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SÃO PAULO – Há investidores que, por errarem o momento certo de sair de uma operação, perderam muito dinheiro na crise. Eles não souberam identificar quando realizar lucros, e sofreram com o tombo que faria a Bolsa ultrapassar a barreira dos 30 mil pontos. É uma dúvida corriqueira: quando é hora de vender os papéis? Por exemplo, agora, que a Bolsa vive uma recuperação intensa, é o momento para realização?
Via análise técnica é possível saber? “Ela dá a dica, porém, na crise, investidores com vasta experiência em gráficos registraram prejuízos altos. É difícil acertar os pontos, saber a hora exata de zerar todas as posições”, explica o gerente de Investimentos do Daycoval Asset, Anderson Rodrigues dos Santos.
Análise fundamentalista funciona?
E pelos fundamentos? “Não dá para saber”, responde o professor de Finanças do Insper, Ricardo José de Almeida. Segundo ele, “ninguém deu bola para o petróleo”, cujo barril, há cerca de cinco anos, ficava no patamar dos US$ 40 e hoje ronda os US$ 70, mas chegou perto de US$ 150 antes do agravamento da crise global, em meados do ano passado. Havia motivos reais para que o preço aumentasse tanto? Provavelmente não. O petróleo é um exemplo de que, às vezes, os fundamentos enganam.
Outro caso de ilusão é a própria Bolsa, cujas altas e quedas bruscas e inesperadas são vistas por investidores que se apegam à análise gráfica ou à fundamentalista como um mistério indecifrável. Muitos se tornam incrédulos frente às más experiências. Outros se revoltam. Mas não existe um mistério propriamente dito, apenas o mistério do comportamento humano, realmente de difícil compreensão.
“Os preços sobem ou caem muito rapidamente porque as pessoas não querem saber dos fundamentos. Elas agem movidas pela emoção. Como pode o investidor mudar de idéia tão rapidamente? Uma hora ele está otimista e, no segundo seguinte, pessimista? E o pior é que isso pode estar acontecendo agora e o Ibovespa pode cair de repente”, reflete Almeida.
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Existe uma segunda variável que afeta os rumos dos preços das ações intensamente: a percepção dos gestores de fundos de investimentos. Também por conta deles, os mercados são tão voláteis. “Quando os gestores notam uma queda, vendem bastante, para os cotistas não perceberem o prejuízo. A vantagem, para eles, é que os cotistas olham o extrato no mínimo uma vez por mês, mas não olham no longo prazo. Quando há uma alta brutal, os gestores não querem ficar fora do jogo. Mas, assim que a tendência se reverte, lá vão eles vender tudo”.
E como explicar a significativa desvalorização no valor de ações de empresas cujos setores sofreram pouquíssimo impacto da crise? Conclusão: os fundamentos não dizem tudo, mas Freud poderia ter sido um profundo conhecedor do mercado.
Antecipando movimentos da Bolsa
Voltando à questão dos gráficos, o estrategista da TCX, Edgard Tamaki, lembra que, se os preços, em uma série histórica de cerca de 15 pregões, estiverem muito acima da média móvel, existe uma grande chance de o mercado corrigir. Este pode ser o momento para vender seus papéis. Às vezes, é melhor deixar de ganhar ou até mesmo perder um pouco hoje do que muito lá na frente.
Fique atento ainda se, após seguidas altas, o volume de negócios de determinada ação recua ou deixa de crescer de forma consistente, com pequenas variações nas cotações. É um indício de que a valorização está chegando ao fim ou de que o papel já valorizou demais. O esgotamento também pode ser verificado com a formação de topos duplos ou até triplos.
Almeida sugere um raciocínio parecido, mas sem que seja necessário analisar os gráficos: o mercado parece ter sido tomado por uma euforia? As informações na imprensa têm sido extremamente positivas e não tem quem diga o contrário? Pode ter chegado a hora de zerar suas posições. E não se frustre com o fato de, após a venda, os preços ainda subirem “um pouquinho”, como diz o professor. Pode ser que isso aconteça. O problema é que as chances de alta e de queda parecem conviver harmoniosamente entre si.
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Para que o mercado não se torne angustiante, dada sua imprevisibilidade, o investidor deve blindar-se, na opinião de Santos, do Daycoval Asset. “Antes de montar uma operação, tenha em mente a quantia máxima que pode perder”, recomenda. “Sempre faça esse exercício. Pergunte a si próprio: se a Bolsa cair 50%, o quanto poderei perder? Isso dá segurança e aumenta as chances de a pessoa segurar, ou seja, não se desesperar e realizar prejuízo, frente a uma queda”, garante.
