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Deltan Dallagnol: sucesso no mundo jurídico, fracasso como investidor de ações

Durante sua apresentação em evento promovido pela XP Investimentos, o procurador do MPF e coordenador da Operação Lava Jato brincou sobre suas más escolhas no mercado financeiro

SÃO PAULO – Em um dos momentos mais esperados pelas 4.500 pessoas presentes na Expert 2017, evento promovido pela XP Investimentos em São Paulo na última quinta-feira (22), a palestra de Deltan Dallagnol trouxe uma dose carregada de emoção e provocou manifestações calorosas de apoio e carinho pelos espectadores desde o momento em que ele entrou na plenária até o encerramento da sua fala.

No entanto, o procurador do MPF e coordenador da Operação Lava Jato também levou o público – formado predominantemente por investidores do mercado financeiro – a gargalhadas quando contou sobre suas más escolhas no mercado de ações.

“Não sigam minhas dicas de investimentos, quem segui-las irá falir. Eu não estou brincando!”, disse Dallagnol, que logo emendou: “tenho ações da Petrobras (PETR4) compradas a mais de R$ 20 por volta de 2008 [atualmente, estes papéis valem cerca de R$ 12, tendo chegado a R$ 4 no começo de 2016]. Também tenho ações do BTG Pactual (BBTG11[banco que derreteu na bolsa em 2015 após a prisão de seu presidente e fundador, André Esteves] e minhas ações da Positivo Informática (POSI3) valem hoje menos de 10% do preço que paguei“, disse Dallagnol, sorridente apesar dos prejuízos acumulados com estas escolhas.

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Durante a coletiva de imprensa realizada depois de sua apresentação, Dallagnol respondeu ao InfoMoney que as ações da Petrobras foram compradas “na época em que todos diziam que era um ótimo investimento”, o que faz sentido já que em 2008 foi a época que o Ibovespa atingiu seu maior patamar da história. Momentos de euforia na bolsa costumam atrair curiosos que, embora sem muito conhecimento sobre o funcionamento do mercado de ações, ficam encantados pelas gordas rentabilidades acumuladas por estas aplicações. Hoje, por estar dentro nas investigações que envolvem Petrobras e BTG, Dallagnol disse “estar preso” nestas duas aplicações, já que a venda destes ativos levantaria suspeitas de conflitos de interesse.

Já sobre Positivo, a resposta de Dallagnol assemelha-se a de muitos investidores que já compraram uma ação e viram ela derreter na bolsa antes de tomar alguma decisão: “as ações da Positivo hoje valem menos de 10% do preço que eu paguei, então prefiro deixar como está e esperar por quem sabe uma recuperação do que vender a esse preço”, explica o procurador.

Não foi a primeira vez que Dallagnol revelou sua falta de dote no mercado de ações: em julho do ano passado, durante o Congresso Abvcap, ele já havia revelado ter ações da Petrobras, BTG e também da Queiroz Galvão (QGEP3).

Palestra
Mas obviamente Dallagnol não foi até a Expert para falar sobre seus investimentos. Sua palestra teve como tema “Corrupção e ética nos negócios”. O procurador usou dados e exemplos para mostrar como um país corrupto traz como consequência piora de competitividade e menos investimentos. “Num país corrupto, os campeões nacionais vencem pois na linha de largada eles já pagam suas propinas e saem na frente. Além disso, corrupção afasta investimentos: quem quer investir em empresas corruptas?”, disse o procurador.

Em um dos momentos de maior clamor da plateia, Dallagnol disse que a ideia de criar heróis na Lava Jato é péssima. “Quando nós criamos heróis, a gente fica assistindo ele fazerem as coisas. Se você quer mudanças, você precisa levantar e fazê-las”, disse o homem forte da Lava Jato, arrancando aplausos do público.

Quando perguntou à plateia se a Lava Jato poderia mudar o Brasil, Dallagnol viu uma massacrante maioria levantar as mãos dizendo que sim. Então, o procurador disse que, na opinião dele, a Lava Jato não mudará o Brasil. “Esse é só o primeiro passo. Precisamos mudar as maçãs podres”, emendou, mais uma vez tirando palmas do público.

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O fracasso de Dallagnol como investidor de ações não pode ser associado a uma possível falta de apreço aos números: durante a coletiva de imprensa, o procurador foi preciso ao apresentar os resultados da Operação Lava Jato: 180 pedidos de investigação em 40 países, tendo como alvo 21 milhões transações bancárias que respondem por um equivalente de R$ 1,3 trilhão – maior que o PIB da Argentina; 280 pessoas já foram acusadas, sendo 140 já condenadas, além de R$ 10 bilhões que já foram devolvidos à sociedade pelos réus. Apenas da Petrobras, R$ 42 bilhões já foram registrados como dinheiro desviado pela corrupção.

Um episódio que ajudou a mostrar a alta popularidade de Dallagnol: por volta das 23h30 (horário de Brasília), quase duas horas depois do fim da sua apresentação, uma fila de pessoas ainda aguardava para pedir um autógrafo no livro escrito pelo procurador e lançado ainda neste ano (“A Luta Contra a Corrupção – A Lava Jato e o Futuro de um País Marcado pela Impunidade”).