4% desde que ele foi nomeado CEO. E ele precisa encontrar uma forma de alocar o caixa de quase US$ 400 bilhões da empresa.

Isso sem falar no desafio de suceder Buffett como mestre de cerimônias da reunião anual. A sabedoria simples e os comentários espirituosos de Buffett tradicionalmente respondiam por uma grande parte do clima otimista do encontro.

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Homenagens a Buffett e Munger

O novo CEO homenageou seus antecessores lendários com alguns momentos bem-humorados no início da reunião. O evento começou com um vídeo trazendo uma coletânea de momentos marcantes da longa trajetória de Buffett como CEO, ao som do tema do filme “De Volta para o Futuro”.

Duas camisas esportivas exibindo os nomes de Buffett e Munger e seus respectivos períodos na Berkshire — 60 anos e 45 anos — foram penduradas acima do palco principal. Uma lata de Cherry Coke, o refrigerante favorito de Buffett, foi colocada sobre a mesa ao lado das anotações de Abel.

Depois disso, Abel foi direto ao ponto, apresentando uma atualização objetiva e detalhada sobre as diversas empresas e participações acionárias da Berkshire. Em seguida, respondeu a perguntas de acionistas ao lado do vice-chairman Ajit Jain.

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“Ele nos trouxe muitos detalhes sobre o negócio, abordou várias frentes diferentes, demonstrou que entende os negócios, entende os riscos, entende as oportunidades”, disse Adam Mead, CEO e CIO da Mead Capital Management, que esteve na reunião. “Ele fez o dever de casa e é absolutamente o líder que o Warren disse que ele seria.”

Abel, que nunca havia gerido dinheiro profissionalmente até se tornar CEO neste ano, deu aos acionistas uma amostra de sua visão de investimentos. Ele afirmou que a Berkshire identificou diversas empresas com gestão e operações interessantes, mas não tem interesse em comprá-las ou investir nelas por causa de suas avaliações elevadas.

Embora a lendária química cômica da dupla Buffett-Munger tenha feito falta, Abel e Jain ainda assim arrancaram aplausos e algumas risadas da plateia.

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“Houve uma dinâmica muito saudável entre Greg e Ajit”, disse Mead. “Quase parecia que havia ali um certo clima Warren-e-Charlie acontecendo. Eu achei ótimo.”

Uma das respostas de Jain levou Abel a compará-lo a Munger, que morreu em 2023. Questionado se a Berkshire consideraria oferecer seguros a navios que cruzam o Estreito de Ormuz — o canal crucial para o transporte de petróleo, praticamente fechado desde o início da guerra com o Irã — Jain respondeu, bem ao estilo Munger: “A resposta curta é: depende do preço.”

“Eu gostei da sua resposta à la Charlie”, retrucou Abel.

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Transição de poder

Embora o chairman da Berkshire, Warren Buffett, não tenha ido ao palco principal, ele ainda falou durante a reunião, fazendo um breve discurso aos acionistas a partir de sua cadeira entre os diretores da Berkshire, focado em liderança corporativa e, mais especificamente, em transições de poder bem-sucedidas.

Tomando a Apple Inc. como exemplo, Buffett lembrou a plateia de que praticamente ninguém sabia quem conseguiria conduzir a fabricante do iPhone depois da morte de Steve Jobs, e poucos investidores sabiam quem era Tim Cook na época. Buffett, que investiu US$ 35 bilhões em Apple há cerca de uma década — algo como 10% dos recursos da Berkshire — disse que essa aposta hoje vale US$ 185 bilhões incluindo dividendos, e agradeceu a Tim por isso.

A primeira pergunta de acionista veio de “Warren de Omaha” — Buffett, em uma deepfake de IA. Abel abordou a tecnologia em termos mais amplos em seus comentários, observando que a Berkshire tende a se beneficiar de seu crescimento, já que é dona de empresas de energia que abastecem data centers.

O acionista Christopher Davis, da Hudson Value Partners, disse ter ficado satisfeito com a forma como Abel explicou a abordagem da Berkshire em relação à IA.

“Ouvir que as empresas operacionais da Berkshire adotaram a mentalidade de construtoras de tecnologia, e não apenas de compradoras — com desenvolvedores e engenheiros na equipe — confirma que Greg Abel está trazendo as operações da Berkshire para a era moderna da IA”, afirmou.

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