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Coronavírus: o que muda para a economia após a decretação de pandemia?

Mudança na comunicação pela OMS gera nova onda de pânico nos mercados, enquanto investidores têm dificuldades de estimar impactos da doença

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(Crédito: NIAID-RML)
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SÃO PAULO – Os temores com os efeitos econômicos do novo coronavírus voltaram a impactar com força os mercados nesta quarta-feira (11), com os investidores globais reagindo à notícia de que a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou pandemia da doença.

O fato novo fez o Ibovespa voltar a cair mais de 10% durante um pregão e acionar, pela segunda vez na semana, o circuit breaker – uma espécie de disjuntor do mercado acionário, que entra em ação em momentos de pânico e fortes quedas e suspende temporariamente os negócios.

Investidores têm dificuldades para dimensionar os impactos da doença sobre a economia mundial, na medida em que o número de casos se multiplica e as respostas anunciadas pelas autoridades ainda são difíceis de quantificar.

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Agora, com a decretação de pandemia, há dúvidas sobre o que muda na prática.

A OMS classifica pandemia como a disseminação mundial de uma nova doença, normalmente quando uma epidemia se espalhou por dois ou mais continentes com transmissões locais.

A nova definição não tem a ver com mudanças nas características ou nível de gravidade da doença, mas sim com sua expansão geográfica, e não segue um processo formal de avaliação na instituição. De qualquer forma, o uso do termo indica mudanças no olhar sobre a doença.

“Nas últimas duas semanas, o número de casos de Covid-19 fora da China cresceu 13 vezes e o número de países afetados triplicou. Há agora mais de 118 mil casos em 114 países e 4.291 pessoas perderam suas vidas”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Ela afirmou, ainda, que a declaração de pandemia não significa que a situação saiu do controle nem que o mundo deva abandonar as medidas de contenção da doença, mas pediu ações mais enfáticas.

“Pandemia não é uma palavra para ser usada de maneira leviana ou descuidada. É uma palavra que, se mal utilizada, pode causar medo irracional ou aceitação injustificada de que a luta acabou, levando a sofrimento e morte desnecessários”, ressaltou ele.

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Além disso, ele afirmou que os países precisam preparar respostas em áreas chaves: detectar, proteger, tratar, reduzir a transmissão, inovar e aprender. Os diretores da organização disseram, ainda, que os países não devem seguir para fazerem apenas a mitigação (estratégia de saúde que busca cuidar dos doentes).

Até hoje, a OMS vinha evitando o termo “pandemia”, com receio de passar uma ideia de pânico e falta de controle sobre a situação, o que poderia fazer com que países reduzissem métodos de controle e contenção.

Para o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a declaração de pandemia não muda nada, na prática, para o Brasil Isso porque o país já havia registrado casos e vinha adotando procedimentos mais cautelosos em comparação com outros países.

“Na prática, não [muda]. Nós já temos casos confirmados dentro do país, temos transmissão local, não temos transmissão sustentada, que pode ser a próxima etapa. E cada etapa dessas tem medidas adicionais que vão sendo acrescentadas”, disse antes de participar de audiência pública na Câmara dos Deputados.

Para ele, a organização demorou a fazer o movimento, o que pode ter prejudicado países como a Itália. “Nós já estávamos trabalhando assim. Já estávamos considerando [pessoas vindas da] América, Europa, Ásia, Oceania [como possíveis casos suspeitos]. Só não estávamos considerando os da América do Sul e África. Agora, todos”, afirmou.

Segundo o ministro, é provável que o Brasil passe a ter transmissão sustentada da doença – ou seja, quando se torna impossível de detectar os elos de transmissão ou quando o processo atinge nível 5 (cinco pessoas envolvidas na transmissão dentro do país).

Mandetta disse, ainda, que a declaração de pandemia faz com que o país possa identificar casos com base em sintomas, histórico de qualquer viagem internacional ou contato com alguém infectado, e não apenas com uma lista de países de maior risco.

O que muda na economia?

Para Marcelo Giufrida, ex-presidente da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) e CEO da Garde, a declaração de pandemia pode ser benéfica para alguns países, porque retira obrigações individuais sobre o avanço da doença.

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“Enquanto o coronavírus era uma epidemia, os países tinham que tomar uma série de medidas individualmente para se proteger contra o avanço da doença. Agora que virou pandemia, a OMS chama algumas obrigações para si e o esforço vira global, em uma cooperação”, disse.

Do ponto de vista de mercado, Giufrida afirmou que o que tem causado pânico entre os investidores é a falta de informações para que eles possam de fato prever os impactos do coronavírus sobre a economia global.

“Não é uma boa notícia.  O mundo precisa entender como vai ser a recuperação da atividade na China, principalmente. Eles conseguiram conter o avanço da doença internamente e já estão soltando a economia de novo, mesmo que muito lentamente. Quando o mercado conseguir ver uma volta da atividade da China, vai projetar melhor o impacto nos demais países”, disse.

Para o economista Roberto Luis Troster, ex-economista-chefe da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e sócio da Troster & Associados, o Brasil pode ser menos impactado pelo coronavírus do que outros países do mundo em função de uma postura economicamente mais isolada, mas uma lentidão do governo em reagir pode prejudicar.

Ele acredita que os impactos vão desde a interrupção no fornecimento de insumos, o que paralisa cadeias de produção, até deterioração de expectativas. De qualquer forma, o especialista é contrário à adoção de medidas anticíclicas de ampliação das despesas para proteger a economia, como a discutida flexibilização do teto de gastos.

Na avaliação de Troster, é possível colher resultados positivos a partir da aposta na agenda de reformas, com profundas modificações no sistema tributário nacional, e alterações no sistema de crédito para o setor privado.

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