Dança das cadeiras: o Brasil pode ter novas blue chips futuramente?

"Na década de 80, Paranapanema se destacava de forma absurda", lembra professor de Economia da FGV

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SÃO PAULO – Até os anos 90, a mineradora Paranapanema era uma blue chip da bolsa de valores, sendo um dos principais alvos do noticiário econômico. “Na década de 80, Paranapanema se destacava de forma absurda no mercado de ações. Parecia que era ela e o resto”, lembra o professor de Economia e Finanças da Fucape e FGV, Paulo César Coimbra. Já a Telebrás chegou a concentrar 70% das movimentações financeiras da Bolsa.

O professor do INPG (Instituto Nacional de Pós-Graduação), Walter Cestari, ex-assessor da diretoria da Bolsa de Valores de São Paulo e supervisor educacional da Bovespa, está neste mercado há 30 anos e sabe bem que uma blue chip pode não ser blue chip para sempre.

Ele vai além do conceito de liquidez para definir uma blue chips. Estamos falando de empresas líderes em seus setores, com sólida administração e desempenho histórico de lucros obtidos com boa remuneração do capital investido “Esses três aspectos, na minha visão, são fundamentais. A consequência é a liquidez”.

O que o passado ensina
“Na primeira metade dos anos 70, lembro que as ações do Banco do Brasil eram as mais glamourosas. Já na segunda metade, outras menos conhecidas começaram a se destacar, principalmente em momentos de baixa liquidez, como Paranapanema e Acesita. Ao final dos anos 80 e início dos 90, foi a vez de a Telebrás brilhar, mas isso foi antes da privatização. Havia ainda uma sólida segunda linha nobre que se assemelhava muito com as ações da primeira linha. Era o caso de Moinho Santista, Sharp e Alpargatas. Ao longo da história, algumas empresas deixaram de ser blue chips por conta de transformações estatutárias e outras devido a mudanças mercadológicas”.

Um exemplo de mudança mercadológica que pode alterar o rumo de uma ou outra empresa é a onda de preocupação com a saúde que atingiu a sociedade nos últimos anos, inclusive com campanhas de larga escala promovidas pelos governos a fim de alertar a população acerca dos malefícios do cigarro e das bebidas alcoólicas, ao mesmo tempo em que as pessoas passaram a cultivar hábitos de vida mais saudáveis.

No exterior, como bem lembrou Cestari, há casos recentes de empresas que despencaram no ranking das blue chips: o Citibank e a General Motors. “Essas duas empresas foram ícones no mercado durante quase um século. Com a violenta crise financeira a partir de 2006, elas desabaram e acabaram excluídas recentemente como blue chips na Bolsa de Nova Iorque”.

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Nada é para sempre
Olhando para o passado, percebemos que o mercado está em constante e às vezes imprevisível movimento. Uma série de fatores pode levar uma organização à queda na Bolsa. Privatização, entrada de novos players no segmento de atuação, reviravolta no cenário econômico, falta de inovação – que afeta, principalmente, empresas de tecnologia – são alguns exemplos.

O movimento de sobe-e-desce é mais evidente em bolsas de economias em desenvolvimento, principalmente quando as próprias bolsas ainda não estão consolidadas. Não é o caso do Brasil hoje, onde o mercado de capitais é sólido. Desta forma, ninguém pode garantir com absoluta certeza que as atuais blue chips brasileiras permanecerão no topo, na lista das ações mais negociadas ou das que possuem maior valor de mercado.

“Uma empresa de segunda ou terceira linha pode, futuramente, vir a ser de primeira linha”, explica Coimbra, embora admita a dificuldade de fazer previsões de longo prazo. Questionado sobre a possibilidade de queda das duas principais empresas da Bolsa brasileira hoje, Petrobras e Vale, ele diz que aposta nas empresas do Eike Batista, “por conta de seu potencial e de suas características de gestão, sobretudo a MMX”.

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“O Eike é um empresário bastante agressivo quando o assunto é a expansão de seus negócios. Ele diz com todas as letras que um dia será o homem mais rico do mundo”, justifica. “Suas empresas crescem de maneira extraordinária, se compararmos com outras companhias”.

Fusões mudam as regras do jogo
Entretanto, ele ressaltou mais de uma vez ao longo da entrevista que é difícil prever o futuro da bolsa de valores, e uma das razões mais latentes é o movimento de fusões e aquisições que se intensificou há alguns anos e não deve cessar tão cedo. Ninguém duvida que uma fusão possa mudar o final da história. Afinal, se hoje temos duas grandes empresas concorrendo em um setor, amanhã, caso elas venham a se unir, teremos uma única gigante.

