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SÃO PAULO – Em relatório chamado China: “crise ou mudança permanente?”, a equipe econômica do Bradesco manteve a expectativa para o crescimento da economia chinesa de 6,5% em 2015 e ajustaram para baixo o crescimento esperado para 2016 de 6,2% para 5,5%.
Conforme destaca o Bradesco, o ajuste para baixo se deve aos fatores estruturais que, dificilmente, serão revertidos com políticas de estímulo. “Por ora, não há discussões de que a meta de 7,0% – estipulada para 2015 – será revisada para baixo para 2016. Esse tema, contudo, deverá começar a ser discutido em breve, tendo em vista os diversos desafios e o lento avanço dos investimentos em infraestrutura, que poderiam promover uma retomada da economia”, ressalta.
O banco destaca que, em um pouco mais de um mês, o mercado teve que lidar com quatro grandes frustrações quando o assunto é China. São elas: forte correção da bolsa, depreciação do yuan, fraco desempenho da economia e sinais confusos vindos do governo chinês, sem nos esquecermos dos avanços lentos do programa de reestruturação das dívidas dos governos locais.
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Assim, duas perguntas ficam no ar diante dos movimentos recentes dos mercados financeiros: “será que o governo do país aumentou a tolerância a taxas menores de crescimento no curto prazo (em relação à meta de expansão do PIB de 7%) e/ou não consegue mais intervir na economia como antes? Ou o mercado se deu conta de que as intervenções têm limite e desistiu de esperar que os estímulos levem a uma recuperação da economia nos trimestres à frente?”
Conforme destaca o diretor de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco, Octávio de Barros, parece precipitado responder a essas questões apenas à luz do comportamento dos mercados financeiros nessas últimas semanas, até porque hoje o banco central do país reagiu, anunciando a redução do depósito compulsório e da taxa de juros. Porém, afirma, os sinais negativos vindos do gigante asiático demandam alguma reflexão no momento.
A primeira reflexão apontada por ele reside nos fatores estruturais que vão além das frustrações com a bolsa e moeda e dos seus possíveis impactos, negativos e positivos respectivamente, sobre a economia – que, por ora, parecem limitados. “Os desequilíbrios chineses são bem conhecidos – excesso de capacidade instalada da indústria, endividamento dos governos locais e das empresas (assumido na saída da crise), ajuste do setor imobiliário, aumento da regulação do sistema financeiro não bancário (conhecido como shadow banking) e queda da contribuição das exportações – e não devem ser esquecidos e exigem um ajuste estrutural”, destaca.
Estes desequilíbrios colocam a economia do país numa situação frágil, que limita a ação do governo na direção de afrouxamento da política monetária, porque isso aumentaria a alavancagem tanto das empresas como dos governos. Por outro lado, essa situação também demanda algum alívio das condições monetária e fiscal, para suavizar a desaceleração já contratada.
Com isso, o entendimento que a ampliação dos gastos federais deste ano tem apenas compensado a retração dos investimentos dos governos locais e a queda da taxa de juros, combinada com a injeção de liquidez e o corte do depósito compulsório, permite uma renegociação dos passivos das empresas e dos governos locais. “Ou seja, as aparentes medidas de estímulo não promoverão uma retomada da economia; apenas suavizarão a tendência de arrefecimento”, afirma. Assim, diante desses dilemas, seria de se esperar taxas de crescimento menores – seguindo o padrão da grande maioria dos países em fases de reequilíbrio. Além disso, o desenvolvimento de uma agenda de reformas – que ampliem a eficiência do país, aumentem a participação do setor privado e o consumo doméstico, de forma mais sustentável – era a grande aposta para que, a moderação do crescimento chinês acontecesse de forma suave e gradual, sem provocar choques internos e externos.
Já a segunda reflexão se concentra nos ruídos na condução das intervenções, por ocasião dos recentes episódios da bolsa e da moeda – que abalaram a confiança dos agentes externos e principalmente locais.
