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19h30 – 12/11
InfoMoney
PARIS – Juros baixos cada vez mais baixos – esta é a saída que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estão encontrando para conter a recessão. No mercado financeiro americano, já se falava em uma redução de 2% para 1,50% e alguns analistas – poucos, é verdade – não hesitavam em admitir que, até o primeiro semestre do próximo ano, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) poderá trazer a taxa para até 1%, como fez há 50 anos. São esses, pelo menos, os sinais que ele vem dando ao mercado.
E na União Européia, onde o PIB de quase US$ 9 trilhões desaba de 3,2% para menos de 1,5%, dos quais 0,7% na Alemanha? Bem, aqui há uma notícia considerada “milagrosa”: o banco central europeu cortou os juros! Sim, é verdade! Não minto, não! Depois de rejeitar qualquer recuo desde o último corte de 0,5 ponto, no dia 24 de setembro, em pleno sufoco do terror, o BCE aprovou nessa semana uma redução dos juros em 0,50 ponto. Agora, os juros básicos baixam para… 3,25%, ainda acima dos declinantes 2% nos EUA.
Ufa! Foi a reação de desafogo meio desanimado do mercado financeiro. Essa redução já era, dizem. Veio socorrer tardiamente o paciente que só tem agora 1,5% de oxigênio no balão… “Deveria ter vindo há seis meses”, afirma o diretor de Pesquisa Econômica do banco português Caixa de Depósitos, Patrick Artus, em Paris. Ele reflete, até com certa parcimônia, a reação irada dos próprios governos da zona do euro, que já começam a admitir um crescimento econômico de apenas 0,6% no próximo ano. O próprio presidente do BCE, Win Duisenberg, admitiu, ao anunciar a superada decisão, que o crescimento econômico da eurozona no trimestre poderá ficar em 0,1%. Sim, 0,1%, ou seja, praticamente zero. Os indicadores econômicos da França, da Alemanha, da Itália, da Espanha confirmam forte retração na produção industrial e no consumo.
Ao mesmo tempo, o presidente do BCE prevê que a inflação vai ficar em 2% ou até menos em 2002… Ora, os preços estão recuando na Europa porque o consumo caiu com o aumento da incerteza e do desemprego. E isso mesmo com as deliciosas 35 horas semanais, na França, onde se trabalha apenas quatro dias por semana com uma hora de almoço. Ou você folga na sexta-feira, ou na segunda-feira… Uma solução “genial” que já provocou greves no próprio serviço público, simplesmente porque o governo não estava contratando gente para substituir os que folgavam…
Um ano perdido em vão
Este foi um ano perdido à toa para a Europa, com o PIB recuando de 3,2% para menos de 1,5% e no próximo ainda mais. E foi exatamente o ano da recessão e do terror, que exigia um esforço monetário e fiscal.
O chanceler Gerhard Schroder, da Alemanha, às voltas com um crescimento de apenas 0,7%, limitou-se a dizer que a decisão do banco central “é um movimento justificado e importante, um impulso adicional ao crescimento…”
Mas que crescimento? A Alemanha, a mais prejudicada pelo juro alto, se debate com um PIB de 0,7%; na França menos de 1,5% e daí por diante. Para os institutos de economia, se o BCE, já no último corte de 0,50 de 24 de setembro, sabia que poderia fazer um outro igual, por que não o reduziu mais cedo, em dois de 0,25 dando algum sinal positivo a uma economia desanimada e em franca retração? A resposta do presidente do BCE é sempre a mesma: não esperávamos que os efeitos da recessão americana e do ataque terrorista fossem tão fortes… Parece que em Frankfurt ninguém lê o Financial Times ou o Wall Street Journal (é lógico que não lêem esta coluna…) que vêm divulgando indicadores cada vez mais negativos sobre a economia americana.
No mercado financeiro europeu dava-se ontem a resolução do BCE como um fato já superado, e aplaudia-se o Banco da Inglaterra, que, no mesmo dia, anunciava sua sétima redução de juros, neste ano, trazendo-o de 6% em janeiro para 4%. E não vai parar aí.
O que se comentava sexta-feira era até onde o Fed estaria disposto a ir no corte de juros neste ano e em janeiro. A maioria dos analistas fala num corte de mais 0,25, porém os dados sobre a economia americana divulgados neste fim de semana continuavam sombrios – para não dizer mais.
Está barato, mas não compram!
Os preços médios dos carros registraram a maior baixa desde 1972, ou seja, 4,7%, os da gasolina nada menos que 21%, os dos combustíveis em geral, 7,7%. Mesmo assim, porém, com mais dinheiro no bolso, o consumidor americano ainda reluta. Nas pesquisas, diz que vai comprar mais, porém, na verdade, não compra. Tem medo. As cinzas do Trade Center continuam no ar.
O desemprego estimado no início do ano em no máximo 5% da força de trabalho está em 5,4% e, como as dispensas continuam aumentando, estima-se que, no fim do primeiro semestre de 2002, deverá chegar a 6%, ou mais.
Juros de 1%?
O próprio Greenspan, ao anunciar um corte de juros não de 0,25 como se esperava, mas de 0,5 ponto, deixou claro que agia assim por causa do “aumento da incerteza e a deterioração dos negócios aqui (nos EUA) e no exterior”. Ou seja, ele não está nada otimista, mesmo após ter batido o recorde de dez cortes de juros, 4,5 pontos, só neste ano.
Mesmo assim, enquanto o BCE continua hesitando em cortar abaixo de 3,5%, o mercado financeiro americano tinha como certo que virá mais 0,25 em dezembro. E alguns analistas vão mais longe. Neal Soss, economista do CSFB, não hesitava em prever para a Agência Bloomberg que, no próximo ano, o Fed poderá baixar o juro para 1%!
Ele apresenta seus argumentos históricos, que são ponderáveis: “Quando a taxa de desemprego chega a 5,4% e deve elevar-se para 6,2% em abril, o Fed fará o que fez há 50 anos”. Outros analistas como William Dudley, do Goldman Sachs, e Burce Steinberg, da Merrill Lynch, são mais “conservadores”: falam entre 1,25% e 1,50% nos primeiros meses de 2002. Poucos dos pesquisados acreditam que Greenspan ficará apenas nos 2%, o que já representa dinheiro a quase zero por cento, considerada a inflação.