Decoupling? Economias ainda parecem amarradas, mas sob um novo arranjo

Opiniões contrárias à tese do descolamento ganham força; de fenômeno pontual, alteração estrutural pode ser sustentável

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SÃO PAULO – No último dia 18 de outubro, o presidente do Banco Central norte-americano, Ben Bernanke, dedicou boa parte de seu discurso na cidade de São Francisco (EUA) a um tema muito debatido no cenário econômico atual: o decoupling.

Mesmo evitando mencionar a palavra, Bernanke voltou seus esforços à tentativa de explicar o porquê da produção industrial chinesa estar crescendo mesmo diante de um cenário adverso no restante do mundo. Ou seja, como o gigante asiático encontrava demanda para incrementar sua oferta se o cenário era de contração do consumo internacional?

A conclusão do chairman parece a mais óbvia possível: graças ao consumo doméstico chinês. Isso, com o devido crédito às políticas fiscal e monetária implementadas no país, que ajudaram a sustentar esse consumo durante o período de crise. No entanto, é evidente que a China – assim como outros emergentes – registrou avanços sem o respaldo de seus principais parceiros comerciais.

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Esta questão aponta para a tese do descolamento, de que o fortalecimento dos fundamentos macroeconômicos de nações em desenvolvimento – como China, Índia e Brasil – reduziria a exposição destas economias aos solavancos do restante do mundo. Grosso modo, uma gripe nos Estados Unidos ou Europa, que antes era sinônimo de pneumonia nos emergentes, pela tese do descolamento, seria interpretada como mero resfriado pelas nações menos maduras.

Ainda amarradas

Os números respaldam a teoria. De fato os emergentes vêm mostrando sinais de maior independência de seus parceiros comerciais. No exemplo brasileiro, o acúmulo de reservas internacionais e políticas elogiadas de combate à crise colocam o mercado doméstico entre os de melhor desempenho ao redor do mundo, pela maior resistência demonstrada aos choques externos – e muito pelo fortalecimento do consumo doméstico.

Por outro lado, os números não dizem tudo. Começa a crescer a corrente de economistas que interpretam estes movimentos de maneira diferente. “Há uma razão muito boa para isto – a Ásia ainda está amarrada ao restante do mundo”, acreditam os franceses do Société Générale.

Esta abordagem alternativa não credita esses movimentos ao decoupling, mas sim a uma redistribuição de importâncias no cenário econômico internacional. Não que as economias estão descolando das outras; elas seguem bem amarradas, mas o peso de cada uma está variando. Voltando à conclusão de Bernanke sobre a China: “a restauração da demanda na Ásia, por sua vez, auxiliou a economia global”.

O coupling

A equipe do Barclays Capital completa a explicação: “o ‘coupling’ [acoplamento], entendido como sensibilidade ao crescimento, continua vivo, mas parece ter se mudado para o oriente”.

Mais do que a tese do descolamento, os últimos passos da economia internacional parecem seguir amarrados, mas alterando padrões anteriores para uma nova disposição. Nessa, os Estados Unidos e países da União Europeia perdem peso.

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E esta gradativa alteração de estrutura pode ser notada nos pequenos costumes do mercado. O Société Générale destaca que os agentes na Ásia agora reservam mais atenção a indicadores locais do que o foco anterior voltado aos sinais externos.

Daqui para frente

Mais do que um fenômeno pontual, essa alteração de estrutura pode ser sustentável. Na opinião do Barclays, o crescimento dos emergentes ainda está ligado à engrenagem global, mas deve continuar vindo acima da média.

Ainda utilizando os países asiáticos como exemplo, o SocGen completa que “a economia norte-americana, apenas com alguns milhões de indivíduos, teve crescimento por diversas décadas baseado na demanda doméstica, mais que a externa. As aproximadamente 3,5 bilhões de pessoas da Ásia devem estar aptas para fazer o mesmo, contanto que escolham as políticas corretas”.