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Para o Bradesco, ao tentar estimular o mercado de ações, vieram à tona incertezas sobre a capacidade estatal de intervenção da economia chinesa. Da mesma forma, ao surpreender os mercados há poucas semanas, com o anúncio de uma depreciação de quase 2% da moeda em um dia e prometendo uma mudança de regime (para flexível), as autoridades chinesas também deixaram os mercados confusos. Cabe lembrar que, dias depois, o BC chinês tentou esclarecer as suas intenções e defendeu que havia o objetivo de estimular as exportações e garantindo a estabilidade da moeda.
Outra reflexão importante vem do avanço bastante limitado e lento das reformas que, de certa forma, pode ser associado aos desdobramentos da campanha de controle à corrupção, conduzida pessoalmente pelo presidente Xi Jinping. “O fato é que notícias recentes dão conta dos efeitos colaterais da campanha, que tem gerado atritos importantes entre os líderes locais e em diversos ministérios. Com isso, tem faltado apoio para avançar em reformas, como das estatais”, afirma Barros.
E, mesmo na agenda financeira, o dilema entre dar suporte à economia e reestruturar o sistema financeiro tem postergado agendas. Somado a isso, na ausência de apoio às estratégias de Pequim, diversos governos locais não têm se empenhado na expansão dos investimentos em infraestrutura. Além disso, diante das restrições estruturais, da frustração com as reformas e dos ruídos na condução da política econômica, a economia segue fraca (e não há sinais de retomada) e a expressiva saída de capitais do país tem chamado atenção.
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Riscos da China merecem consideração
Segundo o Bradesco, os riscos vindos da China merecem considerações por três motivos, pelo fato (i) de a economia chinesa ser fechada – os passivos chineses estão na mão de chineses –, (ii) de haver espaço para alívio da política fiscal e monetária e (iii) de as reservas serem elevadas.
“Entretanto, os sinais vindos até o momento trazem mais preocupações do que tranquilidade. Acreditamos que estamos distantes de uma crise, como a de 2008-2009 ou do final da década de 90. Mas isso não significa que a economia global está imune aos ajustes da economia chinesa, talvez menos controlados e mais intensos do que esperávamos”, afirma.
O Bradesco aponta que que essas características apresentadas previamente apontam mais para uma mudança permanente do padrão de crescimento do que para uma crise. A condução da política econômica chinesa, por sua vez, poderá ser muito mais desafiadora.
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Ainda que essa seja uma questão aberta a muitos debates, pode-se questionar a capacidade e o alcance atual das intervenções do governo, nesse ambiente político-econômico. “Reconhecemos, também, que o mercado começa a realizar que os estímulos não serão capazes de reverter a tendência de desaceleração. Nesse contexto, podemos esperar revisões baixistas para o PIB deste e, principalmente, do ano que vem”.
Se a mudança for permanente e implicando um ritmo menor de crescimento, cabem ainda as reflexões sobre os efeitos sobre a economia mundial. A Ásia, avalia a equipe econômica, será uma das regiões mais impactada dada a elevada exposição nas cadeias produtivas. Naturalmente, os exportadores de commodities (especialmente América Latina) continuarão sentindo não só a queda das exportações como também dos investimentos nessas cadeias.
“A pressão para a depreciação das moedas será resultante disso, aumentando os desafios para a política econômica desses países. Nesse contexto, em que as questões domésticas chinesas demandarão mais atenção de seus líderes, poderemos observar alguma postergação do apetite chinês de investimento no exterior. A China também, ao menos temporariamente, poderá ser menos atrativa para receber os aportes estrangeiros, diante das possibilidades menores de crescimento”, afirma.
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No caso do Brasil, os desafios atuais tenderão a ser amplificados, com o crescimento menor dos emergentes, liderados pela China. “Mesmo com a depreciação do real, cuja tendência de perda de valor inclusive poderá ser acentuada por esse cenário chinês menos favorável, o mercado exportador sofrerá, tendo em vista a dependência do país asiático e das commodities”, conclui.