O professor de Economia e Finanças também acredita que a liderança da Petrobras e da Vale pode ser ameaçada pela BM&FBovespa e por outras vedetes do momento, como ItaúUnibanco e Santander. “Olho com atenção as empresas que ganham liquidez no mercado de opções e creio que pode ser um termômetro”.

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Segundo ele, a Petrobras pode sofrer abalo, futuramente, pelo fato de ser uma estatal. Isso pode ter contribuído para ser crescimento, até o momento atual, por conta dos investimentos do governo, porém a divulgação de informações obscuras e o debate em torno da empresa com fins políticos, principalmente no que se refere ao marco regulatório, podem enfraquecer a empresa.

Por outro lado, a Vale pode vir a ultrapassar a Petrobras, que hoje ocupa o posto de líder com larga distância da segunda colocada. Tudo dependerá da necessidade de importações da economia chinesa. “Crises econômicas de grande escala têm o potencial de promover eventuais danças das cadeiras em rankings de empresas em valor de mercado”, sublinha Coimbra.

Empresas de varejo
Quanto aos papéis de empresas de varejo que se sobressaíram em meio à crise nos países emergentes, enquanto as exportações foram fragilizadas, o professor da Fucape e FGV não acredita em seu potencial para se tornarem blue chips. As empresas de commodities e as do setor financeiro devem continuar se destacando mais.

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O estrategista da TCX, Edgard Tamaki, discorda. Para ele, o desenvolvimento da economia brasileira, que gerou aumento da renda e do emprego, está beneficiando empresas ligadas ao consumo. Se sua teoria estiver correta, poderão ganhar mais destaque, nos próximos anos, empresas como BR Malls, Localiza e as do setor imobiliário, PDG Realty e Gafisa. “Essas empresas têm chance de se tornarem blue chips não daqui a dez anos, mas daqui a um ano”, opina.

Shiro recomenda ficar de olho no Morgan Stanley Capital Index Emerging Markets. Estar listado nesse ranking é indício de futuro promissor, em sua opinião. Isso porque, para realizar o levantamento, o Morgan Stanley leva em conta fatores como a forma como a empresa é gerida, seu desempenho financeiro e a perspectiva para o setor. Ele ainda acredita que mudanças, no que se refere à queda de atuais blue chips e à ascensão de mid caps e small caps, podem ser geradas pela percepção dos gestores de fundos de pensão do exterior. “Eles movimentam muito dinheiro”, afirmou.

Outras que deverão se destacar mais para frente são as empresas de infraestrutura, que devem crescer na esteira do desenvolvimento do Brasil e com a ajuda da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Uma delas é a Iochpe-Maxion, que produz rodas e chassis para veículos, vagões de carga e fundidos ferroviários. O estrategista diz que o investidor que não acredita em mudanças deve se lembrar que já foram destaques da Bolsa empresas como Varig, Transbrasil, Fios e Cabos Pirelli e Usina Costa Pinto.

Uma segunda opinião
Na opinião do professor de Finanças da FIA/USP (Fundação Instituto de Administração), Caio Torralvo, “é difícil uma empresa perder o status de blue chip, a menos que ela passe por um problema muito sério ou outras empresas com muito potenciais abram capital na Bolsa”.

De qualquer forma, em sua opinião, as empresas que podem, futuramente, ameaçar a liderança da Petrobras são a Redecard, a Cielo e a BM&FBovespa. Nos dois primeiros casos, o Torralvo diz que são empresas com larga vantagem competitiva e significativa penetração de mercado. Mas ele não acredita na ascensão de nenhuma empresa de construção civil, apesar de elas terem sido muito pautadas desde o Minha casa, Minha vida. “São empresas com sérios problemas de caixa,com uma situação financeira complicada, porque são alavancadas, e cujo negócio implica riscos. Há muito dinheiro envolvido e elas precisam antecipar o capital para receber”, opina.

Sustentabilidade ditará liderança
Para Cestari, a sustentabilidade mudará tudo e as blue chips do futuro serão as empresas mais comprometidas com seu público interno, externo e com o meio ambiente. “Em minhas andanças pelo mundo, nos congressos que participei, percebi que a sustentabilidade é cada vez mais um diferencial. Eu apostaria em empresas responsáveis. Temos alguns casos no Brasil de empresas com políticas que demonstram o respeito ao público interno, à comunidade local, ao consumidor e ao meio ambiente. Os países desenvolvidos já penalizam duramente empresas que demonstram falta de comprometimento, pagando prêmios àquelas com reconhecido engajamento”.