Dados importantes
Já na opinião de Tamaki, uma forma de se blindar contra as quedas é acompanhar e analisar as variáveis da macroeconomia. Por exemplo: antes de se entusiasmar com as altas na Bolsa, analise os dados de emprego e de crédito. A economia está criando empregos suficientes para manter o nível de consumo? O sistema bancário, cujo papel de intermediação financeira é essencial à economia, está de fato emprestando dinheiro? O crédito é um fator importante, porque antecipa consumo e investimento.
“Porém, o inconveniente ocorre quando os agentes econômicos financiam, sem critérios, o consumo e o investimento presentes, contando cegamente com rendimentos futuros. Pode ser que, quando o futuro chegar, eles não tenham dinheiro nem salários, receitas ou lucros para honrar os compromissos assumidos. Foi que aconteceu no EUA na década de 1920 e voltou a acontecer agora”, opina.
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Ele lembra que, segundo o Instituto Americano de Concordatas, nos nove primeiros meses deste ano, 1.046.449 pessoas solicitaram falência pessoal. Para efeito de comparação, no mesmo período de 2008, esse número havia sido de 773.810.
Para Tamaki, é difícil prever o exato momento em que o mercado vai começar a realizar, mas agora pode ser a hora de começar a embolsar os lucros. “O atual movimento de valorização das bolsas de valores não deve continuar avançando, sem uma correção, de certa magnitude”, defende.
Agora é hora de vender?
A valorização do Ibovespa, desde a mínima do ano, no intraday, em 3 de março (35.721 pontos), até o fechamento do dia 2 de outubro, aos 61.171 pontos, acumula alta de 71%, com boa contribuição do capital estrangeiro, que, nos nove primeiros meses supera os R$ 18 bilhões. A cifra representa um recorde histórico.
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No período, todos os referenciais mundiais avançaram consideravelmente. Por exemplo, o S&P 500, desde março, quando atingiu sua menor pontuação em 12 anos, até o dia 2 de outubro, avançou 50%; o DAX, 48%; e o Nikkei, 38%.
Os pacotes de estímulo econômico injetaram cerca de US$ 2 trilhões na economia mundial. Para se ter uma ideia do quanto isso representa, no ano passado, o PIB (Produto Interno Bruto) dos EUA foi de US$ 14 trilhões. A queda da taxa básica de juro também pode explicar a preferência de investidores pelo risco, já que os rendimentos dos títulos governamentais caíram a níveis baixos. Um terceiro motivo pode ter sido a avaliação de que as quedas foram exageradas.
Desde o fundo histórico, em março, a capitalização bursátil mundial subiu cerca de US$ 20 trilhões, segundo levantamento do Bloomberg. É preciso ficar atento às variáveis determinantes do consumo americano. Em setembro, houve decepção, com a queda dos seguintes índices: Payroll, Taxa de Desemprego e Consumer Confidence. As vendas de veículos também caíram fortemente, com o fim do programa “Cash for Clunkers”. Com a retração de consumo nos EUA, as exportadoras japonesas e chinesas de bens de consumo duráveis também sofrem. Por falar em China, há rumores de bolhas especulativas em relação a determinados ativos.
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Escute os formadores de opinião
Ultimamente, formadores de opinião como Nouriel Roubini, Michael Spence e Alan Greenspan têm alertado acerca do otimismo exagerado quanto à recuperação da economia. Já Joseph Stiglitz afirmou que o nível de desemprego continuará a crescer. “É aquele negócio de profecia autorrealizável”, afirma Tamaki. Para Roubini, “as bolsas e as commodities subiram muito, muito rapidamente e muito cedo” e, corrigindo a previsão anterior de que a primeira parte da recuperação viria no terceiro trimestre, formando um V, reconheceu que a mesma só deve vir no quarto trimestre deste ano ou no primeiro do ano que vem, e mais parecida com um U. O homem que ficou conhecido por prever a crise opinou ainda que as bolsas estão descasadas da economia real.
“A senha pode vir com os balanços do terceiro trimestre, que começam a ser divulgados nesta semana. Atenções voltadas principalmente para o comportamento das vendas, e não necessariamente para a última linha da demonstração de resultados. Ou seja, é mais importante que o lucro venha de um incremento das vendas e não da redução dos custos, via corte funcional”, finaliza Tamaki.