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SÃO PAULO – Em reportagem desta terça-feira, a revista Americas Quarterly (AQ), principal publicação sobre política, negócios e cultura da América Latina, afirmou que pelo menos um grupo está elogiando a presidência de Donald Trump nos EUA até agora: os populistas latino-americanos.
“Se eles veem resquícios de seus próprios pontos de vista nacionalistas na agenda ‘America First’ de Trump, ou simplesmente veem uma oportunidade para melhorar os laços diplomáticos com Washington, figuras populistas de grande calibre tanto de esquerda quanto de direita foram ao Twitter e outros meios de comunicação para expressar o apoio”, ressalta a revista, em matéria chamada “Latin American Populists Loving Trump So Far”.
A publicação cita alguns exemplos. Na Argentina, por exemplo, muitos políticos próximos à ex-presidente Cristina Kirchner – conhecida por ter manipulado dados econômicos, ter ‘vilanizado’ a tradicional elite política e econômica do país e imposto altas tarifas de importações – manifestaram apoio ao presidente americano. O ex-secretário de Comércio Interior Guillermo Moreno afirmou que “Trump está fazendo tudo o que fizemos” e disse acreditar que o republicano é um “peronista”. Daniel Scioli, que perdeu a eleição presidencial para Mauricio Macri, elogiou a ênfase de Trump na indústria nacional em um post no Facebook, ecoando o hashtag #AmericaFirst do novo presidente com seu próprio #PrimeroArgentina.
Além desses, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, atualmente sitiado por uma recessão catastrófica e escassez de alimentos, suprimentos médicos e outros bens básicos, chegou a afirmar que o novo ocupante da Casa Branca foi vítima de uma “brutal campanha de ódio” pelos meios de comunicação. “Ele não será pior do que Obama”, afirmou Maduro.
Contudo, a Americas Quaterly faz uma ponderação: “essas opiniões simpatizantes parecem ser uma minoria entre os líderes latino-americanos – pelo menos até agora. A região é dominada por presidentes como o peruano Pedro Pablo Kuczynski, o argentino Mauricio Macri e a chilena Michelle Bachelet, todos comprometidos com o comércio e com o globalismo predominante nos últimos anos. Além disso, as crises próprias da América Latina com o protecionismo populista dos anos 2000 no Brasil e na Argentina terminaram em recessão”.
A publicação também destaca a visão de alguns analistas, que questionam o quão sinceros são alguns dos apoios a Trump – especialmente da esquerda ideológica. Segundo o analista político venezuelano e consultor John Magdaleno, com tais declarações, Maduro pode ter buscado melhores laços diplomáticos em um momento de crise nacional.
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Por outro lado, aponta a publicação, uma figura cuja afinidade com o Trump é mais baseada em valores é a de Jair Bolsonaro, um ex-oficial do exército de direita que ocupa o quarto lugar nas pesquisas para a corrida presidencial do Brasil de 2018. “Ele é o principal candidato entre os brasileiros ricos e expressa um movimento de ira nacional com o establishment político em meio a recessão sem precedentes e os escândalos de corrupção”, destaca a revista. A publicação ressalta que Bolsonaro fez um vídeo parabenizando Trump e, como o americano, culpa a mídia por distorcer suas opiniões. A Americas Quarterly ressalta que não são apenas os políticos nacionais que vêm apoiando Trump. Dois municípios do sul do Brasil pediram para participar da cerimônia de posse de Trump e parabenizaram o americano por vencer com uma agenda que “criticou a invasão de imigrantes”.
Em meio ao aumento do “trumpismo”, alguns analistas ligaram o sinal de alerta. A revista destaca, por exemplo, o post do economista Ricardo Amorim em que traça um paralelo da agenda econômica de Trump com a da ex-presidente Dilma Rousseff, que é apontada por muitos por ter levado o Brasil para a recessão antes de sofrer o impeachment em agosto de 2016. Amorim compara a “Nova Matriz Econômica” ao “Make America Great Again” de Trump. (Você pode conferir o post na íntegra clicando aqui).
Ao contrário de muitos outros populistas na região, o mexicano Andrés Manuel López Obrador não deu boas-vindas a Trump – mas pode se beneficiar da presidência dele. O ex-prefeito da Cidade do México, que está se preparando para uma terceira rodada presidencial, se apresentou como alguém que vai enfrentar o presidente americano – e será a favor dos interesses do México, aponta a revista. Ele atingiu seu pico de popularidade após a vitória de Trump em novembro e, de acordo com uma pesquisa do jornal mexicano El Financiero, é visto pelos mexicanos como o mais apto a assumir os prováveis ??desafios de uma presidência de Trump.
“De fato, embora os resultados das eleições recentes na Argentina, na Bolívia e no Peru indiquem que a onda populista da América Latina está em declínio, muitos líderes acreditam que podem ver suas fortunas políticas crescerem como resultado da vitória de Trump”, destaca a publicação, citando Guillermo Moreno. “Agora, quando voltarmos, não teremos o mundo contra nós”.