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Os efeitos deletérios da prolongada – e absolutamente imprevisível crise política – estão deteriorando cada vez com mais força a es expectativas e a confiança dos “gestores do dinheiro” (investidores) na economia nacional. O resultado é que o início da retomada do crescimento fica mais difícil e mais distante. Uma reportagem do “Valor Econômico” (“Crise política enterra expectativa de avanço dos ajustes neste ano”) relata com precisão este meio ambiente.
Há fatos concretos ocorrendo: a Medida Provisória 694, que eleva a tributação sobre juros de capital próprio e deveria aumentar em mais R$ 10 bilhões a arrecadação em 2016, perde a validade se não for votada hoje. Com má-vontade, o senador Renan Calheiros, conta matéria, disse que vai deixar a MP caducar.
Desse modo, os analistas ouvidos pelo Banco Central no Boletim Focus, na média, refazem gota a gota suas previsões para o PIB deste ano (saltou esta semana de 3,45 % para 3,50 %), porém, como registra reportagem de “O Estado de S. Paulo” de hoje, as projeções de bancos e consultorias dos últimos dias, após os mais recentes eventos da Operação Lava-Jato, já jogam, na maioria, a queda da atividade econômica para acima dos 4% e consideram que o PIB ainda será negativo em 2017.
O detonador dessa perda ainda maior da confiança já baixíssima que o governo tem no momento está na sensação, como anota o colunista Celso Ming também no “Estado” de hoje, no isolamento quase total da presidente Dilma Rousseff. A presidente está perigosamente só.
Os sinais externos de reaproximação de Lula e Dilma, depois do episódio da condução coercitiva para depor pela PF na sexta-feira, não correspondem ao que se vive nos bastidores. Há a solidariedade pública e reiterada da presidente com seu criador, porém, nada além, segundo informações de pessoas bem postadas que circulam em Brasília.
Não houve uma conversa franca ainda entre os dois sobre as mudanças nos rumos da política econômica que Lula e o PT desejam ardentemente e que segundo eles, salva a economia do buraco sem fundo em que está metido. Lula ia a Brasília na segunda, mas desmarcou e não há previsão de novo encontro entre os dois.
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O PT está afastado da presidente há tempos, a mútua solidariedade agora é por instinto de sobrevivência, a necessidade de colocar um freio na Operação Lava-Jato. Setores dos movimentos sociais ligados ao partido, com o MTST (sem tetos), já estão ameaçando abertamente ir às ruas não para defender a presidente, mas exatamente para criticar a política “neoliberal” em prática e exigir um cavalo de pau nela. Como Lula já avisou, com a economia na lona não haverá quem vá para as ruas defender Dilma.
O PMDB por seu turno, que há muito tempo, como está em seu DNA, já mantinha um pé em dois barcos (o governista e o oposicionista, porém mais firme no primeiro) está se armando para pular para um iate só, em sua convenção deste fim de semana. E não seria para o do Palácio do Planalto.
Os indícios de que o desembarque esta próximo são já visíveis: o principal deles a aproximação dos grupos de Temer e de Renan Calheiros (o sustentáculo de Dilma no Senado), com a escolha de Romero Jucá para formar na chapa da reeleição do vice da República à presidência do partido.
Pode ser que o rompimento público não se dê neste sábado. Contudo, há um movimento, com apoio de alguns governadores, para que o PMDB aprove uma moção de independência do governo, anunciando que seus parlamentares estarão livres para votar como melhor entenderem no Congresso.
Os ministros que estão com Dilma teriam liberdade para ficar ou sair, se ficarem, em nome pessoal, não da legenda. Ou seja, o PMDB vai declarar uma independência “relativa” – desfrutar das benesses do poder sem compromissos com a presidente.
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Exército: garantir a preservação da ordem pública
Este é o pano de fundo que está dando alento à oposição para tentar apressar o andamento do processo de impeachment da presidente. Ontem, a o STF liberou parte do acórdão da decisão do colegiado que estabeleceu as regras de tramitação do processo. Hoje, libera o restante. Porém, ainda falta o Supremo definir-se sobre a contestação de algumas dessas regras feitas pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Os oposicionistas vão, ainda hoje, fazer um apelo aos ministros da Suprema Corte para que eles apressem essa decisão.
A oposição acredita que os mais recentes eventos da Lava-Jato – caso Lula e delação de Delcídio – criaram um clima mais favorável ao impeachment. Confiam na “opinião das ruas”, que será de fato testada nas manifestações marcadas para domingo para todo o Brasil.
