Crise da Strategy: entenda o efeito dominó que ajuda a explicar a queda do Bitcoin

Maior compradora de Bitcoin do mundo se vê em um teste de fogo diante da iminente decisão da MSCI de tirar a empresa de seu índice - e pode ameaçar modelo de negócio que transforma empresas em cofres da criptomoeda

Paulo Barros

Michael Saylor, fundador da Strategy, antiga MicroStrategy (Foto: Divulgação)
Michael Saylor, fundador da Strategy, antiga MicroStrategy (Foto: Divulgação)

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O Bitcoin (BTC) passa por forte queda que tem diversos vetores como pano de fundo, mas um deles ganhou peso especial nos últimos dias: a crise da Strategy (MSTR), a maior compradora de BTC do mundo.

A empresa, historicamente usada como porta indireta para exposição ao ativo por investidores institucionais e de varejo, vive um momento delicado que, para alguns, pode ameaçar um modelo que começou a ser replicado pelo mundo e é considerado como um dos propulsores de preço do Bitcoin.

A companhia fundada por Michael Saylor acumula queda superior a 40% no último mês e recuava cerca de 4% nesta sexta-feira (21), negociada perto de US$ 170. A baixa, mais acentuada que a do próprio BTC, ganhou nova intensidade na quinta-feira, quando um alerta do JPMorgan serviu de gatilho para a intensificação das vendas no mercado cripto e coincidiu com a virada das bolsas americanas.

Oportunidade com segurança!

Em relatório publicado na véspera, o JPMorgan afirmou que a queda recente da Strategy está menos relacionada ao movimento do Bitcoin e mais ao risco crescente de que a MSCI retire a empresa de índices como MSCI USA, MSCI World e Nasdaq 100, sob o argumento de que empresas que compram Bitcoin para o caixa são mais parecidas com fundos do que com demais companhias listadas – e por isso deveria ser tratada como tal. A decisão será anunciada em 15 de janeiro.

Segundo o banco, cerca de US$ 9 bilhões do valor de mercado de US$ 59 bilhões da empresa estão alocados em fundos passivos que replicam esses benchmarks. Uma exclusão poderia levar a saídas automáticas de US$ 2,8 bilhões, e até US$ 8,8 bilhões caso outros provedores sigam o movimento. Isso reduziria liquidez, enfraqueceria o acesso a mercados de capitais e colocaria pressão adicional sobre um papel já altamente volátil.

O risco abriu espaço para uma reprecificação rápida, aproximando o valor da companhia do montante de Bitcoin que possui, cenário que o JPMorgan diz poder piorar caso a decisão da MSCI seja negativa.

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A resposta de Michael Saylor

Diante da pressão, Saylor voltou a se manifestar publicamente. Ele destacou que a Strategy não é um fundo nem um trust, mas uma empresa operacional com um negócio de software estimado em US$ 500 milhões. Também enfatizou que a companhia usa Bitcoin como capital produtivo dentro de uma estratégia própria e citou a emissão de cinco títulos estruturados em 2025, somando US$ 7,7 bilhões, como evidência de sua atuação ativa.

A tentativa de reforçar a narrativa corporativa busca afastar o risco de reavaliação metodológica pela MSCI, mas o mercado segue cauteloso enquanto a decisão não é tomada.

O que pesa além da MSTR

Além do impacto da Strategy, analistas apontam fatores adicionais para o ambiente de venda. Segundo Rony Szuster, head de research do Mercado Bitcoin, investidores de longo prazo vinham reduzindo posições desde os últimos topos, movimento reforçado pela liquidação de mais de US$ 1 bilhão por uma grande baleia. A operação elevou a percepção de risco e estimulou novas vendas, especialmente entre investidores de varejo.

Szuster também afirma que a deterioração macroeconômica contribuiu para o pessimismo. Nas últimas semanas cresceu o receio de que o Federal Reserve não execute o corte de juros previsto para dezembro, o que aumentou a aversão a risco e pressionou ativos como o Bitcoin. Esse ambiente acelerou liquidações de traders alavancados, ampliando o movimento de queda de forma mecânica conforme margens eram consumidas.

Nesta sexta, a expectativa de cortes em dezembro voltou a ganhar força, o mercado elevando apostas de 39% para mais de 70%. O movimento impulsionou ações americanas, mas só ajudou a estancar a queda do Bitcoin, que segue no vermelho no dia.

Investidor não-cripto

O JPMorgan reforça esse diagnóstico ao apontar que, embora a liquidação alavancada que dominou outubro tenha se estabilizado em novembro, a continuidade da queda passou a vir de investidores não-cripto, principalmente do varejo que acessa o mercado por meio de ETFs spot de Bitcoin e Ethereum.

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Segundo o banco, cerca de US$ 4 bilhões foram vendidos nesses ETFs em novembro, ritmo que já supera o observado em fevereiro e março, até então os meses mais fortes de saídas desde o lançamento desses produtos. O comportamento contrasta com o mesmo investidor comprando ETFs de ações no período, sinalizando uma retração seletiva do segmento mais especulativo do varejo, justamente aquele mais exposto a empresas como a Strategy.

Além disso, ETFs de Bitcoin vêm registrando saídas expressivas, reforçando a pressão vendedora, enquanto temores infundados, como boatos sobre ataques quânticos, ampliaram o nervosismo entre investidores menos experientes.

Para onde vai o preço agora?

Segundo Ana de Mattos, analista técnica e parceira da Ripio, há alguma demanda compradora tentando conter a pressão sobre o Bitcoin, mas as resistências de curto e médio prazo estão distantes, nas regiões de US$ 88.000 e US$ 100.000. Caso a queda prossiga, o BTC pode testar novamente áreas de US$ 80.000 e US$ 79.000.

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No caso do Ethereum, a analista destaca que o ativo atingiu mínima de US$ 2.663 e segue com predominância de força vendedora, com suportes projetados entre US$ 2.550 e US$ 2.400. Eventuais correções levariam o preço às resistências de US$ 2.870 e US$ 3.260.

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)