CVM vê “caixinhas” do mercado se dissolvendo e busca resposta sem travar inovação

Para a diretora Marina Copola, as fronteiras entre gestor, administrador e analista estão se apagando, e o finfluencer é um dos exemplos

Angelo Pavini

Marina Copola, diretora da CVM (Foto: Fabio Rizzato / InfoMoney)
Marina Copola, diretora da CVM (Foto: Fabio Rizzato / InfoMoney)

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As “caixinhas” do mercado de capitais eram bem definidas, com funções bem definidas de gestor, administrador ou analista, está se desfazendo, e lidar com esse cenário sem inibir a inovação é um dos principais desafios da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), avalia Marina Copola, diretora da autarquia. “Isso vem acabando, o finfluencer é um exemplo, ele é um analista ou influencer, como tratamos isso?”, questionou durante participação na Expert XP 2026, na quinta-feira (23). “Não temos controle das mudanças de paradigma dos cenários”, disse.

O tema não é novo na agenda da autarquia. A CVM apontou os influenciadores digitais de finanças como problema regulatório em consulta pública aberta em novembro de 2023, mas até hoje não regulou a atividade como categoria autônoma. A agenda regulatória de 2026 prevê revisão das regras para instituições que contratam os chamados finfluencers, atualização das normas de divulgação em redes sociais e mudanças na norma que disciplina a atividade de analista de investimentos, frequentemente usada por influenciadores para se legitimar.

O regulador também precisa lidar com a dissolução de outros conceitos, como as fronteiras entre países, mercados e até atividades. Para Copola, o mercado vive um estágio de complexidade em que as ofertas de produtos estão se misturando, quadro “que se agravou com a dissolução de fronteiras e conceitos”.

Incorporar a tecnologia ao processo de regulação do mercado sem perder as salvaguardas criadas ao longo dos anos é outro ponto central para a autarquia. “Quando vamos estruturar uma operação, esquecemos por que existem alguns regramentos, algumas normas para evitar conflitos de interesses e algumas funções de participantes do mercado, como custodiantes, administradores”, explica. “Essas funções existem para evitar problemas, mas a questão é como dar espaço para a inovação, como acomodar o novo cenário sem deixar de lado o tratamento dessas preocupações”, afirma.

A diretora reforça, porém, o papel da CVM na defesa dos interesses dos investidores. “A razão de ser da CVM é a segurança do investidor, esse é o mandato legal, mas este é um exercício com um alvo móvel”, explica, citando as inovações dos mercados, que criam riscos e ambientes mais complexos para esse investidor. “A forma como essa proteção se dá tem de mudar ao longo do tempo, pois um ambiente extremamente amarrado do ponto de vista regulatório também pode ter impacto no desenvolvimento dos produtos e dos mercados”, lembra. “A CVM olha como um ponto muito sensível o impacto regulatório também”, afirma.

Ela avalia que a proteção ao investidor precisa levar em conta a realidade brasileira. “Temos uma situação muito peculiar, somos um país em desenvolvimento, com baixíssima poupança, alto grau de analfabetismo funcional, pouca educação financeira, então a ferramenta clássica dos reguladores, que é a transparência, talvez não funcione sozinha”, diz. “E os reguladores se veem em uma sinuca de bico, pois garantir a segurança do investidor apenas com informação talvez não seja possível.” Para Copola, o tema deve seguir na pauta. “No mundo ideal, dos livros, dos manuais, informação seria a solução mais conhecida, mas esse é um dos desafios da regulação nesse ambiente de novidades para os próximos anos”, afirma.