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SÃO PAULO – A economia mundial atravessa um período de idiossincrasias, desafiando correlações históricas tradicionais. Exemplo canônico de peculiaridade na combinação entre possibilidade de recessão nos EUA e commodities cada vez mais caras – usualmente, o preço das matérias-primas apresenta caráter pró-cíclico.
A ruptura do padrão histórico encontra explicações variadas, passando pela desvalorização do dólar, pelas apostas no decoupling ou mesmo pela perspectiva de rápida retomada de um ciclo de crescimento vigoroso à frente.
Outro dilema, porém, encontra difícil explanação. Remetendo à Era Greenspan, um novo “conundrum” se configura nos EUA, com as taxas de juro de longo prazo e outras referências da economia mostrando resistência ao afrouxamento monetário promovido pelo Fed.
(Quase) etimologia
O termo conundrum foi utilizado há alguns anos pelo então presidente do Fed, Alan Greenspan, como uma forma de se referir ao dilema entre as taxas de curto prazo e aquelas de longo período.
Em um longo período de aperto monetário, o maestro Greenspan levou a Fed Funds Rate de 1,00% para 4,25% ao ano. No mesmo intervalo de tempo, o rendimento dos Treasuries de 10 anos apresentou alta de apenas 0,6 ponto percentual, enquanto a remuneração dos papéis de 30 anos subiu 0,25 ponto, aproximadamente.
E a atualidade
Hoje a situação se replica, mas em sentido contrário. Enquanto as reduções da Fed Funds Rate já somam 225 pontos-base, para 3,00% ao ano, o rendimento dos Treasuries de 10 anos pouco sentiu os efeitos da ação da equipe comandada por Ben Bernanke.
Para ser ainda mais criterioso, houve uma escalada recente dos juros de longo prazo. Desde o corte emergencial da Fed Funds Rate em janeiro, a remuneração dos papéis de 10 anos do Tesouro norte-americano passou de cerca de 3,30% para 3,50% ao ano.
Enquanto alguns interpretam o novo conundrum como um sinal evidente de que o Fed terá dificuldades em levar seus incentivos até o consumidor final, outros consideram o comportamento da curva de juros como sinal de confiança no futuro, dada a necessidade de voltar a subir o benchmark nos próximos anos.
Compondo o quadro dos pessimistas, o economista Paul Krugman, em coluna no The New York Times, chamou atenção para o tema e salientou: “as taxas que importam mais diretamente à economia, como as taxas das hipotecas e títulos corporativos, estão aumentando. E isto certamente agravará a retração econômica.”
Materialismo histórico
No início dos anos 2000, a manutenção dos juros de longo prazo em baixos patamares mesmo diante de um longo ciclo de aperto monetário foi justamente um dos precursores da bolha imobiliária e dos excessos de liquidez.
Forma-se, agora, um novo conundrum, talvez o cerne de uma terceira bolha. Porém, isso é só para daqui alguns anos; ainda estamos vivendo a segunda.