O governo e o PT esperam contrapor-se com ações públicas também no domingo, comandadas pela CUT, sindicatos e organizações sociais. Os dois lados vão, ao que tudo indica, medir forças. Mas há uma real preocupação de que isto possa vir a gerar algum sério confronto público, com consequências políticas imprevisíveis. O risco de uma escalada da radicalização política é para ser levado a sério.
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Lula explorou bem a controvérsia sobre seu depoimento forçado (condução coercitiva). Porém, depois de incentivar a ida de seus adeptos as ruas, Lula se recolheu. No fim de semana, circulou a informação que as Forças Armadas haviam comunicado à presidente que estavam acompanhando os movimentos das forças anti e pró-Lula naqueles dias.
Hoje, o jornal “Valor Econômico” traz a notícia que o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, em mensagem interna aos oficiais da reserva, afirma que a instituição acompanha com muita atenção a “evolução da crise político judicial” no país e terá “uma atuação pacificadora em busca da preservação da ordem pública”. Pode ser um recado para os inquietos (e pouco influentes) oficiais da reserva apenas, mas também pode ser um recado para as forças políticas.
Enquanto isso, como já registrado, as decisões econômicas ficam nas gavetas. É o retrato mais bem acabado disso o silêncio, o sumiço público do ministro da Fazenda, Nélson Barbosa, que está de pés e mais atados – nem no Palácio do Planalto os temas econômicos têm lugar.
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A Lava-Jato é um fantasma que assombra governistas e faz tremer até alguns adversários. O mais recente ectoplasma a assombrar as noites brasilienses é a informação de “O Globo” de hoje que a OAS e a Odebrecht estariam conversando sobre a possibilidade de seus principais dirigentes, Leo Pinheiro e Marcelo Odebrecht, aderirem à delação premiada.
Esta decisão, do lado da Odebrecht, pode ter sido precipitada por duas coisas, pois até então Marcelo vinha resistindo a qualquer insinuação para aderir à delação premiada: a situação da saúde dele, que estaria preocupando, e a informação, segundo a “Folha de S. Paulo”, que a funcionária da empresa responsável pela contabilidade das supostas propinas pagas por executivos da companhia estaria colaborando com os investigadores da Lava-Jato.
Outros destaques dos
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jornais do dia
– “Infraero terá Congonhas e Santos Dumont” (Globo)
– “BNDES amplia crédito subsidiado para concessão logística” (Globo/Globo)
– “Minério de ferro sobe e petróleo volta a valer mais de US$ 40” (Estado/Folha/Valor)
– “Petrobras consegue adiar projetos na ANP e ganha mais prazo no pré-sal” (Valor)
– “Recuperações judiciais crescem 116% no bimestre” (Estado)
– “Chineses avançam em distribuição de energia no Brasil” (Folha)
– “Justiça Federal ordena prisão do ex-senador Luis Estevão” (Estado/Globo)
– “Aberto no STF mais um processo [o terceiro] da Lavaa-Jato contra Eduardo Cunha” (Globo/Estado)
– “Caiu a liminar que impedia a posse do ministro da Justiça” (Estado/Folha)
LEITURAS SUGERIDAS
Editorial – “Crise política joga economia no chão” (diz que aumenta da fragilidade do governo Dilma, de que petistas se afastam e oposição quer substituir, enquanto medidas não são tomadas por falta de base parlamentar) – Globo
José Paulo Kupfer – “Mercados seguem a cartilha” (diz que não por coincidência que movimentos de realização de lucros costumam suceder ondas de altas sustentadas por componentes não técnicos) – Estado
Editorial – “Vassalagem de Dilma a Lula” (diz que presidente reduziu a Presidência da República a um puxadinho de uns tantos imóveis que Lula usufrui) – Estado
Editorial – “Pressa sem atropelo” (diz que acontecimentos dos últimos dias voltaram a acelerar discussões sobre o impeachment, que precisam ser resolvidas o quanto antes) – Folha
Raymundo Costa – “À espera de 13 de marco” (diz que o PT cobra pedágio de Dilma agora que Lula é candidato em 2018 – quer que ela mude de rumos e anuncie, por exemplo, ter desistido da reforma da Previdência) – Valor
Yoshiaki Nakano – “Até quando o Brasil suporta a crise” (diz que reação do mercado mostra o enfraquecimento irrecuperável de Lula e da presidente Dilma) – Valor